Capítulo 4 - Tiago

1158 Words
Tiago Souza – 14 semanas antes Minha mãe me disse para nunca seguir o caminho do crime, sempre me disse pra ter calma e que no mundo tinha muita gente r**m. Ela, como sempre, estava certa e por isso tenho certeza que se decepcionaria se me visse hoje. Era para ser algo simples. Sistemático até... Levar alguns pacotes no bolso, ir para um determinado lugar, pegar dinheiro, entregar pacote. E repetir isso com o próximo drogado que viesse. Por anos Beto me disse que era fácil, que não daria problema pra mim. Recusei tantas vezes e de tantas formas que quando finalmente o desespero bateu, tive que dizer sim. E pra quê? Pra nada. O dinheiro só ajudou a prolongar a dor da minha mãe com remédios sem efeito, ela morreu comigo sendo seu maior desgosto e agora eu não conseguia sair dessa vida desgraçada. Eles não me deixavam. Faça a sua parte e cale a boca. Vejo mais uma pessoa vindo discretamente se encostar no poste ao meu lado. Uma mão encosta na minha e puxo discretamente o bolo de dinheiro do seus dedos. Abaixo e conto rapidamente, por que Deus me livre a conta não bater. Não podia correr o risco de perder um dedo por causa de um real. Puxo um pacote do meu bolso e coloco em seu bolso rapidamente enquanto simulo um abraço de lado. E assim mais um se vai. O ciclo recomeça muitas vezes no decorrer das horas. Quando enfim termino meu “turno” sigo pelo beco escuro designado e entrego todo o dinheiro na mão do responsável. Aguardo a contagem e evito olhar para Beto no canto da sala. - Amanhã de novo 18h, Tiago – é a primeira frase dita desde que cheguei. Aceno me sentindo patético, como se eu tivesse alguma opção além de acenar. - Passa aqui pra pegar a coca – Dispensa. Viro-me e vou embora. De volta a rua me afastando do barraco precário sinto uma mão no ombro e não preciso me virar pra ver quem é. - Sai fora, Beto – digo sem paciência puxando meu ombro da sua mão. Beto bufa atrás de mim. - Eu entendi que tua mãe morreu mas isso não é motivo pra me evitar, não te obriguei a nada, cara – ele fala através do cigarro pendurado na boca. Ele sabe que não quero falar da minha mãe e mesmo assim me provoca. - Não f0de – respondo e me afasto. Poucos segundos se passam até ouvir sua voz no beco vazio. - Você é um bobão – ele diz atrás de mim em sua última tentativa. Evito sorrir. - E você um p*u na b***a – devolvo virando a esquina com sua risada ficando para trás. Foi assim que nossa amizade começou anos atrás. Beto tinha medo de dizer palavrão e a mãe ouvir e me chamou de bobão quando na verdade queria dizer outra coisa. Eu, por minha vez queria dizer que ele era um belo de um p4u no cu, mas com igual medo da sua mãe acabei optando por p4u na b***a. E desse jeito foi criada a receita da nossa amizade: uma pequena dose de medo com uma grande dose de idiotice. Beto seguiu os passos do pai e se voltou para a vida fácil, eu por outro lado tentei seguir o que minha mãe queria mesmo que isso só nos trouxesse miséria. Mesmo assim continuamos amigos. Beto dizia que eu era o policial bom e ele o policial nenhum. Chego em casa e nem me preocupo em ligar a luz, foi cortada semana passada depois do terceiro mês sem pagar. Tomo um banho gelado tirando todo o fedor e sujeira que os viciados parecem passar pra mim. Me visto com a ajuda da lanterna do celular e desço até a esquina pra lanchonete da tia Flávia. Ela não é minha tia mas toda mulher por aqui acima dos 40 já vira automaticamente tia de todos. Peço um lanche e sento na bancada do pequeno lugar esperando ficar pronto enquanto tia Flávia some atrás da porta da cozinha. Vejo unhas amarelas batendo no balcão ao meu lado tamborilando ao ritmo de uma música. O toque era inconfundível. - Smoke on the water – digo quebrando o silêncio. A dona das unhas amarelas se vira e me olha com os olhos brilhando em diversão. Ela usa jeans rasgados, camiseta preta e tem as pontas no cabelo roxa. - Estou surpresa que alguém nesse fim de mundo conhece Deep Purple - Devolve. Eu diria que alguém nesse fim de mundo conhece Two and a half Man, mas deixo quieto, reconheço uma a******a quando vejo uma. - Não subestime o povo da favela – provoco – Nós até ouvimos dizer que existem outros gêneros musicais além de funk – Falo em falso choque. A garota ri alto e sorrio em troca me sentindo mais leve pela primeira vez em muito tempo. - Não me diga! Como vocês são ecléticos! – ela zomba. Rio do seu exagero e me sinto levemente surpreso por uma garota que mora na favela conhecer a palavra eclético. Apesar que tenho a vaga sensação que a palavra se tornou bastante conhecida depois que Pablo Vittar transformou eclética em um meme quando se auto proclamou epilética. Tia Flávia interrompe nossa interação trazendo um lanche em uma sacola. - Um x-bacon com bacon extra – ela anuncia colocando na frente da garota que sorri grande. - Você é a melhor, Flaviflor – diz a garota e eu acho graça do apelido. Ela paga, se levanta e começa a sair. Eu não posso acreditar. - Ei, eu não ganho nem um nome? – eu pergunto. - Isso já foi trabalho dos seus pais e caso tenha esquecido sua certidão de nascimento deve te dizer – ela debocha ainda saindo. - Que gracinha... Eu quero o seu! – grito por ela já estar afastada. Ela se vira e sorri. - Você já sabe minha banda favorita e meu lanche favorito, acho que chega por hoje! – ela grita e vai embora. Olho para tia Flávia que está estreitando os olhos do outro lado do balcão. - Você sabe o nome dela? – pergunto ansioso. - Sei – é sua resposta simples enquanto continua me encarando. Ela vai me fazer implorar pelo visto. - Qual tia? – peço como uma criança – Por favor... – - Ela é uma boa menina, Tiago... Não envolve ela nisso – Tia Flávia responde e volta para dentro da cozinha. Isso foi um belo balde de água fria. *** Na cidade o crime se tornou um emblema de classe e raça. Porém no subúrbio, é íntimo e psicológico - resistente a generalização, um mistério da alma individual. ⁠Pobreza não é falha de caráter ou falta de motivação. Pobreza é falta de dinheiro. - Barbara Ehrenreich *** Se você está gostando da história deixe um comentário como incentivo, obrigada!
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