Capítulo 3 - Samuel

1803 Words
Samuel Costa – Dias atuais Escuto o barulho da sirene e empurro o sanduíche meio comido de lado. Encontro Sandro se movendo pelo corredor. - Por quê não fui avisado? – pergunto direto. - Você não come há 9 horas, quis te dar uma pausa – explica. Sorrio para Sandro, ele sempre tentando cuidar da equipe. Não digo mais nada por que chegamos na saída lateral do hospital e a ambulância está estacionando. Vejo uma maca sair com uma jovem e ajudo como posso a estabilizar a maca no chão. - Vítima inconsciente com ferimento aberto por arma de fogo, perfurocontuso penetrante – informa Lucas, o socorrista que acompanhava o caso. - Sem orifício de saída? – pergunta Sandro por via das dúvidas. Mas nós dois sabemos que não tem, se tivesse, seria um ferimento transfixante e Lucas teria informado. Estou colocando o oxigênio no rosto da jovem me equilibrando enquanto os outros empurram a maca. - Não, ainda tá dentro – ele confirma pegando uma das pontas da maca e empurrando. - E a outra? – Sandro pergunta apontando para dentro da ambulância onde claramente podemos ver os pés de uma segunda pessoa em uma maca. Por um momento o socorrista abaixa a cabeça. - Não resistiu – Não fomos rápidos o suficiente é o que escuto. Nesses momentos qualquer um levaria alguns segundos, talvez até minutos para absorver que alguém morreu. Uma mãe acabou de perder um filho, talvez um filho perdeu uma mãe e um parceiro ficou só. Mas não nós, um segundo pode ser a diferença entre a vida e a morte, então continuamos focando na pessoa que ainda está viva e depende do nosso atendimento. - Pressão? – pergunta Sandro prático sabendo que o outro corpo vai ser levado para o IML. - Instável – Lucas responde. Pressão variando muito, subindo demais ou abaixando demais era algo que impossibilitava alguns procedimentos. Pelo estado da paciente sei que não dá tempo de um raio-X para checar onde está a bala, o que dá é pra tentar estabilizar o máximo que pudermos e ir direto para a cirurgia. Como estou na ponta começo a conduzir a paciente para a ala de trauma mas Sandro me impede. - Trauma tá lotado, manda pro centro cirúrgico, sala 3 – ele guia. Aceno e a levo junto com os outros para o centro cirúrgico, sei que Sandro está se preparando para a cirurgia e sei que é o que farei em breve. Mesmo que eu seja novo e ainda residente o procedimento padrão está gravado a ferro e fogo na minha mente. Não posso correr o risco de esquecer, nessa profissão cada pedacinho de conhecimento conta. Vejo Lucas correr para a ambulância novamente e acho estranho. - Acidente de carro aqui perto, vai vir outra em breve – revela uma das enfermeiras. Percebo que hoje vai ser um dia cheio. Claro que aqui sendo o hospital mais perto de algumas comunidades vira e mexe sempre tem algo grande acontecendo. Vítimas de deslizamento, balas perdidas, overdose. Tem de tudo. Mas geralmente temos algumas horas entre um pico e outro, esse acidente de carro aproxima duas tragédias em um curto período de tempo. Lamentável. Após checar que a jovem está semi-estável vou me higienizar e preparar para a cirurgia. Sandro está do meu lado terminando de lavar as mãos. - Você acha que ela vai sobreviver? – pergunto olhando para a garota, parece ser tão nova provavelmente nem é maior de idade ainda. - Ela passou o pior, tomou um tiro e não sangrou até morrer. A bala ainda tá nela e ela respira... Acho que essa garota quer viver – ele conclui colocando as luvas. Aceno em concordância... Ela passou por maus bocados e ainda estava aqui, agora era nosso trabalho garantir que continuasse. Esperamos o sinal da anestesista enquanto separamos os instrumentos cirúrgicos necessários. Meu estômago ronca pelo sanduíche que não terminei e isso me lembra meu ritual. Me abaixo para a altura do ouvido da garota. - Se você sobreviver, te devo um sanduíche – sussurro recebendo um sorriso de Sandro. - Já afundei a garota, pode começar – a anestesista libera. - Situação? – pergunto. – Costela fraturada, perfuração do pulmão – ele responde. Então temos um pneumotórax. Quando a fratura provoca lesão grave perfurando o pulmão, conforme o ar vaza, ele se acumula anormalmente na cavidade entre o pulmão e a membrana interna do tórax. Se não fossemos rápidos em fechar a perfuração o pulmão poderia colapsar. - Eu vou ter que drenar o tórax. Preciso de dois drenos adultos – pede Sandro começando a cirurgia após uma vistoria de inconsciência e pressão. A cirurgia segue com cada um fazendo sua parte minuciosa. Sinto pena quando vejo a costela fraturada. Quando essa garota acordar vai sentir muita dor e a recuperação não vai ser fácil. Sandro enfim chega na parte de retirar o corpo estranho. - Pinça – pede Sandro que em seguida já tem o instrumento colocado em sua mão. Cuidadosamente ele insere a pinça no corpo da jovem. Todos nós esperamos pacientemente nesse momento crítico. A mão não pode tremer, a bala não pode escapar, não pode dar errado. Sandro retira a pinça e na ponta está a bala ensanguentada. Ele coloca no recipiente de metal com um alto “plop.” Sorrimos por nada ter dado errado mas não nos permitimos muito tempo, ainda precisamos começar a suturar e fechar a ferida do corpo. Antes que a fase final começasse Denise, a enfermeira chefe, abre a porta e chama. - Precisamos de um médico lá fora, tem muitos feridos de um acidente, a ambulância tá chegando – Sandro imediatamente me olha. - Vai, eu termino aqui – ele determina. Com um aceno saio da sala de cirurgia já me livrando do avental cirúrgico sujo de sangue. Do lado de fora posso ver que a equipe restante está se mobilizando para a lateral onde duas ambulâncias chegam. É um caos total. - Quantas pessoas? – pergunto para Denise. - Eu já perdi a conta, tem mais uma ambulância vindo – Quando as portas das ambulâncias se abrem faço meu trabalho em avaliar quem está em pior estado. Na minha frente tem um total de cinco pessoas com graus diferentes de ferimentos. Chego perto de uma moça desacordada em um leito. Morena, casa dos quarenta. - Inconsciente, mas estável - informa Lucas trabalhando para puxar sua maca. Vou para o próximo. Um senhor branco, casa dos 40, inconsciente. Checo seus sinais vitais. - Esse aqui morreu – aviso após não sentir sua pulsação. Próximo. Um rapaz com o pescoço imobilizado, o primeiro que vejo consciente. - Você pode mexer os braços e as pernas pra mim? – peço. Ele mexe levemente os dois braços e uma das pernas. Na perna esquerda um pedaço enorme de ferro está cravado na sua coxa. Torço para não ter pego no Fêmur. - Quero uma antitetânica nele e depois direto pra cirurgia – Ouço Victória, a diretora do hospital mandando levar alguém para o trauma. - Trauma tá lotado, não cabe mais ninguém Doutora – avisa Denise. - Dá um jeito, arruma um espaço. Os que não couberem, faz uma triagem no corredor – coordena Victória. Lucas me leva até um rapaz inconsciente. - Bateu a cabeça quando o carro capotou e depois atravessou o parabrisa... – ele avisa. Posso ver pedaços de vidro ainda grudados na pele. - Tomografia do crânio, rápido – indico. Entro por um momento no hospital enquanto a outra ambulância não chega. Vejo algumas enfermeiras já trabalhando em alguns para limpar os cortes superficiais. Aplicando curativos e enrolando bandagens. Tem gente em pé, nas cadeiras e sentadas no chão. Aquelas que não precisaram de ambulância mas ainda tiveram sua quota de machucados. A primeira mulher inconsciente acorda e começa a gritar com o rapaz do ferro na perna. - Assassino! Matou meu marido! – grita histérica. O caos se instaura quando os ânimos começam a se voltar contra o garoto que aparentemente era o motorista do carro que envolveu a colisão entre três veículos. Olho para o rapaz, ele está com o sangue seco, sujeira e roupas rasgadas usuais de quem sofreu um acidente... Meio grogue pela medicação e com ferro ainda na perna. Ele não precisava disso agora. Chamo Denise de canto. - Vê se administra um ansiolítico na senhora e separa o garoto – Denise sai e imediatamente puxa a senhora de volta para sua cadeira. Vou até o rapaz. - Sou o Dr. Samuel, vou te examinar agora – digo me apresentando. Ele acena com a cabeça e permanece parado. Noto sua postura rígida e mãos contraídas em punhos, ele deve estar sentindo muita dor. Só posso cuidar dos seus outros ferimentos enquanto aguardo a liberação de uma das salas de cirurgia. Pego um kit de sutura e retorno para seu lado decidindo costurar um dos cortes profundos no seu braço esquerdo. - O que aconteceu? – pergunto enquanto limpo a ferida. - Eu não sei, os caras me disseram que meu carro capotou – ele fala a contragosto. - Você não lembra de nada? – pergunto suavemente enquanto aplico a anestesia local, ele parece não notar. - Muito grito, fumaça e depois acordar aqui na ambulância com uma dor do caralh0 – ele fala. Ele parecia miserável. - Você perdeu alguém? – pergunto começando a costurar. - Tá mais pra eu tirei a vida de alguém – ele fala abatido olhando para onde a senhora o chamou de assassino. Um acidente com vítima fatal era uma desgraça em cadeia. Em nenhum momento deixo de trabalhar em seu corte. - E talvez eu tenha perdido também, eu não sei – ele continua. - Alguém em cirurgia? – pergunto adivinhando. Talvez o rapaz inconsciente. Ele acena abatido e nem percebe que dei o último ponto em seu ferimento. Eu sou um médico, não posso garantir que vai ficar tudo bem em uma situação como essa, eu só posso torcer e fazer o meu melhor. Ofereço a ele o que me cabe: - Se sentir algo diferente você avisa, sua cirurgia não deve demorar, vamos dar o nosso melhor por todos – garanto - Você não sabe o que aconteceu, não se culpe até ter certeza – aconselho. Por um momento a luz da esperança brilha em seu semblante. Despeço-me dele com um aceno quando vejo outro paciente que precisa de atenção. Mesmo não resolvendo sua perna no momento eu sei que fui útil. As vezes recai sobre um médico o trabalho de aliviar a mente tanto quanto o físico. *** O que fazemos para nós mesmos morre conosco. O que fazemos pelos outros e pelo mundo permanece e é imortal. - Albert Pine *** Se você está gostando da história deixe um comentário como incentivo, obrigada!
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