São coisas que somente o tempo irá curar
Se for para nunca mais te ver chorar
São coisas que somente o tempo irá curar
Se for para nunca mais te ver chorar
Se foi tudo vai passar
CPM 22 (Tarde de Outubro)
Esperei por uma ligação dele. Qualquer uma. Mas, meu telefone não tocou. Depois que o vi no bar do seu Jorge, não nos vimos mais. E ele não havia mandado uma mensagem ou respondido as minhas. Senti meu mundo ruir, todos os sonhos que tinha também se foram. Eu somente não queria acordar aquele dia, mas a realidade bateu fundo, com uma ressaca para me deixar com o estômago embrulhado. E voltei com a minha rotina depois do feriado de natal. Voltei para meu emprego como auxiliar em marketing em uma empresa de perfumes. A LeBlanc era a maior empresa no país e tinha filiais espalhadas por todo mundo. O dono era franco-americano, nascido no Brasil. E por ter vários contatos no mundo empresarial, a LeBlanc cresceu desde então. Não havia como negar, ele era um empresário de sucesso e além de tudo carismático. Todos gostavam dele e da sua administração e do endomarketing que existia dentro das filiais. Ele era presente sempre que podia. Mas, sua vida pessoal nunca vinha a tona. Sua família era segredo e apenas se sabia que ele tinha uma esposa e dois filhos gêmeos. Um menino e uma menina. Seus nomes era algo que eu não guardava. E não fazia muita questão. Apenas sabia o nome do dono, Leon LeBlanc. Era marcante e tenho certeza que ele deve ter mudado seu nome de batismo para parecer mais comercial. E pensando em nomes, o meu era péssima. Laura Dias. Era um nome tão comum e sem graça. Mas, bem, meu pai era minha vida e não diria isso para ele nem morta.
E passei os dias de janeiro ajudando nas campanhas para os dias da Páscoa e dias da Mães. Estávamos pensando em campanhas promocionais para alavancar as vendas. A meta era alta e as lojas precisavam de um produto forte para ser comercializado. E no escritório é que nós fazíamos a mágica e o produto se tornava mais atrativo. Quer dizer, minha chefe era responsável por pensar nisso. Apenas éramos seus funcionários que fariam o restante do trabalho: executar. E eu fazia meu trabalho no Coreldraw e no Photoshop, enquanto ela dava pitacos. Aquilo era realmente irritante. Mas, pelo menos, ela não era o Sandro. Ele era chefe do administrativo e nos olhava sempre por cima. Ela era do chão de fabrica, isso quer dizer, a Ana sempre ficava conosco produzindo e tendo insights incríveis. Realmente, ela era incrível. Seus cabelos loiros platinados batiam nos ombros, com cachos perfeitos nas pontas, com uma raiz esfumaçada. Seus olhos azuis eram marcantes e com um delineado perfeito. Usava batom rosa ou nude, sempre. E vestia uma saia tule e camisa social, com salto alto quinze. Tudo preto e branco. Estilo monocromático. É, a Ana acabava com auto estima de qualquer mulher, mas havia pessoas que nasciam perfeitas, quanto o resto dos mortais chegavam a apenas em sonhar em ser. Eu era uma delas, que sonhava em ser promovida e ter o mesmo requinte de Ana. Seria difícil, pois meu jeans preto, meu vans e minha camisa social não diziam de mim que eu era uma mulher de negócios. E meu cabelo castanho claro, amarrado em r**o de cavalo e olhos cinzas, que não pareciam nem azul ou verde, não diziam que eu teria sucesso. É, eu ouvi isso de Sandro, quando disse que sonhava em ser como Ana. Ele havia me destruído por dentro. E Ana, que escutou do corredor, veio em minha defesa, me dando várias dicas. Ela dizia: "A roupa importa, eu sei, mas o que importa é seu esforço, Laura. E você vai crescer nessa empresa. Eu faço isso, Laurinha. Minha equipe cresce comigo e você vai crescer. E também, quantos anos você tem? 23 anos? É jovem e vai ter tudo que quiser, se se esforçar".
E bem, aquele discurso havia sido dito há um ano. E aqui estou eu, na frente do computador, editando imagens para ela. Chafurdando na minha dor, com o mesmo jeans, o mesmo tênis e meu cabelo colorido de roxo nas pontas. Ela tem me ajudado, é claro. Eu mudei de cargo, somente não aumentou meu salário. Mas quem é que liga? Eu tenho um apartamento de herança, deixado por meu pai. Como ele é dentista, poupou tudo que pode para me dar esse apartamento. É no subúrbio da nossa cidade. Então, preciso pegar uma condução até o trabalho. Demora pelo menos uma hora, mas eu não posso reclamar. Tem gente aqui que na empresa que demora mais...
- Ô Laura - minha colega, Camila, ou Millie, como você quiser chamar, estala os dedos - Terra chamando Laura.
- Ahn, que? - eu digo, desviando os olhos da tela do computador. Estava fazendo os últimos retoques na imagem que seria utilizada na campanha de páscoa - O que foi Millie?
Millie fez uma careta. O que era engraçado, pois seus lábios pintados de carmim ficaram enrugados. Ela tinha cabelos pretos e olhos verdes. Millie encantava qualquer homem e não se prendia a ninguém. Enquanto eu, só queria um para mim. Mas, não havia ninguém que quisesse estar comigo. Eu não era f**a, ou sem graça. Era bonita, mas havia algo errado. Nenhuma relação dava certo. E o que Millie disse não fazia mais sentindo. Eu não estava fechada para o amor aquele dia, Paulo simplesmente não ligou. Apenas isso. E bola pra frente.
- Eu quero saber se o cara do bar te ligou, o bonitão do violão - ela disse.
- Não, ele não ligou, Millie. Eu tenho que esquecer, está bem? - Eu digo, voltando meus olhos para tela.
- Amiga, então se ele não ligou, eu tenho que levar você para tomar uns drinks. Você precisa sair, se divertir.
Ha, aquilo era engraçado. Ela achava que um gole de martini, cerveja ou tequila aplacava minha dor, mas não. Não aplacava. Eu sentia que havia algo errado comigo. Meu Just Like Heaven não aconteceu e eu estava atolada de trabalho.
- Millie, não me leva a m*l não, mas eu tenho trabalho hoje, então...
- Tá, eu sei. Depois...mas, antes que você se feche para o mundo, olhe o gostoso que entrou no TI hoje. Ele é transferido de outra filial, da França. Pense no pedaço de m*l caminho - sua voz é maliciosa. Millie era sempre assim quando se tratava de homens.
- Tá, quem sabe depois - eu digo, sem dar de fato atenção.
E sigo trabalhando, ajustando. Ana vinha a minha mesa, ansiosa, acompanhando meu trabalho. Ela dizia: "Que lindo, mas ajusta aqui. Está torto essa letra, nhe?" Ela era bem perfeccionista, mas tudo bem. Era ela que seria prejudica, não eu, então, eu tinha que fazer meu trabalho o melhor possível.
E na rádio tocava uma música dos anos oitenta a noventa, acho que era Oasis. Eu estava cansada daquela rádio e coloquei meus fones de ouvido. Escutava um rock, com voz ácidas e melodiosas. Era só assim para me acalmar. E por estar de fone, não vi a movimentação no meu setor. Quando olhei para cima, vi um rapaz de cabelos castanhos e olhos esverdeados conversando com a Ana. Aquele rosto era familiar, mas não dei atenção, voltei para meu trabalho. Senti que a Ana estava vindo na minha direção e tirei os fones. Fiz cara de paisagem
- Laurinha, olha quem chegou na empresa - ela aponta para o cara de olhos verdes - É Etienne. Ele foi transferido da filial da França e vai cuidar do setor de ti da nossa empresa.
- Prazer, Etienne - eu digo, automaticamente.
Ele sorri, zombeteiro para mim.
- Prazer, Laurinha - ele diz, com um sotaque carrego.
Espera, quem esse cara acha que é por falar assim comigo? Já bastava a Ana, agora ele?, penso. Aquilo subiu meu sangue.
- Escuta, Etienne, eu não gosto que me chamem assim. É só Laura, tá bom?
Ele assente, sem deixar de sorrir.
- Somente a Ana pode lhe chamar assim? - ele pergunta.
Ana nos olhava com curiosidade. E estava vermelha.
- Ah, Laura, desculpa chamar você assim. Eu não sabia que estava sendo...
- Tá tudo bem, Laura. Fica tranquila - eu digo, com um sorriso para ela - A gente já se conhece. Eu só não conheço o Etienne.
Eu mordo a língua. Deveria ter acabado com aquilo. Mas, como eu gosto de agradar, acabei enfiando os pés pelas mãos.
- Ah, que bom Laurinha - ela diz, aliviada - Bem, seja bem vindo Etienne. Tenho certeza que vai gostar de trabalhar aqui. A Laura mostra pra você o refeitório. Você mostra, nhe Laurinha?
Ah, por Deus!
- Ah, sim, eu mostro - eu respondo, com um sorriso amarelo.
- Perfeito. Passo aqui a uma? - ele pergunta, olhando para seu relógio.
Espera, relógio? As pessoas usam o celular. O relógio dele parece aqueles antigos.
- Sim, sim - eu confirmo, voltando a olhar para minha tela.
Ele se abaixa, e diz, somente para que eu escute:
- Até logo, Laurinha - ele provoca.
Eu queria voar no seu pescoço, mas ele foi mais rápido e saiu. Era só o que me faltava, um i****a na empresa! Eu demorei para voltar ao trabalho. E meu telefone apitou, as doze horas. Havia uma mensagem:
Oi, desculpa não ter respondido. Vamos tomar uma cerveja no bar do seu Jorge?
Eu pago.
É o Paulo.
E agora? Eu dizia que sim ou não? Eu não sabia o que fazer.