Deixe viver, deixe ficar
Deixa estar como está
Deixe viver, deixe ficar
Deixa estar como está
Charlie Brown Jr, Zóio De Lula
Droga, mil vezes d***a! Eu pensava que realmente teria paz naquela empresa. E nem imaginava que Paulo iria retornar. Fazia pelo menos quase três semanas que nos encontramos naquele bar. Ele nem ao menos respondeu uma mensagem. O que ele me envia: desculpa não ter respondido. Eu realmente não sabia o que fazer e fervia de raiva. Talvez, meu problema fosse a timidez, pois quase nunca falava o que pensava. A não ser Etienne. Eu disse pela primeira vez que aquele apelido que Ana havia me dado, havia incomodado. Mas, logo depois, eu me contradisse. Eu fiz isso, realmente. Eu não queria desagradá-la e também não queria fazer isso com ninguém. Mas, com Etienne, eu queria esfregar sua cara no asfalto. E por que tamanha raiva? Eu não saberia dizer. Apenas era pelo motivo de ele me mostrar o pior de mim. Aquilo estava entalado em minha garganta, todas as vezes que não disse o que me incomodava. E ele trouxe isso a tona. Era culpa dele? Não, não era. Eu que sentia isso, Etienne só foi a combustão para então tudo sair de dentro de mim. E o que eu mandei para Paulo, na minha resposta, foi em consequência do que aconteceu trinta minutos atrás, quando conheci Etienne. Se Paulo era o meu sonho, Etienne era meu pesadelo.
Eu apenas digitei em meu celular:
"Não, obrigada.
Eu não vou poder sair esse final de semana.
Talvez nunca!"
Há! Eu me senti vingada. Seu silêncio havia me deixado muito m*l, realmente. E agora, eu estava livre para começar de novo. Mas, talvez eu não quisesse ninguém. Eu não queria ninguém...
- Laura - disse Ana, me tirando dos meus devaneios - Já deu o horário para seu almoço, querida. Vá descansar. Você trabalha tanto, minha querida.
Eu a fitei com desconfiança. Eu não sei o motivo, mas Ana as vezes parecia estranha. Apenas agradeço e saio da sala. Etienne havia acabado de chegar no corredor. Havia me esquecido dele.
- Oi Laurinha, vamos almoçar? - ele perguntou, com seu sotaque irritante.
- Pare de me chamar de Laurinha, ou não vou facilitar para você - eu ameaço.
Eu nem acreditava que estava o enfrentando daquela maneira. Talvez ele fosse meu bode expiatório. Tudo que não revidei, estava descontando nele.
- Oh, calma senhorita - ele diz, com bom humor - Eu apenas estava tentando ser sociável com você. Peço desculpas.
Reviro os olhos.
- Tanto faz, só não me chama mais assim, ok?
- Tudo bem - ele diz, sem perder o humor - E onde fica o refeitório, Laura? - ele enfatizou meu nome e seus olhos verdes brilhavam para mim.
Engoli seco. Apontei para nossa frente. Havia um elevador.
- É só pegar o elevador para o quinto andar - expliquei - E você estará no refeitório. É um andar somente para isso.
- Entendo - ele diz. E eu aperto o botão para cima. Estávamos no segundo andar - E você não vem?
Eu n**o com a cabeça.
- Não, eu vou aproveitar minha folga e almoçar fora - respondo e me encaminho para as escadas de emergência.
Ele segura meu cotovelo, me fazendo parar. Olho para ele com incredulidade.
- Espera, eu vou com você - Etienne diz - Eu não quero comida de refeitório.
Ele dá uma gargalhada que me faz rir também.
- E precisa vir comigo? - pergunto.
- Então...-ele coça a nunca - Eu não conheço Enseada...na verdade, eu não conheço o Brasil.
Eu assinto.
- Tá bom, mas não me incomode, ok? - digo, sem me importar - Eu quero paz hoje.
- Tudo bem, somente me mostre onde podemos comer - ele dá de ombros.
Desço as escadas e ele me acompanha.
- Por que não usa o elevador? - ele pergunta.
Como dizer para ele que não queria encontrar o Sandro? Aquele homem me causava raiva e calafrios ao mesmo tempo.
- Porque quero caminhar, Etienne - minto, mas minha voz treme.
- Sei - ele murmura.
Descemos os dois lances de escada em silêncio, cada um mergulhado em seus pensamentos, acredito. Eu não parava de pensar em Paulo e o quanto havia me desiludido. Ele era tudo que sonhei. Um rapaz interessante, culto, sabia de música como ninguém, cantava muito bem, era bonito, contudo, não havia se mostrado interessado em algo de verdade, mais concreto. Eu, cegamente, naquela noite, acreditei que teríamos algo de verdade. Mas, não havia nada. Construí meus sonhos em uma base fraca. Eu teria que pensar em outra coisa, para não pensar nele e não ceder à tentação de aceitar seu convite, ou tentar ligar para ele e pedir desculpas pela mensagem grosseira.
Chegamos ao térreo e cumprimentei o porteiro, seu Juca.
- Oi seu Juca - eu digo - Esse aqui é o Etienne. Acho que ele já se apresentou na portaria, nhe?
- Sim, sim Laurinha - ele diz, com carinho. Seu Juca era senhor. E sempre era gentil com todos. Eu não me importava que ele me chamasse assim. Ele começou no momento que ouviu a Ana me chamar dessa forma - O senhor Etienne já passou aqui, sim. E já estamos providenciando o crachá.
Eu achei estranho tratamento especial com o novato, mas tudo bem. Quem era eu para julgar? Talvez, era porque ele fosse estrangeiro. Mas, o mais curioso, era o fato de que ele falava muito bem português, apesar do sotaque.
- Obrigado, senhor Juca - Etienne diz, sendo cortes.
- Estamos sempre à disposição - disse seu Juca.
Espera, o quê? Ele nunca disse isso para ninguém. Não que ele fosse m*l-educado. Seu Juca era querido, mas não tão cordial assim. E saímos do prédio e eu cheia de dúvidas. Etienne não parecia apenas um rapaz do TI. Na verdade, era bem mais importante, pelo que seu Juca deixou transparecer. E como eu era desligada do mundo, apenas fazendo meu trabalho, eu não sabia das fofocas da empresa.
E percorremos o caminho até o restaurante que conhecia. Era o meu lugar favorito. Havia um deck, com vista para o mar. O nome do restaurante era Pérola n***a. E amava a comida, o peixe de tilápia, a moqueca de peixe, o virado de feijão, o pudim de coco, manjar...tudo, tudo era ótimo naquele lugar. Até meus pensamentos se reorganizavam melhor. E Etienne me seguia, sem dizer uma palavra. Aquilo era incomodo, porque eu não gostava de silêncio. Mas, o que eu queria? Quase voei no pescoço dele no primeiro momento que o vi.
- Escuta, Etienne – eu digo, parando de andar, olhando para ele. Estávamos no calçadão, ao lado da praia. Ciclistas passavam de um lado a outro. Pessoas correndo, passeando com seus cachorros também passavam – Eu sei que tivemos nosso desentendimento lá no escritório, mas...bem...
Eu não sabia o que dizer. E isso porque eu não queria me mostrar fraca, mas eu não conseguia desagradar ninguém, esse era meu problema. Eu não conseguia manter minha opinião, na maioria das vezes e isso acabava comigo. Eu me importava com o que os outros pensavam, esse era o fato.
- Está tudo bem, Laura – ele diz, com um sorriso – Vamos até o restaurante e lá a gente conversa, tá bom?
Eu assinto e nós voltamos a caminhar. Ele parecia descontraído, com seu jeito despojado. Sua pele era bronzeada, mas havia sardas no seu braço. O que eu acho muito bonito. Espera, eu estava pensando nele nesses termos? Eu estava. Infelizmente sim. Mas, bem, olhar não tirava pedaço, como Millie parafraseou, certa vez. E os cabelos dele ficavam dourados com a luz do sol, como se tivesse feito algumas luzes. Realmente, Etienne era bonito. Engoli seco, colocando as mãos dentro do meu jeans preto e comecei a andar apressada. Ele não teve problema em me acompanhar, pois era bem mais alto. Pelo menos, uns vinte centímetros. Ele olhava para tudo, com curiosidade. E era natural, via aquele lugar pela primeira vez. Para mim, era o mesmo lugar de sempre. E as vezes, era insuportável morar na Enseada. A maresia era irritante, acabava com meu cabelo. A areia parecia grudar na pele, mesmo eu não tendo chegado perto da praia. Mas, se eu trocaria de cidade, nem ferrando. Amava aquela paisagem bonita e sempre azul.
Chegamos ao restaurante, que ficava a um quilometro do escritório. Peguei a mesa do deck, que já havia reservado. Coloquei minha bolsa e instrui Etienne que era necessário entrar no restaurante e escolher a comida no buffet. Tinha duas opções, por quilo ou livre. Etienne escolheu livre. E eu por quilo. Ele fez um prato enorme, enquanto eu fiz um prato pequeno. Dei risada dos contrastes. Etienne sorriu para mim, me deixando sem folego. Era uma d***a o cara ter um sorriso bonito e perfeito, mas eu não iria me abalar. Já vi esse sorriso no Paulo e não me dei bem no final. Fomos para fora, depois de passarmos no caixa e pagarmos pela nossa comida. Eu pedi suco de laranja para nós dois e comemos.
- Então, Laurinha – ele disse, me provocando de novo – Quanto tempo você mora aqui?
- Não sei, acho que a vida toda – eu respondo, sem me irritar mais com seu jeito brincalhão – Eu nasci em São Paulo, mas meus pais, na época, eram apenas viajantes no mundo, sabe? – ele assentiu – Eles queriam viver a vida ao extremo, viajando de lugar e lugar. Quase nômades. Papai já era formado, mas não exerceu por tanto tempo sua profissão. E mamãe, bem, ela era professora de artes. E quando os dois se encontraram no campus da Federal, se apaixonaram. E depois que se formaram, resolveram se estabelecer, mas não conseguiram. Meu pai tinha um sonho de viajar e fez isso. Eles viajaram por cinco anos, por vários países da América Latina e outros do leste Europeu. E ai minha mãe ficou grávida...ai desculpa, Etienne. Você só queria saber quanto tempo eu moro aqui, não minha vida inteira – ele riu.
- Continue, Laura. Eu estou gostando de saber mais de você – ele diz, sincero, colocando as mãos sobre o queixo, pensativo. Ele não para de me fitar com seus olhos esverdeados.
- Ah...- murmuro, com vergonha – Então, como eu ia dizendo – olhei para o mar, tentando não vê-lo – Eu já estava na barriga da minha mãe e eles precisavam voltar para o Brasil. Foi um inferno voltar. Mas, no fim, deu tudo certo. O meu avô conseguiu que eles voltassem, pois tinha dinheiro, bem, ele tem dinheiro. Pense em um homem rico, mas avarento – Etienne riu – É, não tem graça, mas tem que rir mesmo. Enfim, meu avô, Luiz, mandou de volta a grana e meus pais voltaram. Ele ajudou meu pai a se estabelecer de volta, mas a condição era que ele viesse morar no Sul. Aqui em Santa Catarina. Porque o velho mora aqui nesse lugar, mas em Bombinhas – eu explico – Meu pai não queria contato com o seu Luiz, não. De jeito nenhum. E montou seu consultório aqui. Enseada ainda estava se desenvolvendo, era apenas uma cidade pequena, quase sem pavimentação e saneamento básico. Mas, tudo cresceu aqui. Com a LeBlanc. E começou a melhorar a situação para todo mundo, inclusive para meu pai. Ele conseguiu clientes e hoje tem uma renda estável. E bem, eu nunca sai daqui. Viajei para outros lugares no Brasil, mas nunca vi nada, igual meus pais...
- Legal sua história, Laura – ele diz, parecendo realmente interessado – E não vai sair para viajar fazer alguma coisa?
- Eu? Eu não sei, Etienne...eu não tenho sonhos, para falar a verdade – expliquei – Eu apenas vivo o momento, sabe? Hoje está bom na LeBlanc, quem sabe amanhã eu vá para outro lugar.
- Hum...deveria investir em si mesma, Laura. Quantos anos tem? - pergunta.
- Eu tenho 24 anos – respondo – E você?
- Eu tenho 30 anos, Laura – responde – E eu já vive bastante no meu país e fora dele. Já fiz várias viagens, especializações e quase nada relacionada a minha área de formação, que é análise de sistemas. E por que isso? Eu queria ver do que eu mais gostava. Eu fui direcionado para um campo, desde sempre. Era análise de sistemas que havia escolhido e meus pais adoraram a ideia. E eu apenas cansei, sabe – eu assinto, entendendo sua frustração – Eu queria ver o mundo. Conhecer outras culturas. Saber mais como era a realidade de outros países. Pode-se dizer que fiz meu mochilão pela Europa, Ásia e Oriente Médio. Fui em países como: Inglaterra, Gales, Irlanda, Holanda, Alemanha, Bósnia, Japão, China, Índia, Turquia e Egito. Conheci muitas pessoas, seus costumes. Vi a miséria, a pobreza, a falta de apoio dos governantes com esses países. Meus pais queriam que fizesse uma viagem luxuosa, mas eu queria ver de perto cada uma daquelas pessoas, Laura. Foi muito enriquecedor para mim. E eles dizem que não me serviu de nada. Apenas perdi tempo, mas para mim, não. Pude compreender o ser humano, não totalmente, mas em partes. E como somos, Laura, não é exato. Não há como definir o ser humano cem porcento e saber suas ações, como um sistema de computador. Entende? Somos imprevisíveis nas nossas ações. As vezes podemos ter tudo, mas sermos infelizes e outros momentos termos nada e apenas sorrir...
Aquela reflexão de Etienne mexeu com a minha cabeça. Eu, que não sabia nada de mim, do que queria de fato, senti com suas palavras que talvez eu precisasse ver mais o mundo e as realidades em que vivíamos. Eu estava sempre presa ao meu próprio mundo, não vendo o outro, me preocupando com meus problemas, apenas comigo. Mas, havia tanto ali fora, fora do meu mundo, que eu nem sabia.
- Desculpe o monologo – ele diz, rindo e tomando um gole do seu suco – Mas, enfim, faz o que te der vontade. E nunca se esqueça que vai precisar descobrir quem você é, Laura. Não deixe sua vida passar em branco. Não atenda as expectativas dos outros, como eu fiz. Faz teu caminho.
- Você é bem profundo, Etienne – eu digo, abismada – E ainda é tão jovem.
- Não é idade que nos faz, Laurinha, é nossas experiências. Erros e acertos.
Depois daquela conversa, partimos do restaurante. Eu fiquei calada, vendo o mar. Ele pediu para que nos aproximássemos mais do mar. Eu neguei, dizendo que tínhamos apenas quinze minutos para voltar e que chegaríamos atrasados.
- É só dois minutos, Laurinha – ele pediu, com dengo na voz – Eu vou ali molhar os pés.
Ele tirou o sapato social, a meia e deixou na areia. Fiz o mesmo. Estava com medo de ser julgado por todos, mas tirei meu vans, minha meia e arregacei a barra da calça. Ele já estava com os pés na água. E com as mãos na cintura. Parecia apreciar a vista. Parei do seu lado, sentindo o contato da água morna em meus pés. O sol não estava forte hoje. O céu estava encoberto de nuvens, com alguns pedaços azuis visíveis. Mas, o calor era agradável, apesar de estarmos em alta temporada. Algumas mulheres de biquini passavam, homens com sunga, ou calção também. Havia pessoas brincando no mar, algumas crianças correndo. Havia algumas pessoas com carrinhos de sorvete, salgado e de bebidas passando ou paradas no mesmo lugar. Um deck foi montando na praia, para vender água de coco ou drinks. E eu e Etienne estávamos fora daquela equação, éramos os deslocados naquele lugar. Com roupas demais. Mas, bem, não era hora para ficar na praia. Tínhamos trabalho a fazer aquela tarde.
- Sabe de uma coisa, Laurinha? – ele perguntou, me olhando com um sorriso matreiro – Você precisa de um banho.
- O quê...- eu digo, dando alguns passos para trás, mas ele me agarra pela cintura e me levanta no seu colo. Eu me debato, pois sei o que vai acontecer. Meus primos faziam muito isso comigo – Pare, Etienne, precisamos trabalhar, por Deus.
- A gente volta mais tarde – ele disse, rindo – Não vai demorar nada.
Ele entrou comigo no mar e me soltou. Maldito!