- Deixe as garotas em paz, Colemann. - disse outro cara que eu ainda não havia visto, um loiro bem vestido e cabelos de corte mediano. - E aí, Pamela como vai o time de vôlei feminino esse ano?
Ela demorou alguns segundos para perceber que ele falava mesmo com ela e sorriu quando enfim entendeu.
- Estamos caminhando para a liga regional. Mas vamos com tudo para essa próxima fase. E o masculino? - ela disse mordendo seu bolo de chocolate.
Kaiden pareceu ter ficado sem graça em ser cortado, mas antes de sair me lançou um último olhar de rancor e desprezo.
- Seu gosto é bem peculiar, Brett. - e saiu caminhando porta a fora.
Se aquilo tivesse afetado a Pamela, ela sabia disfarçar muito bem. Porque ela não se importou muito como muitas garotas fariam.
- Vamos com tudo também, m*l posso esperar para a festa dos Lutiens. - ele disse animado ignorando totalmente o m*l estar criado.
E assim correram os próximos minutos. Os dois conversando animadamente sobre todas as vantagens de jogarem vôlei e eu parada ainda absorvendo as palavras de Kaiden. Eu respirei fundo e antes de me levantar acenei me despedindo dos dois e peguei o meu segundo “croissant”. Antes que eu pudesse sair porta a fora, a garota pegou no meu braço estendendo o seu celular para que eu anotasse o meu número ali.
- Eu acho melhor não. - disse simplesmente e mordi o lábio inferior.
- Não ligue para o que o Colemann disse, ele é apenas um rebelde sem causa. Anote seu número por favorzinho? Eu gostei de você e da sua vibe meio misteriosa.
Eu troquei de peso mudando os pés analisando a situação, eu não tinha amigos ali. E muito menos conseguiria fazer mais alguns, se o i****a do Kaiden continuasse a dizer para todos que eu era uma criminosa, uma espécie de bandida e todos se afastariam com medo.
Então, contrariando até o meu próprio desejo, anoto o meu número e entrego o seu celular saindo dali entendendo que talvez eu tenha feito a coisa certa. Ele se irritaria de qualquer forma.
Eu estava terminando de colocar o meu coturno, quando ouço o meu celular apitar na cômoda do pequeno quarto do dormitório. Eu ignorei e continuei a fazer o que estava fazendo normalmente. Era um dia frio, eu passaria na biblioteca para pegar um livro e depois iria para a sala de aula.
Peguei a minha bolsa e o celular novamente apitou.
E na mensagem havia a seguinte frase:
"Querida Hillary Davis, estarei te esperando na cantina, na hora do almoço no bloco 2. Se você não for, há grandes chances de eu ir até a porta da sua sala e perguntar sobre você para o primeiro professor que aparecer (durante a sua aula bjs)."
O que acontecia com esses estudantes da Upenn? Todos só sabiam viver de ameaças e chantagens? Ri amargamente lembrando do último episódio.
...
Eu estava passando pelo estacionamento, e eu realmente não vi que ali perto havia uma roda de caras conversando e fumando cigarro. Então, como normalmente fazia após as aulas nesses últimos dias tirei a minha sandália caminhando pela grama macia quando ouço o meu nome em voz alta.
- Hey Hillary, está sabendo das últimas ? – ouvi sua voz grave ressoar com maldade. – Sua linda irmã fez mais uma revista, mas dessa vez não é qualquer revista. Quer dar uma olhada nisso?
Então, aquilo me pegou em cheio e me virei rapidamente para ver exatamente do que ele estava falando. Respirando fundo e dizendo a mim mesma que provavelmente seria apenas uma provocação, que não era verdade. Não podia ser verdade.
- Me passa o seu número gatinha. – disse um deles sorrindo feito um i*****l.
- c*****o, essa é a irmã dela aqui? Me apresenta a sua irmã linda, nunca te pedi nada. – o outro disse e eu revirei meus olhos.
- Uuuuh que gata. Hein... – disse o outro de boné vermelho.
- É uma Playboy Davis. – Kaiden disse com os olhos cheios de divertimento e audácia. Aproximei-me ainda mais dele e tomei a revista da sua mão bruscamente.
Quando os meus olhos pousaram na capa da revista o meu estômago revirou. Hailey tinha acabado de fazer a última coisa que meus pais imploraram para ela não o fazer, que era NÃO posar nua. Eu não podia sequer imaginar como eles estavam agora.
Depois de um momento respirei fundo lendo a frase na capa “Sensualidade nasce com você”.
A minha irmã mais velha estava na capa da Playboy praticamente seminua com uma tiara de coelhinha, pisquei várias vezes para ter a certeza de que eu não estava vendo coisas. Mas era a mais pura verdade, Hailey Davis havia ultrapassado todos os limites de rebeldia. Ela estava mostrando ao nosso pai que não precisava mais dele ou das suas falas de como ser uma pessoa de sucesso. Ela queria o sucesso da sua forma.
Devolvi a revista para Kaiden e suspirei antes de me virar para continuar a minha caminhada. Mas seria óbvio até demais que ele não me deixaria sair de uma situação assim sem passar mais um pouco de constrangimento. Não era do seu feitio.
- Você despreza o que a sua irmã anda fazendo, mas ainda acho que você é bem pior que ela... – eu queria ter uma resposta a sua altura, mas eu não tinha. Porque, no fundo sabia que era verdade.
- Eu não me importo com o que você acha. – disse encarando aqueles olhos verdes profundos. Eu nunca esqueceria da dor e repulsa neles.
- Ah... mas eu acho que deveria, Hillary. – disse e assoprou quando disse o meu nome com a voz carregada de deboche. - Sabemos que você não é tão prudente quanto aparenta ser.
Eu estava muito irritada, ele não sabia de nada apesar de tudo. Eu sei que queria me causar dor, mas ninguém seria capaz de me torturar tanto quanto os meus próprios pensamentos deletérios. Ninguém seria capaz de me culpar mais do que a mim mesma. Era eu quem me torturava mais do que todos.
- Vá em frente, conte a todos o que sabe. – disse em desafio e entredentes. – Mas conte também que era você que deveria estar cuidando deles naquele dia. – disse o que estava entalado na garganta por anos. Era sufocante, mas saber daquilo não tornava tudo menos pior. Quase ninguém sabia apenas a sua própria família.
E era óbvio que nem sequer o juiz sabia disso. Eu apenas sabia porque Hailey havia dormido com o seu pai, Richard Colemann, na noite de ano novo no motel mais luxuoso da cidade. Bêbada em uma noite em casa ela entrou no meu quarto e desandou a falar tudo o que ouvira dele como se tivesse sido a coisa mais fácil do mundo. E por mais que eu não quisesse acreditar, era verdade, porque o maldito depositou depois uma boa quantia em sua conta prometendo a ela as Maldivas e o Caribe.
- Cala a sua boca, Davis. – ele disse furioso com os olhos levemente arregalados. Dessa vez eu havia o surpreendido e o pegado de cheio. Ele muito provavelmente, não sabia que eu sabia. – Não vem dar uma de esperta, porque eu sempre vou fazer você lembrar da merda que causou, estarei disposto a fazer com que você sofra todas as malditas consequências. Eu vou te ferir, Davis. Vou te fazer desejar com que nunca tivesse cruzado o nosso caminho.
Eu dei um passo pra trás significantemente quando ele disse isso. Kaiden tinha uma tatuagem agora no braço esquerdo, ali estava rabiscado algumas coisas que eu não conseguia decifrar tampouco queria. Mas ela era evidente e gritava para ser lida. Era até tentadora.
Antes de me virar para sair, encarei seus olhos verdes como a teimosa que sou e não consegui controlar as próximas palavras.
- Eu nunca quis cruzar o caminho de ninguém, Colemann. – sua feição endureceu e eu respirei fundo. – Faça isso, apenas faça...se isso fizer com que todos se sintam melhor. – disse me referindo a sua ameaça.
Eu não vou negar que tive medo, mas continuei fazendo o meu percurso enquanto deixava para trás um Kaiden muito puto, exalando raiva.
...
Voltando a ameaça de Pamela Jones, acabei a respondendo dizendo que eu estaria no lugar e no horário marcado. E aqui estava eu balançando os pés nervosamente na mesa à esquerda da cantina, me sentindo observada. Ou era coisa da minha ansiedade...porque o meu coração de repente começou a bater violentamente sem eu saber exatamente do que tanto tinha medo.
Mas, no fundo eu sabia, Kaiden poderia estar à espreita apenas esperando o momento certo para agir e dizer que eu era uma pessoa muito má e que todos deveriam se afastar.