- Hillaryyy você veio!!! – Pamela disse sorrindo e nas mãos um pequeno objeto que pensei ser um rádio.
- E ter a chance de você falar com algum daqueles professores ranzinzas de anatomia? Jamais. Eles guardariam o meu nome por todo o semestre. – eu disse e ela sorriu ainda mais largamente.
- Seu nome é lindo babe! Tem uma vibe meio patricinha de Hollywood. – ela disse e eu fiz uma breve careta me lembrando disso.
Definitivamente, eu não era como uma garota patricinha ou tinha jeito pra ser uma.
- Não, com certeza não... – eu disse enquanto ela se sentava no assento a minha frente.
- Vamos ao que interessa, Hilla. Posso te chamar assim? Bom, ficou muito legal. Ahhh! e então eu notei que você e o Kaiden, aquele jogadorzinho de basquete que é metido a ser mais introvertido e dark, não gostam um do outro. O que é... extremamente estranho. – ela diz e eu suspiro com seu falatório sem me deixar falar.
- Isso porque você não me conhece Pamela. – eu disse rapidamente e ela murchou os lábios.
– Ele tem os motivos para não gostar de mim e eu os meus para não gostar dele.
- Ele disse que você é criminosa. Hum... e...se quiser falar sobre isso... – ela fez um breve barulho com a garganta. – Sei que ele disse que eu sou fofoqueira, não exatamente com essas palavras, mas foi o que ele quis dizer. Enfim, eu juro por tudo que eu não contaria nada a ninguém.
Amigas fazem isso, não é? E eu quero ser sua amiga. Gostei do seu humor.
- É uma longa história. – disse a tentando convencer, até mesmo porque eu não estava querendo me abrir naquele momento com ninguém. – E eu tenho alguns bons traumas. Não é uma conversa boa de se ter.
- Entendo...vamos comer? – Pamela disse e se levantou rapidamente.
- Vamos, o que é isso? – disse olhando para o objeto depositado na mesa enquanto me levantava.
- Um tipo de rádio mais antigo, eu levo-o para todo canto que dê para ouvir música. – ela disse com os olhos brilhando. – Não é tão novo e atual, mas me lembra o meu pai então... eu apenas o levo.
Eu não sabia se podia confiar cegamente na amizade que Pamela estava me oferecendo. Mas eu já havia passado tanto tempo com meus próprios pensamentos e eles eram tão massacrantes que senti certo alívio. Eu estava aliviada que mesmo ela não sabendo tudo ou não me conhecendo para valer. Ainda queria ser minha amiga.
Era bom saber que sua dúvida era algo natural e não para me julgar e me fazer sentir ainda mais a pior pessoa do mundo. Ou ainda, para ser c***l espalhando para toda a universidade o passado de uma caloura. E eu estava cansada, muito cansada mental e fisicamente. Só queria poder ser uma jovem normal.
Tinham se passado quase cinco anos agora e eu ainda me sentia o pior ser humano. Os meus pais sempre insistiam em me levar para psicólogos, terapeutas e psiquiatras porque quando eu não estava no quarto chorando eu estava no estúdio de dança da casa dançando até machucar todos os dedos dos meus pés. E eu tinha medo, medo porque quando estava no auge da dor conseguia ser punitiva e c***l comigo mesma. Conseguia ser a minha pior inimiga.
Pamela havia me dito na semana anterior que na universidade estava havendo uma seletiva para novas dançarinas que fazem apresentações da universidade. Fiquei intrigada e curiosa, e não negaria que fiquei, sim, tentada a me inscrever. Então, enquanto falava com a minha mãe no celular soltei sem querer sobre a tal seleção e me arrependi no mesmo momento, já que ela começou falar sem parar e a me incentivar.
E agora lá estava eu, apreensiva quase roendo todas as minhas unhas na fila do teatro esperando para fazer a minha inscrição. Eu queria dar meia volta, mas agora faltava apenas uma garota na minha frente. E eu gostava de dançar. Uma das poucas coisas que eu era boa. Realmente boa.
- Boa tarde. Qual o número do seu documento? - a senhora com o óculos na ponta do nariz passeou o seu olhar pelas minhas mãos que tremiam um pouco.
- Boa tarde, está aqui minha ID. - e estendi o documento.
- Você sabe dançar? - ela perguntou e eu assenti rapidamente. - Tem disponibilidade nos horários a seguir? - e apontou com as unhas brilhantes para o papel colado na mesa que ela estava.
- Sim, eu posso vir no turno da tarde. Se for possível... - eu disse e ela assentiu brevemente chamando a próxima.
- A seleção ocorrerá amanhã pelo turno que você escolheu. - ela disse e assim eu fui me afastando de todas aquelas garotas desesperadas na fila.
Quando me virei para a saída Pamela estava acenando feito louca no vidro da enorme janela que havia ali.
- Estou muito orgulhosa de você! m*l posso esperar pra te ver dançar Hilla. - ela disse e eu apenas revirei os olhos sorrindo.
- Eu acho que é melhor manter em segredo o horário da minha seletiva então. - disse brincando e ela apenas deu de ombros.
- Ficarei o dia todo só pra te aplaudir então. - ela disse e nós duas sorrimos.
- Amanhã pela tarde. - e ela assentiu entendendo.
Ela estava sendo amiga, eu é que tinha me esquecido de como ser sociável com as pessoas. Eu sempre achava que elas logo achariam vários defeitos em mim e iriam embora quando cansassem.
Mas eu estava errada. Amizade era saber que todos, sem exceção tínhamos defeitos, o que poderíamos fazer era aceitá-los e melhorá-los. Lembrei do que a minha mãe sempre dizia "Amizade não é sobre celebrar as vitórias, é quando sabemos ser abrigo, quando compartilhamos as dores".
Pamela fazia enfermagem, era uma apaixonada em ajudar pessoas. Dizia ela que esse era o motivo pelo qual Kaiden havia dito que ela era "fofoqueira", porque ela não conseguia se conter em contar algumas coisas. Dizia ela que era uma fofoca saudável. Não fazia m*l a ninguém, e era apenas informações que precisavam ser compartilhadas. Eu gargalhei quando ela começou a dizer isso.
Nós passamos pelo corredor e despedimos-nos. Fui para o meu dormitório e ela foi para a biblioteca procurar por um cara que ela disse ser o novo nerd que roubou o seu coração. Eu até iria, mas estava cansada, a minha mente estava.
Fui direto tomar um banho, eu queria ao menos tentar ser mais do que um dia eu fui. E isso, poderia simplesmente começar por uma das coisas que eu mais amava fazer. Há tempos que eu não dançava, há tempos que eu não colocava as sapatilhas. Na verdade, nos últimos tempos eu estava mais correndo do que dançando.
Então, depois que terminei de me vestir e me arrumei para fazer algo para comer naquele pequeno "apê" que chamávamos de dormitório.
Fiz um macarrão com calabresa enquanto pensava no quanto ali era vazio, a minha parceira de quarto não havia chegado ainda. No bilhete impresso, dizia que ela chegaria apenas uma semana depois por ser de outro país. Após escovar os dentes, procurei em uma das gavetas a caixa que guardava carinhosamente as sapatilhas.
Minha avó havia me dado um ano antes da falecer. Ela sempre dizia que eu era a melhor bailarina que ela já havia visto dançar. Coisas de vó. E eu achava isso o pequeno discurso mais lindo e fofo do mundo.
Experimentei as sapatilhas e dei uma pequena pirueta em frente ao espelho do quarto. Não ousei me olhar enquanto fazia isso. Deitei na minha cama ainda com as sapatilhas em mãos e adormeci.
Assim como ontem teve uma longa fila para a inscrição, hoje também havia uma longa fila para a apresentação e escolha.
Eram várias meninas correndo de um lado para o outro, todas arrumadas e com os cabelos devidamente penteados, collants, tules para todo lado e sapatilhas. Muitas delas.
Eu respirei fundo e terminei de caminhar para o camarim do teatro, antes de entrar vi que o mesmo parecia querer lotar de amigos que vieram para apoiar ou pessoas que simplesmente gostavam de assistir. O tempo lá fora estava nublado, até meio melancólico, eu havia chegado cedo demais então apenas mandei uma mensagem para minha mãe sobre o teste e vim caminhando. Afinal, não era tão longe assim.