— Não. — foi minha resposta a Daniel pela centésima vez. Tinha viajado para Washington à tarde, deixei as reuniões para Elly e agora estou novamente na prefeitura apenas para me certificar de que ela não estrangulou ninguém. Daniel estava sentado na sala de espera paquerando Amber quando cheguei, e agora me segue o caminho inteiro.
— Pare de ser careta, é só uma boate. – ele resmunga. Paro no meio do corredor e olho para meu irmão mais novo, Daniel solta um sorriso ladino que me faz ter a certeza de encrenca.
— Já disse que não, e pare de insistir. Eu sou o prefeito, a cidade está um caos com tudo o que há, se algum maldito repórter me ver lá... você sabe bem o que vai acontecer. – disparei dando as costas para ele e continuando o corredor adiante até a última sala.
— Hmm... para onde está indo? — perguntou me seguindo, as mãos escondidas dentro dos bolsos da calça jeans azul.
— Falar com Elly, depois vou para casa. – porque sabia que ele não iria me acompanhar até lá. Daniel já tinha os seus próprios planos.
— A ruivinha gostosa. – o olhei de soslaio e balancei a cabeça negativamente.
— Da próxima vez que ela for te dar um soco, eu não me meto mais. — tinha passado três dias com um lado do rosto roxo, meu irmão não tinha super força como um dos seus atributos, mas a Elly sim, e se o soco tivesse pego nele...
Daniel deu de ombros. Bati duas vezes na porta da sala de Elly antes de abrir e encontra-la escorada na mesa com um espelho redondo na mão retocando a maquiagem. O vestido verde esmeralda tracejava o corpo dela de um jeito discreto, não parecia que tinha passado o dia com essa roupa então, era notório que dali era não iria para casa. Ao nos ver, ela guardou o batom vermelho e abaixou o espelho, os cabelos alaranjados farfalharam quando se virou e cruzou os braços sob o b***o.
— Como eu disse, gostosa. – resmungou Daniel ao entrar. Elly lhe mostrou o dedo do meio e voltou o olhar para mim.
— Já mandei colocar uma coleira nesse garoto, não aprende bons modos nunca. – ela murmurou soltando um suspiro cansado, o que já me indicava que algo tinha saído muito errado.
— O que aconteceu? – perguntei enquanto me sentava em uma das poltronas azuis cobalto da sua sala.
— Dois dos vereadores querem dinheiro, seriam três, mas eu dei um jeito no outro. Digamos que ele não vai usar a parte que mais gosta por um tempo... mas fora eles, o resto está em comum acordo com as mudanças e projetos que propomos. – deu de ombros andando até mim e me entregando uma pasta com relatórios perfeitamente alinhados e formatados.
— Combinamos que você não iria se alterar... — ela sorriu, e eu já conhecia aquele sorriso de boneca dela há muito tempo para saber que, ela nem sequer tinha tentado se controlar.
— Isso nem de longe foi um descontrole. — Daniel a seguia para todo o canto com o olhar enquanto eu revisava por cima algumas coisas.
— Aonde vai tão gostosa assim, Elly? Posso te acompanhar? – essa discussão dos dois já era antiga, às vezes Elly levava na brincadeira mas, quando estava irritada...
— Não tem creche aonde eu vou, Daniel. Sinto muito. – tive que rir, meu irmão me lançou um olhar de censura.
— Eu avisei. – murmurei em meio a risada. – A propósito, está muito bonita, algum encontro?
— Não. Apenas decidi que se eu não sair para beber, vou morrer de inanição. Desde que o Elliot descobriu um novo brinquedo, não tenho mais o que fazer a noite. – reclamou enquanto arrumava a bolsa e a mesa. — Engraçado que, quando adolescentes, vocês passam três horas no banheiro, na hora H não dura três minutos. Isso é patético.
Elliot, seu filho adolescente. Nosso filho adolescente. Lembro de quando Elly engravidou, o que o pai dele fez... ela precisava de alguém que a ajudasse nesse momento difícil, então fiz o que era certo fazer naquela época. Quando ele nasceu, pedi a Elly para fazermos uma ligação de sangue, um ritual simples, ela estava tão vulnerável... desde então temos um filho, que agora tem quinze anos.
— Posso conversar sobre isso com ele no final de semana. – clareei a garganta antes de falar, era minha responsabilidade também.
— Certo, final de semana com o sobrinho. Anotado. Agora vamos para a boate. – Daniel se levantou, revirei os olhos.
— Eu já disse que nã... –
— Pelo amor dos deuses Christiel. Vá logo, ou esse garoto não vai parar de te encher a paciência. Aliás, saiam os dois daqui, eu preciso ir. Vão, dêem o fora. – ela nos expulsou da sala mais rápido do que minha mente foi capaz de processar.
— Se eu soubesse que a Elly iria ficar do meu lado, teria vindo mais cedo. – suspirei murmurando um palavrão ao sair andando em direção ao estacionamento.
— Sabe que não foi bem assim. – ele deu de ombros.
— Tanto faz. –
Entramos no elevador e descemos até o térreo, deixei a pasta com Amber e fomos até o carro.
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A boate estava lotada, Daniel apontou a mesa que ele tinha reservado, a maioria eram conhecidos da polícia e, entre eles o irmão de Hirin mas nenhum sinal dela. Provavelmente não viria. Após alguns minutos jogando conversa fora, precisei usar o banheiro, a fila para aquele cubículo iluminado estava enorme, o que me custou a perca de quase trinta minutos.
— Achei que tinha descido na descarga do mictório. – Daniel murmurou. Haviel parecia irritado com alguma coisa que eu resolvi não prestar atenção, mas tive que me voltar a direção em que Wesley olhava com tanta atenção... Hirin.
Caminhando em direção ao amontoado de pessoas dançando, as costas nuas até a curva da cintura, aquele vestido que quase nada escondia do seu corpo... tão linda. Meu coração parecia que pararia em qualquer momento quando aqueles olhos escuros se voltaram para mim, de longe pareciam negros mas, depois de observa-lo tão de perto e por tantos anos pude perceber que uma linha fina e tímida de mel trilhava por eles os deixando castanhos. Desviei o olhar para o meu irmão, já era a terceira vez que Haviel reclamava com ele.
— Daniel, se olhar pra ela desse jeito novamente, vou arrancar fora as suas asas. – a ameaça saiu em uma voz contida, mas ele pareceu perceber imediatamente pois me olhou um pouco espantado. Não podia controlar aquilo, aquele desejo dela.