Anos depois…
Lev Bolshakov
Conforme os anos foram passando, minha convivência com Adelie foi ficando mais forte, e nossa afinidade também.
Conheci-a garotinha, uma cobrinha que estava se criando em meio às cobras maiores, mas que sempre mostrou ter um veneno forte.
No início Adelie me presenteou com inúmeras mordidas, e muitas vezes sem motivo. Ela mordeu minha mão diversas vezes, e parecia um fantasma que surgia sem que eu percebesse. Mesmo com todo o treinamento que eu recebia não conseguia perceber os movimentos da garota próximo de mim, o que mostrava que ela realmente era filha da muerte.
E por falar nela, Olivia foi um grande carrasco, me olhava com ódio, me treinava o tempo inteiro, e me fez aprender a “dormir de olhos abertos”.
Eu poderia odiá-la, poderia me referir a ela como a “pior pessoa do mundo”, mas ao invés disso, criei afeto. Afeto por uma mulher que não pensa duas vezes antes de proteger os seus aliados, e por mais que sejam tão pouca coisa, como simples soldados, ela sempre se colocou na linha de frente, apoiando e defendendo quando estavam certos.
Presenciei algumas torturas, e devo admitir que o ex-líder alemão é um ótimo torturador. Olivia também manda bem, mas Markus é excepcional.
Fiquei tão ocupado com os treinamentos, com todos os ensinamentos que tive entre a Colômbia e a Rússia que por dado momento me perdi completamente de Adelie, e quando passei uma temporada longa na minha terra natal, com meus pais, ela simplesmente resolveu me odiar.
Quando voltei para a Colômbia, Adelie havia feito aniversário de quinze anos, e pela primeira vez desde seus cinco anos eu não estava presente. Isso foi motivo suficiente para a adolecente me repudiar. E por mais que ela já não falasse tanto comigo, as poucas palavras que trocávamos eram importantes para ela.
Levei flores, chocolates, enchi seu quarto com ursos de pelúcia, mas nada a deixou feliz, e quando Olivia e Markus estavam longe a negócios Adelie fez uma grande fogueira no quintal e queimou tudo sob meus olhos. O sorriso diabólico em seu rosto fez meu coração palpitar forte, e foi nesse momento que senti que ficaria perdidamente apaixonado por ela.
Ainda haviam três longos anos para o nosso casamento, e eu respeitaria cada um deles, mas desde essa data ela passou a me perseguir, e as mordidas voltaram. Não na mão de maneira brincalhona como fazia quando era criança.
Adelie mordia meu ombro, meu antebraço e chegou a morder minha coxa quando entrou no meu quarto escondido no meio da noite, sem que eu percebesse, e me deixou em estado de choque.
Eu nunca, jamais, em hipótese alguma levantei a mão para ela, e jamais farei isso. Sei que meu pai fez isso com minha mãe, mas jamais farei isso com Adelie, e tenho ótimos motivos para isso.
O primeiro é que se eu fizer, Olivia arranca todos os meus dedos e enfia na minha b***a. O segundo é que Markus arrancaria minhas mãos e daria aos cães. E o terceiro e mais importante, é que provavelmente Adelie colocaria fogo no meu corpo enquanto eu estivesse dormindo. Notei que a diabinha gosta de fogo, e tem uma grande tendência a ser piromaníaca como o seu tio Benno. Honestamente, isso é o que mais me deixa intrigado. Nunca conheci alguém de Benno que tivesse fascinação por fogo, mas parece que Adelie é uma pecinha rara.
Depois que ela colocou fogo nos presentes que dei, decidi dar algo especial, que a deixasse feliz.
_ Uma adaga ? _ Perguntou com um sorriso enorme se formando em seu rosto.
_ Sim, achei que combinaria com você. Não por ser filha de quem é, mas sim porque os detalhes me fazem lembrar ao fogo, coisa que você gosta… _ Ela abriu mais os grandes olhos azuis manchados com marrom, encarando-me surpresa.
_ Vo-Você percebeu?
_ Sim, você será minha esposa, Adelie Cortez, eu presto atenção a cada detalhe seu! _ Falei sorrindo, convencido de que havia finalmente conseguido agradá-la.
_ Você tem um sorriso bonito, Lev. Anda mostrando esses dentes perfeitos para mais alguém? _ Ela apontou a ponta da adaga em minha direção.
Engoli seco, pois os olhos dela me diziam que a garota estava prestes a aprontar alguma coisa.
_ Não.. eu nem sorrio!
_ Mesmo? E aquela mulher no elevador de Berlim. Você parecia muito simpático com ela! _ Ela deu um passo em minha direção.
_ Eu estava na Alemanha fazendo negócios para o seu pai… não pode me julgar por manter minha aparência na frente das pessoas, você sabe que precisamos nos disfarçar. _ Dei dois passos para trás. Não estava com medo de Adelie, mas sim curioso com o que a garota estava prestes a aprontar.
_ Hum… mas precisava sorrir tanto? _ Ela fez um biquinho bonito, e ergueu uma sobrancelha grossa. Mais uma vez meu coração disparou, mas coloquei para longe qualquer pensamento inapropriado, lembrando que ela ainda é apenas uma garota.
Apesar de estar me apaixonando, preciso respeitar todos os limites morais.
Parei de dar passos para trás e parei contra a parede. Ela se aproximou com a adaga e deslizou pelo meu peito, rasgando de fora a fora o tecido.
_ Nossa, está afiada! _ Disse impressionada.
Quando minha camiseta estava completamente rasgada na frente, ela deslizou a lâmina pelo meu peito. Senti a ardência, mas não deixei de olha-la em nenhum segundo, tentando entender qual sentimento a garota estava sentindo naquele momento.
_ É bom se comportar, Lev, e manter essa coisa bem guardada aí dentro! _ Disse apontando para as minhas calças.
Ela me deu as costas, pegou a caixa de madeira e guardou a adaga, saindo da sala e sumindo em um dos corredores.
Soltei o ar que nem sabia estar prendendo, e quando olhei para entender o que ela havia feito no meu peito, vi que ela desenhou a letra A, logo acima da região do coração.
_ Perigosa… _ Murmurei.
Me cobri e voltei para o meu quarto, me certificando que a porta estava bem fechada. Não por medo, claro… só… só precaução.
Dicionário explicativo sobre os “gostos” e “condições” da personagem mostrados neste capítulo:
Pessoas que gostam de morder podem estar expressando agressão de ternura, uma resposta cerebral para regular emoções intensas de afeto ou amor, sem intenção de dano.
Piromaníaca é a forma feminina de pirômano, referindo-se a alguém com um distúrbio psiquiátrico raro caracterizado pelo impulso incontrolável de atear fogo. Indivíduos com piromania sentem fascínio pelo fogo e prazer/alívio ao provocar incêndios, agindo sem motivação financeira ou ideológica.