Capítulo 2
Adelie Cortez
Eu sempre tentei ao máximo me controlar, tentando não mostrar aos outros os meus gostos, já que sempre vi pessoas falarem tão m*l do meu tio Benno, e a vontade constante de morder Lev veio no momento em que o vi pela primeira vez.
Eu não entendia o porquê, mas sempre que meus olhos captavam o garoto, meus dentes pareciam “coçar” para afundá-los na pele dele. Essa é a minha forma de demonstrar carinho por ele, e já cheguei a fazer isso na minha mãe.
Nunca me esquecerei do dia em que mordi Olivia, e ela disse: Garota, se me morder de novo arranco todos os seus dentes e faço um colar!
Ela também não sabe dessa necessidade que tenho, e sei que se soubesse aceitaria mesmo a contragosto. Mas depois de um tempo acabei acostumando a me conter, e o único que mordo é Lev.
Tenho muitas lembranças boas do garoto que Lev foi, com a cara fechada, olhar taciturno e uma tristeza imensa contida.
Algo dentro dele é quebrado, talvez a alma, ou a mente, mas eu sei que ele não é totalmente normal, assim como eu…
Acredito que no fim das contas sejamos dois quebrados, fodidos e desesperados por amor e aceitação.
Sinto que nem o amor dos meus pais consegue acalmar esse monstro que habita dentro de mim, essa vontade insana de colocar todos os conspiradores e inimigos da minha família em um só lugar, e incendiá-los, um por um, observando-os sucumbirem às chamas.
Eu faria isso facilmente, sem me preocupar com o quão terrível possa parecer, e sei que ele estaria ao meu lado.
Eu sei que Lev também sente algo forte por mim, sei que ele não é somente o meu “amigo”. Fomos criados juntos, e minha mãe sempre colocou uma barreira enorme entre nós dois, e fez de tudo para me proteger do rapaz. Olivia estava sempre certa. Lev era impulsivo, deixava a raiva ditar seus passos e sempre machucava alguém. Minha mãe se controlava ao máximo para não puni-lo, e sempre escondeu o carinho que sente por ele. Tanto que ela não fez nem metade das coisas que queria fazer com ele. Olivia queria colocá-lo no nível extremo, assim como foi colocada, porém, algo a fez parar. Olivia percebeu algo em Lev que a fez recuar. Minha mãe jamais recua, ela avança, mas ela recuou.
Foi nesse momento que percebi a adoração que criei por Lev, ele conseguiu fazer a pessoa mais forte que conheço dar passos para trás, e isso me deixou completamente pasma.
Comecei a observá-lo com mais atenção, e as semanas que ele não estava aqui eu ficava deprimida. Observá-lo se tornou minha principal atividade, e consequentemente, aprendi muitas coisas.
Meu pai deseja uma princesa, uma garota protegida por tudo e por todos, enquanto minha mãe não diz nada, apenas me observa. Sei que Olivia passou a vida inteira lutando para que eu não precisasse lutar, mas eu já faço isso desde o ventre da minha mãe.
Eu tinha uma irmã gêmea, e às vezes quando me olho no espelho fico imaginando se ela seria igual a mim, ou diferente em alguns traços. Infelizmente ela se foi cedo demais, e por mais que eu não tenha nenhuma lembrança, às vezes me sinto solitária, como se algo estivesse faltando. E realmente está.
_ É bonita! _ A voz rouca carregada de sono da mulher que me deu a vida chamou minha atenção. _ Ele tem bom gosto, mas poderia ter te dado flores, quem sabe mais um ursinho para você colocar fogo.
_ Não sou criança, e adorei a adaga. _ Respondi sem encará-la.
Ela sentou na cama ao meu lado e observou o objeto junto comigo. Ficamos longos minutos em silêncio, apenas admirando o objeto.
_ Cuidado, filha, senão vai se tornar outra pessoa. _ Olhei para ela, que mantinha os olhos na adaga que Lev me deu._ Ficar perdida internamente é a pior coisa que poderia acontecer com qualquer um.
_ Você já se perdeu, Olivia? _ Ela bufou e me encarou. _ Digo, mamãezinha querida!
_ Engraçadinha! _ Ela me puxou para seus braços, que m*l conseguem me rodear. _ Sim, me perdi, e foi doloroso quando me encontrei. Não quero que passe pela mesma coisa..
_ Mãe, acha que serei como você?
_ Por que a pergunta? É tão r**m parecer com a própria mãe?
_ Não é isso… é que eu vejo Leana te admirando, querendo ser como você, e Laena também. Todos querem ser você.. será que seria errado que eu queira ser somente eu? _ As incertezas tomavam conta da minha mente. Em resposta, Olivia riu.
_ Engraçado, você diz que todos querem ser como eu, mas será que todos estariam dispostos a passar por tudo que passei? _ Encarei seus olhos escuros, e ela sorriu meigamente. _ Garota, você tem que ser você, trilhar seu próprio caminho!
_ Papai ficaria decepcionado…
_ Não se prenda ao que os outros vão pensar ou não, seu pai e eu não estaremos aqui a vida inteira, e você precisará tomar decisões difíceis!
_ Credo mãe, não fala uma coisa dessas!
_ Não se preocupe, não vou bater as botas amanhã, mas com certeza seu pai vai antes de mim!
_ MÃE!
Ela sacudiu os ombros, pouco ligando para a minha indignação. Aproveitei a deixa e decidi pedir algo que a muito tempo tenho vontade.
_ A senhora podia me treinar…
_ Nem fodendo! _ Levantou bufando.
_ p***a mamãe! Eu já não sou criança, tenho que aprender a me defender!
_ Peça ao seu avô!
_ Vovô Ed m*l pode com as calças, acha mesmo que ele vai conseguir me ensinar alguma coisa? _ Levantei indignada e ela me deu as costas.
_ Aquele velho ainda aguenta conviver comigo Adelie, acha mesmo que ele m*l pode com as calças? Os dias em que ele está sem f***r são os melhores pra pedir favores, ele fica puto! _ Disse ela com um brilho no olhar. Se tem coisa que Olivia mais adora é atazanar a vida do pobre Ed, que nem nosso sangue tem, mas que o chamamos de vovô por ter aturado nossa mãe maluca até aqui. _ Ah, e tente não m***r o garoto até o casamento!
Ela soltou uma piscadinha e saiu do quarto.
Depois que risquei minha inicial no peito dele não o vi mais, e isso já tem 3 dias. Desde então fico observando a adaga, imaginando como seria poder usá-la de verdade.
Saí do quarto e fui à procura de Lev, mas não o encontrei em lugar algum. Fui até seu quarto e abri a porta com a cópia da chave que fiz a pouco tempo, mas ele também não estava.
Me joguei em sua cama, sentindo seu perfume inundar minhas narinas e me deixar embriagada. Por algum motivo ele tem cheiro de lar, cheiro de p******o, e isso me agrada.
Fechei meus olhos por alguns segundos, e sem que eu me desse conta, peguei no sono.
Acordei no instante que senti uma presença próxima, mas não abri os olhos e nem me mexi. Segui fingindo que estava dormindo.
Uma mão quente e cheia de calos tocou meu rosto. É ele, é Lev..
_ Se eu não te conhecesse tão bem, diria que está dormindo, cobrinha! _ Sua voz saiu rouca, cansada.
E sem abrir os olhos, decidi respondê-lo.
_ Sua cama é melhor do que a minha, por isso peguei no sono. _ Mentira, a minha é muito melhor.
_ Mentirosa, a sua é bem melhor!
_ Já dormiu nela pra saber? _ Perguntei curiosa.
_ Não, mas eu sei quando você mente! _ Falou em um tom risonho.
Abri meus olhos para encará-lo, e o azul de Lev penetrou a minha alma.
_ Acho bom você se comportar, senhor Bolshakov, senão eu te castro!
_ Você já disse isso, senhorita Cortez! _ Ele sorriu e acariciou meu rosto mais uma vez. _ É melhor você ir, se a sua mãe te pega aqui ela me mata!
Lev levantou e foi até a porta. Antes que ele tocasse a maçaneta, interrompi seus passos com uma pergunta que ele não esperava, e nem eu.
_ Lev, me dá um beijo? _ Perguntei sentindo meu rosto queimar.
_ Já está tarde, viborazinha, é melhor você ir. _ Ele respondeu instantaneamente, sem titubear.
Levantei da cama e passei por ele. E antes que fechasse a porta, encarei seus olhos.
_ Vou começar a viver, Lev, e você vai ter muito trabalho em ficar de olho em mim! _ Não era uma promessa para ele, e sim para mim mesma.
_ O que quer dizer com isso? _ Perguntou preocupado.
_ Espere e verá! _ Falei rindo.
Sai cantarolando pela casa, observando cada canto. Eu gosto daquele homem, eu o quero, e vou tornar a vida dele um verdadeiro inferno para que ele sinta na pele o sofrimento que fico todas as vezes que está longe, ou que me n**a algo.
Queria beijá-lo, sentir como é ter lábios quentes tocando os meus. Não quaisquer lábios, mas os do homem que ocupa meu coração.