Capítulo 6

1232 Words
O evento ocupava um salão inteiro no topo de um hotel na região central. Vidros altos, cortinas translúcidas, luzes quentes calculadas para valorizar rostos e apagar imperfeições. A música era baixa demais para ser ouvida de verdade. Servia só para preencher silêncios. Helena sentiu isso antes mesmo de entrar. A sensação de estar sendo medida. Arthur caminhava ao lado dela, a mão pousada entre as escápulas com a firmeza exata para orientar sem parecer comando. O toque não era íntimo. Era direcional. Ele ajustava o passo dela ao ritmo do espaço. — Respire — disse baixo, sem virar o rosto. Helena respirou. Não porque precisava de ar, mas porque a palavra veio como ordem disfarçada de cuidado. A roupa que ela vestia não era dela. O vestido tinha sido escolhido pela equipe de Arthur, ajustado por alguém que não perguntou se ela se sentia confortável. Caía perfeitamente no corpo, no comprimento certo para não provocar comentários. Impecável. Calculado. O tecido marcava presença como uma segunda pele que não tinha escolhido. Ao atravessar a entrada, o som do salão mudou. Não ficou mais alto. Ficou mais atento. Olhares se moveram com a precisão de quem reconhece algo novo e valioso. Arthur parou por um segundo, como se marcasse território, e então avançou. Helena acompanhou. — Montenegro — disse um homem de terno cinza, aproximando-se com um sorriso treinado. — Não sabia que viria. Arthur cumprimentou com um aperto de mão curto. — Mudança de planos. O homem desviou o olhar para Helena. O sorriso se reajustou. — E esta deve ser… — Minha esposa. Helena. A palavra caiu sem cerimônia. Sem anúncio. Como um dado. O homem piscou rápido demais. — Claro. Prazer. Helena apertou a mão estendida. Força exata. Tempo exato. Sorriu. O sorriso que tinha ensaiado por meio minuto antes de sair da cobertura. — Prazer. Arthur inclinou-se levemente, a mão ainda firme nas costas dela. — Fique ao meu lado. Ela já estava. Avançaram mais alguns passos. A assistente de Arthur surgiu como se sempre tivesse estado ali, tablet na mão. — Dez minutos — murmurou. — Depois, mesa do fundo. Arthur assentiu sem olhar. A assistente desapareceu. Nada ali era acaso. Cada pausa, cada encontro, cada deslocamento estava mapeado. Helena percebeu com clareza incômoda: ela agora fazia parte do mapa. — Você está bem — Arthur disse. Não era pergunta. — Estou. “Estar bem” ali significava não errar. Um grupo se aproximou. Duas mulheres, um homem. Conversa cruzada. Risos contidos. Olhares atentos demais. — Arthur — disse uma das mulheres. — Que surpresa. — Olá. — Ele virou levemente o corpo. — Esta é Helena. O ritual se repetiu. Sorriso. Cumprimento. Nomes que não ficariam. — Casados? — perguntou a outra mulher, curiosidade disfarçada de casualidade. — Recentemente — Arthur respondeu por ela. — Que maravilha. — O olhar pousou em Helena. — Você deve estar vivendo uma loucura. A mão de Arthur pressionou um pouco mais as costas dela. Aviso mínimo. — Tem sido intenso — Helena disse. — Você estava fora do radar — comentou a mulher. Helena sustentou o olhar. — Estava. Arthur desviou a conversa com uma pergunta técnica. A atenção saiu dela como uma porta fechando no momento certo. Helena percebeu e odiou o quanto aquilo funcionava. Seguiram andando. O salão parecia um organismo vivo, abrindo espaço para Arthur, fechando-se atrás. Pessoas surgiam, avaliavam, desapareciam. A mão dele saiu das costas dela por um instante e voltou ao antebraço, guiando-a numa curva. O toque mudou de lugar sem mudar de função. Helena pensou em Lucas sem querer. Em como ele caminhava ao lado dela sem conduzir. Em como o espaço não precisava ser negociado. O contraste doeu. — Não se afaste — Arthur disse, quase um sussurro. Helena percebeu que tinha recuado meio passo. Voltou. — Desculpa. Arthur não respondeu. Um fotógrafo circulava perto da mesa de bebidas. Discreto. Atento. Helena sentiu o estômago contrair. — Fotos? — perguntou baixo. — Sim — Arthur respondeu. — Eu não fui avisada. — Foi implícito. O fotógrafo levantou a câmera. Arthur girou o corpo, posicionando Helena ao lado dele. A mão pousou na cintura dela por um segundo a mais do que o necessário. Não era carinho. Era composição. — Aqui. Helena sorriu. A luz piscou. Arthur afastou a mão. — Suficiente. — Onde isso vai parar? — Helena perguntou. Arthur olhou para ela pela primeira vez desde que entraram. — Onde for útil. Foram apresentados a mais pessoas. Sempre Arthur primeiro. Sempre “minha esposa”. Nunca só “Helena”. O corpo dela estava rígido. Ombros controlados. Passos medidos. Cada gesto tinha custo. — Você está indo muito bem — Arthur disse quando ficaram sozinhos perto de uma coluna. — Isso é um desempenho? — ela perguntou. — É uma função. Função. A palavra encaixou à força. — Por quanto tempo? Arthur observou o salão antes de responder. — Pelo tempo necessário. Uma mulher mais velha se aproximou, i********e antiga no sorriso. — Arthur, querido. Não sabia que tinha se casado. — Não sabia porque não foi convidada. Ela riu. — E esta é a felizarda? — Helena. O olhar da mulher percorreu Helena com rapidez profissional. — Discreta. Gosto disso. — Você trabalha com o quê? — perguntou. — Não trabalha — Arthur respondeu. O impacto foi imediato. Helena sentiu o maxilar travar por um segundo antes de recuperar o controle. — No momento — Arthur acrescentou, olhando para ela. A mulher pareceu satisfeita. — Melhor assim. Quando se afastou, Helena respirou fundo. — Você podia ter deixado eu responder. — Podia. — Pausa. — Não deixei. — Você está me apagando em público. Arthur aproximou o rosto o suficiente para que só ela ouvisse. — Não. Estou te fixando. A assistente reapareceu. — Cinco minutos. — Última mesa — Arthur disse. O grupo era menor. Mais silencioso. Mais atento. Um homem franziu a testa. — Helena Duarte? — Sim. — Você trabalhou com o Lucas, não foi? O nome caiu como algo indevido. O corpo de Helena reagiu antes da mente. A respiração falhou meio segundo. Ela precisou apoiar a ponta dos dedos na lateral da mesa. Arthur virou o rosto devagar. — Lucas? — Lucas Azevedo — o homem completou. — Consultoria. Arthur olhou para Helena. Em público. Registrando. — Trabalhamos juntos — ela disse. — Ele está por aqui? — Não — Arthur respondeu, sorrindo de leve. O homem percebeu tarde demais e se afastou. Arthur pousou a mão nas costas de Helena, com mais pressão. — Foco. O evento começou a se dispersar. Cartões. Despedidas. O fotógrafo reapareceu à distância. — Podemos ir? — Helena perguntou. Arthur avaliou o ambiente. — Sim. Na saída, o fotógrafo pediu mais uma. Arthur puxou Helena para perto. A mão firme na cintura. O corpo dela alinhado ao dele. A luz piscou. Dessa vez, Helena soube. Aquela imagem não ficaria ali. No carro, o silêncio era espesso. O celular vibrou. Uma notificação. A foto. Eles lado a lado. A mão dele na cintura. O sorriso dela congelado. Publicação em um portal financeiro. Compartilhamentos em cascata. “Arthur Montenegro apresenta sua esposa em evento fechado.” Helena sentiu o ar sumir. Arthur olhou para a tela, depois para frente. — Era questão de tempo. Helena fechou o celular. Ela não tinha mais invisibilidade. E alguém, em algum lugar, iria ver.
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