Capítulo 5

1244 Words
A cobertura era silenciosa demais para ser uma casa. Helena percebeu isso no instante em que atravessou a porta. Não havia eco, nem cheiro de comida, nem vestígios de alguém vivendo ali de verdade. Tudo estava limpo, organizado, preciso. Linhas retas. Tons neutros. Superfícies que não guardavam marcas. A porta se fechou atrás dela com um clique baixo. Arthur não comentou. Tirou o paletó com um gesto automático e o entregou a uma mulher que surgiu de um corredor lateral sem fazer barulho. — Boa noite, senhor Montenegro — disse ela. — Boa noite, Marta. A funcionária recebeu o casaco, lançou um olhar rápido e respeitoso para Helena e assentiu levemente, como se confirmasse algo que já sabia. — Boa noite, senhora. “Senhora.” A palavra pousou estranha. Não havia curiosidade no tom. Nem surpresa. Só normalidade. Como se Helena estivesse naquela casa desde sempre. Arthur caminhou para dentro sem olhar para trás. Não precisou chamá-la. O espaço inteiro já indicava o caminho. Helena avançou com cuidado. Ainda estava com a mesma roupa do cartório. O tecido rígido, o sapato inadequado para pisos de pedra clara, o corpo preso numa postura que não combinava com a ideia de “noite em casa”. Ela parecia uma visita formal que tinha ficado tempo demais. A sala se abriu ampla, silenciosa, com janelas de vidro do chão ao teto. A cidade lá embaixo era um conjunto de luzes distantes, domesticadas pela altura. — Aqui é a área social — Arthur disse, como se estivesse apresentando uma sala de reuniões. — Você não vai precisar usar muito. Helena parou a poucos passos dele. — Por quê? Arthur olhou para ela pela primeira vez desde que tinham entrado. — Porque sua rotina não acontece aqui. Não houve explicação. Não houve espaço para pergunta. Marta cruzou a sala e parou ao lado de Helena. — Posso recolher a bolsa, senhora? Helena apertou a alça com força. Sentiu o couro ceder um pouco sob os dedos. — Não. A funcionária não se ofendeu. Apenas olhou para Arthur, aguardando confirmação. — Deixe — ele disse. Marta assentiu e se afastou sem uma palavra. O gesto simples confirmou o que Helena já tinha entendido: nada ali dependia da vontade dela. Só do grau de permissão. Arthur voltou a andar. Helena o seguiu. O corredor era longo, iluminado por luz indireta. Portas fechadas dos dois lados. Nenhuma indicação de i********e. Nenhuma foto. Nenhum objeto fora do lugar. — Esse é o seu quarto — Arthur disse, parando diante de uma porta de madeira clara. Ele abriu. O quarto era grande, impessoal como o resto da casa. Cama ampla, lençóis brancos, uma poltrona em um canto, armário embutido. Tudo pronto. Tudo vazio. — Você vai ficar aqui. Helena entrou devagar. Deu dois passos e parou. O ar parecia mais frio ali dentro. — E você? — perguntou, sem pensar. Arthur respondeu sem hesitar. — No meu quarto. Ela sentiu um alívio curto, quase irritante. Não era segurança. Era reflexo. — Há regras — ele continuou. — E horários. Helena se virou para ele. — Eu imaginei. Arthur se apoiou levemente no batente da porta, cruzando os braços. Não bloqueava a saída. Não precisava. — Café da manhã às sete. Marta cuida disso. Você não entra na cozinha. — Não entra? — Helena repetiu, antes de conseguir se conter. — Não entra — ele confirmou. — Não por agora. Ela assentiu, engolindo a reação. — Aparições públicas são comunicadas com antecedência mínima de doze horas. — Arthur olhou para o relógio no pulso. — Exceto quando não forem. Helena sentiu o aviso antes de entender o sentido completo. — Você não circula pela casa depois das onze sem necessidade. — Ele continuou. — Eu trabalho até tarde. Gosto de silêncio. — E se eu precisar… — ela começou. Arthur levantou a mão. Um gesto curto, definitivo. — Você vai aprender o que é necessidade aqui. O quarto pareceu encolher um pouco. Helena respirou fundo, sentindo o ar prender no meio do peito antes de descer. — Isso tudo faz parte do contrato? Arthur a observou com calma. — Isso tudo faz parte da convivência. Ele se afastou do batente e deu um passo à frente. Não tocou nela. Parou perto demais mesmo assim. Helena sentiu o próprio corpo reagir, um ajuste involuntário da postura, como se estivesse sendo avaliada. — O contrato terminou no cartório — ele disse. — Aqui começa o resto. Ela pensou em Lucas. Não quis. Pensou mesmo assim. Pensou em como nunca precisava medir os passos perto dele. Em como o silêncio não tinha peso. Em como um quarto era só um quarto, não uma regra. Ali, tudo tinha função. Inclusive ela. — Se precisar de algo — Arthur continuou — você fala com Marta. Não comigo. — E se for algo que diga respeito a nós dois? Arthur inclinou a cabeça, avaliando como quem decide algo pequeno. — Aí você espera. O silêncio se estendeu entre eles. Não era vazio. Era um teste. Arthur se afastou primeiro. — Troque de roupa. — A frase soou como instrução, não cuidado. — Jantar leve. Depois, descanse. Amanhã começa cedo. Ele saiu do quarto sem esperar resposta. A porta ficou aberta. Helena fechou. Encostou as costas nela por um segundo, sentindo o contato frio atravessar o tecido da roupa. O coração batia firme, controlado à força. Ela largou a bolsa sobre a poltrona e caminhou até o armário. Abriu. Roupas já organizadas. Numeração exata. Tons neutros. Peças que pareciam escolhidas para não chamar atenção — nem permitir erro. Helena fechou o armário rápido demais. O som seco ecoou baixo no quarto. Ainda não. Houve uma batida discreta na porta. — Senhora Helena — disse a voz de Marta do lado de fora. — O jantar está servido quando desejar. Helena abriu. Marta esperava com a mesma postura profissional. Nenhuma curiosidade. Nenhuma pena. — Obrigada. — Se precisar de algo, estou à disposição. Helena assentiu. A funcionária se afastou. A sala de jantar era grande demais para duas pessoas. Arthur já estava sentado, lendo algo no tablet. Não levantou o olhar quando ela entrou. Helena sentou na cadeira oposta. A distância entre eles parecia calculada. Comeram em silêncio. O som dos talheres era controlado. Nenhuma conversa trivial. Nenhuma tentativa de normalidade. Helena sentia o próprio corpo o tempo todo. A posição da cadeira. A rigidez dos ombros. O jeito como Arthur ocupava o espaço sem esforço, como se a casa fosse uma extensão natural dele. Ela terminou antes. — Posso me retirar? — perguntou. Arthur levantou os olhos. — Pode. Ela se levantou e saiu. Nenhuma palavra a mais. No quarto, trocou de roupa devagar. O vestido caiu no chão como algo que não pertencia mais ali. Vestiu uma camiseta simples, uma calça confortável. Ainda assim, sentia-se deslocada. Deitou na cama sem apagar a luz. O teto era liso, claro, impessoal. Não havia rachaduras. Nada para prender o olhar. O celular vibrou na mesa de cabeceira. Mensagem. Arthur. “Amanhã, 9h. Evento fechado. Você estará comigo.” Helena sentou na cama. Leu de novo. Evento. Fechado. Estará comigo. Digitou uma resposta. Apagou. Não perguntou qual. Não perguntou onde. Não perguntou por quê. Porque já sabia a resposta para todas. Ela largou o telefone e apagou a luz. No escuro, a casa continuava silenciosa. Vigilante. Funcional. Helena não tinha entrado apenas numa residência. Tinha entrado num sistema. E o sistema já tinha agenda.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD