o jantar e o começo

1052 Words
Mais tarde, já com a casa em silêncio e o coração ainda cheio da emoção do dia, Bled se aproximou do quarto da filha e bateu suavemente à porta. — Filha... — chamou com ternura. — Às oito horas da noite vamos jantar, tá bom? O restaurante aqui da rua mesmo. O Marcos deixou reservado pra gente. — Tá bom, pai. Obrigada. Assim que ele saiu, Joaninha ficou um tempo parada em frente ao espelho. Vestiu um vestido leve, azul-escuro, que realçava seus olhos. O cabelo ela deixou solto, caindo em ondas naturais pelos ombros. Passou um perfume delicado e um brilho nos lábios. Por fora, ela parecia calma. Por dentro... um turbilhão. "Será que o Marcos vai aparecer de surpresa? Ai... ele é tão lindo... Eu acho que tô gostando dele. Não... acho não. Tenho certeza. Mas eu não posso alimentar isso. Ele é meu chefe. Com certeza tem uma namorada... deve ser linda... ou talvez até esposa. Um homem como ele, com tudo que tem..." Suspirou. Sorriu de leve, mesmo tentando se convencer do contrário. "Mas um dia... um dia eu vou ter alguém lindo como ele. Alguém que me olhe como ele olha..." Alguns minutos se passaram. — Mãe... já estou pronta. — Pode entrar, filha. Quando Gisele a viu, arregalou os olhos e levou a mão ao peito: — Minha filha... você está deslumbrante! Que beleza é essa, meu Deus! Joaninha sorriu, envergonhada. — Obrigada, mãe. A senhora que está um arraso! Parece até uma modelo de capa de revista. — Ah, deixa de bobagem... você que é a estrela da noite. Nesse momento, Bled surgiu no corredor, de camisa clara e calça social. Os olhos dele brilharam ao ver as duas. — Minhas duas princesas... estão impecáveis! — Obrigada, pai. E o senhor está um príncipe! — disse Joaninha, emocionada. Eles se abraçaram forte, como se aquele momento precisasse ser guardado para sempre. Pouco depois, ao chegarem ao portão, o motorista já os aguardava com um sorriso simpático. — Boa noite, senhores. — disse com respeito. — Sou George, motorista de vocês. Vim mais cedo porque soube que teriam um jantar especial esta noite. O senhor Marcos pediu para eu trazê-los com toda tranquilidade. — Boa noite, George. Muito obrigada. — respondeu Joaninha com educação. — Obrigado mesmo. — completou Bled, estendendo a mão. Eles entraram no carro e seguiram pela rua iluminada, com a brisa leve tocando as janelas. A cidade parecia diferente naquela noite. Havia algo no ar. Uma esperança nova. Uma sensação de recomeço. E Joaninha... ainda carregava no peito aquela pontinha de esperança — uma esperança com o nome de Marcos. O garçom retornou com um sorriso simpático e o bloquinho na mão. — Já escolheram, senhores? — Sim — disse meu pai, ajeitando a gravata nova com um toque de orgulho. — Vamos querer o prato principal que o Marcos recomendou: almôndegas recheadas com purê gratinado, arroz branco e salada. E, por favor, também um pratinho de salgados, pra gente ir petiscando. — Perfeitamente. Já volto com os pedidos. Enquanto ele se afastava, minha mãe segurou minha mão com delicadeza e disse: — Filha, amanhã você vai com o Marcos sozinha, tá? — Sozinha? Mas por quê, mãe? — Porque eu vou acompanhar seu pai no primeiro dia de trabalho dele. Depois vou voltar pra casa pra organizar tudo, receber a moça que vai nos ajudar e preparar o almoço. E você... vai aproveitar um pouco esse momento com ele. — Ah... tá bom, mãe. Pode deixar. Eu vou ter cuidado, prometo. — É só isso que eu peço — ela sorriu. — Aproveita, mas mantenha os pés no chão, tá? Eu assenti com um sorrisinho tímido, enquanto o garçom colocava à mesa uma bandeja com os salgadinhos, bem douradinhos e apetitosos. Mais tarde, quando o prato principal chegou, nossos olhos brilharam. — Uau... — disse eu, entusiasmada — parece delicioso! — Se precisarem de qualquer coisa, é só me chamar — avisou Davi antes de se afastar. Demos a primeira garfada em silêncio, e logo depois todos soltamos um "hmm" ao mesmo tempo. Era realmente uma delícia. — Querido... — disse minha mãe, olhando para meu pai com ternura — a gente tem dinheiro suficiente, né? — Temos, amor. Eu trouxe sim. O Marcos até quis deixar tudo pago, mas eu pedi pra não. Eu queria ter esse prazer... o de poder sair com vocês e pagar com o nosso próprio esforço. — Que bom, amor. Fico tão feliz de ver você dizendo isso... olha onde a gente está! Num restaurante lindo, com uma vista maravilhosa... e você bancando tudo com o seu trabalho. Isso não tem preço. — Momentos felizes... — ele disse, emocionado, pegando na mão dela. — E merecidos. — completei, sorrindo. Minutos depois, Davi retornou. — Posso trazer a sobremesa? — Pode sim, por favor — respondeu meu pai, com uma segurança nova no tom de voz. Assim que ele se afastou, brinquei com um risinho: — Pai, o senhor tá falando tão chique! Ele riu e respondeu, orgulhoso: — Temos que começar a falar assim, né? Agora vamos conviver com pessoas mais estudadas e refinadas... nada de passar vergonha por falta de jeito, hein? — Concordo, papai! — falei, erguendo meu copo de suco num brinde improvisado. A sobremesa chegou — abacaxi gelado com raspas de limão. Estava incrível. — Essa sobremesa está impecável. — disse eu, lambendo a colher com gosto. — Maravilhosa mesmo — concordou minha mãe. — A vida é cheia de surpresas, né? — E vocês dois... são tudo pra mim. — murmurei, com os olhos marejando. Meu pai então chamou o garçom com um gesto discreto: — Davi, pode trazer a conta, por favor. Ele pegou, conferiu com calma, pagou, e ainda deixou uma gorjeta generosa. — Obrigado pela gentileza e atendimento. — disse, educado. Davi sorriu com sinceridade: — O prazer foi todo meu. Voltem sempre. Nos levantamos e seguimos para a saída. Do lado de fora, o motorista George já nos esperava com o carro pronto. — Vamos? — disse meu pai, abrindo a porta para nós com um sorriso. Naquele momento, olhando para o céu estrelado e sentindo a brisa do mar, eu só conseguia pensar em uma coisa: A vida tinha finalmente começado a sorrir para nós.
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