NARRADO SARA A água escaldante do chuveiro batia com força nos meus ombros tensos, escorrendo pelas minhas costas, mas nem todo o calor do mundo parecia ser capaz de dissolver o frio glacial que havia se instalado no fundo do meu estômago. Apoiei as duas mãos trêmulas nos azulejos escuros do box, abaixando a cabeça, deixando o vapor denso embaçar completamente o vidro ao meu redor, criando uma redoma isolada do resto da Fortaleza. Gêmea. Uma irmã gêmea. A palavra repetia na minha mente como um eco impossível, martelando as minhas têmporas. Durante toda a minha vida, fomos apenas eu e o meu pai, Antônio. Nós comemos o pão que o d***o amassou. O meu pai abriu mão de tudo para me proteger daquela herança de sangue e violência. E agora, como um milagre distorcido e assustador, o asfalto tr

