Capitulo 6

1145 Words
O moleque passou lá embaixo dando esporro nos vapores... daqui a pouco ele tá querendo cobrar a taxa de administração do meu salário, na moral! Eu fechei o tempo na hora. A cara de assassino voltou pro lugar e a risada sumiu como fumaça no vento. Eu não dava mole pra ninguém, não afrouxava a rédea nem pro meu braço direito, senão essa favela virava um cabaré. A minha mão gigante foi direto e cobriu a trava da Glock. — Baixa a bola e a tua voz de o****o, Tubarão. Tá achando que aqui é a p***a das tuas férias em Cancún, seu arrombado? — Falei, a voz ríspida, raspando na garganta como lixa. Apontei com o cano da peça pro lado de fora do QG. — Se tu tá com tempo de sobra pra ficar analisando o meu proceder e fazendo piadinha de p*u no cu, é porque a pista tá muito leve pra tu. Se manda lá pra boca de baixo agora. Tem uma carga pesada de bico novo chegando na divisa e eu preciso que tu confira se o rastro tá limpo, se não tem rastreador da civil enfiado no meio do malote. Não quero erro. Não quero ver vulto estranho respirando no meu setor. E tira a p***a desse chiclete da boca antes que eu te faça engolir a embalagem e cagar plástico amanhã! O Tubarão deu um pulo exagerado pra trás, metendo a mão no peito, fingindo que tava levando um tiro de 762, com uma dramaticidade de novela que dava vontade de rir e de quebrar os dentes dele na coronhada ao mesmo tempo. — Pô, Golias... bicho, isso é covardia máxima, tá ligado? Eu acabei de chegar da contenção na madruga, p***a! Acabei de vir de uma ronda puxada pra c*****o lá na divisa norte! — ele resmungou, jogando o corpo na cadeira de ferro na frente da minha mesa com um baque surdo. — A gente faz o trabalho sujo, protege o rastro, garante que o teu império continue de pé sem cair uma telha e agora tu quer me mandar pro sol quente de novo só porque eu te peguei num momento de doçura paternal? O patrão tá muito estressadinho, papo reto. Ou será que é a saudade da loirinha que tá te deixando com esse mau humor de viúva m*l comida? Eu estreitei os olhos, a cicatriz na minha sobrancelha repuxando de ódio. A tensão no ar ficou densa, pronta pra estourar tiro a queima-roupa. Se eu desse a mão, esse maluco queria arrancar meu braço, meu fuzil e a carga de cocaína toda. — Tu ouviu o que eu falei ou tá precisando limpar essa orelha cheia de cera com chumbo derretido, seu filho da p**a? — rosnei, levantando da cadeira devagar, os músculos das costas travando. Ocupei o espaço todo da sala, engolindo a luz com a minha sombra de gorila. — Não me interessa se tu chegou agora, se tu tá com soninho ou se a tua bota tá apertando a p***a do teu calo. Aqui quem dita o ritmo cardíaco dessa favela sou eu. Vai buscar a carga, Tubarão. E escuta bem: se tiver um grama de pó fora do lugar, se tiver um rato respirando errado no meu território, tu vai resolver pessoalmente na faca e no dente. O meu bom humor tá mais curto que pavio de dinamite e a tua boca de esgoto tá me testando demais. Vaza. E vê se não para pra comer a p***a de um pastel de queijo no caminho, que eu quero esse serviço relatado na minha mesa pra ontem! O Tubarão bufou, levantando os braços cheios de ouro em sinal de rendição, mas com aquele brilho de pilantra safado no olho, provando que ele tava cagando pra minha bronca. Deu um pulo da cadeira, arrumou o boné torto, deu uma piscadinha pro teto e começou a fazer um passo bizarro de funk das antigas recuando pra porta. — Tá bom, tá bom... já entendi o proceder de ditador. Tu é um bicho brabo, Golias, mas um dia tu ainda vai aprender a ser mais educado com o teu melhor e mais lindo soldado. Tô indo lá resolver o caô. Mas ó: se eu achar um grama a mais de brinde na carga, eu vou distribuir pras coroa da comunidade fazer um chá, valeu? O Gigante que lute com o prejuízo do tráfico! — Ele mandou essa audácia do c*****o, já virando as costas, com aquele gingado folgado de quem não tem instinto de sobrevivência. — E vê se relaxa esse teu cu, patrão! Se ficar tenso desse jeito, daqui a pouco tu estoura uma úlcera e o morro vai ficar sem comando. Reconhece o meu valor, chefe! — Vaza daqui, c*****o! Some da minha vista! — urrei, vendo o verme sumir pelo corredor, resmungando alguma merda sobre leis trabalhistas do crime organizado que ele inventou na hora. Balancei a cabeça, soltando um riso contido que arranhou o fundo da garganta. O Tubarão é um merda sem tamanho. Mas é o meu merda. Com ele fora, o silêncio denso e criminoso voltou pro QG. Aquele silêncio pesado de quem comanda a vida e a morte de cinco mil pessoas. Sentei de novo, comecei a organizar os maços de dinheiro sujo, checando as guias de entrada da branca, os pagamentos do arrego dos canas corruptos e a contabilidade da rapaziada. O morro não dorme, e se o Gigante piscar o olho, o império afunda numa poça de sangue. De repente, a porta de metal do escritório gemeu de novo. O barulho arrastado e escroto ecoou nas paredes de concreto. A veia do meu pescoço saltou, latejando. — p***a, Tubarão! Eu já não mandei tu meter o pé dessa sala, seu i*****l do c*****o?! — esbravejei sem nem levantar a cabeça dos maços de nota de cem. — Tu quer que eu te mande conferir carga na pista a pé ou tu quer ir caçar vaga pro teu juízo no cemitério?! Tu tem cinco segundos cravados no relógio pra me dar um bom motivo pra voltar aqui, ou eu vou te macetar na porrada até tu esquecer o próprio nome, seu saco de bosta! Parei de gritar no meio da frase. A palavra morreu na minha boca e o sangue que fervia nas veias congelou. Eu tava com a mão no cano da Glock, pronto pra esculachar o Tubarão até ele sair voando de cara no chão, mas a energia da sala inverteu num milésimo de segundo. O cheiro de maconha, suor e óleo de arma sumiu, foi engolido. Um cheiro suave de álcool antisséptico misturado com um perfume doce de morango que eu conhecia melhor que o mapa da minha favela arrepiou até os pelos do meu braço. Levantei os olhos devagar. Era ela. A minha dona. A rainha da p***a toda. A Sara.
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