Caroline e eu viramos a noite conversando.
Ela não tinha ideia do rumo que a própria vida tomaria depois de se descobrir grávida e eu não era a melhor pessoa para aconselhá-la, mas tentei tranquilizá-la. Ajudaria no que fosse preciso, embora meus recursos fossem limitados e não fôssemos próximas.
Evitei perguntar sobre o pai, mas ela soltou alguns detalhes. Caroline teve medo de me dizer o nome dele, percebi, porque o rapaz pertencia ao meu departamento de Medicina Veterinária. Pude assimilar poucos detalhes, como o fato de que ele não era o estudante mais dedicado e que pensava em desistir mais do que estudava.
Não importava para onde olhava, sabia que minha colega tinha se metido numa roubada.
Meus problemas ficaram de lado. O rosto do meu lindo professor, as assustadoras confissões que saíram dos lábios dele e o modo como me olhava... Tive que guardar as lembranças na minha caixa de segredos, nervosa com o fato de que teria aula com ele no dia seguinte.
Nos meus sonhos, todos os belos traços do rosto dele se tornaram minha perdição. Eu mordiscava, acariciava, lambia e rosnava seu nome. Se Dante era um precipício, eu estava inconscientemente me jogando nele, entregando-me aos desejos fúteis que eu não compactuava.
Tão errado.
Tão tentador.
Eu nem conseguia mais dizer quem eu era. A perfeita Diana moldada pelos erros das outras pessoas e as próprias dificuldades cotidianas jamais se deixaria abalar por um homem.
Infelizmente, porém, eu não conseguia ser a perfeita Diana o tempo todo e precisava admitir que meu professor estava abalando meu psicológico mais do que deveria.
▬▬▬▬▬▬▬▬▬
A sala de Anatomia Patológica Animal estava mais agitada do que costumava. Vários alunos de outras turmas se reuniam e minha própria turma havia chegado tão cedo que consultei várias vezes o relógio para me certificar de que não me atrasei.
Os alunos tinham sacolas cheias de comidas diferentes, desde salgados a doces. Refrigerantes e sucos estavam postos em montes por cima da mesa do professor, o pouco espaço enfeitado por bolas de gás hélio com corações. Dedicatórias em post-its foram escritas pelas alunas e coladas no quadro branco, preenchendo-o com recados carinhosos.
Aproximei-me do Wallace, um dos participantes mais empolgados da festa. Ele até usava um daqueles chapéus horrendos de aniversário escrito Professor N° 1.
— Perdi alguma coisa? — Questionei-o, confusa.
Ele estava abrindo uma caixa de docinhos e distribuindo em formato de flores pela mesa do professor, entretido demais com o trabalho para sequer olhar na minha direção.
— Não olhou o grupo da sala, gata? É aniversário do gostosão.
Meu coração disparou, desorientado pela informação.
— Dante faz aniversário hoje?
Wallace estalou a língua, descontente com a flor que formou.
— Foi o que eu disse. E, se não for incômodo, a madame poderia muito bem me ajudar com isso aqui.
Ele empurrou para o meu colo um recipiente cheio de docinhos. Embora o trabalho dele tivesse progredido bastante, ainda deviam ter umas duzentas guloseimas para colocar em ordem.
Incomodada, não pensei em deixar de lado minha mochila. Assumi a tarefa com os doces, enfileirando-os do mesmo jeito que meu amigo fazia.
Eu não queria nem mesmo vê-lo e teria que parabenizá-lo; o combo das coisas ruins disposto em prato fresco na minha manhã. Minha única opção era seguir o fluxo, fazendo parte daquela festinha infeliz que eu não queria participar.
Meu amigo foi chamado por uma outra aluna, indo para longe para cuidar das bexigas decoradas. Como eu pensava, ele era um dos organizadores daquele evento. Deveria estar chateada por não ter me avisado, mas sabia o motivo: Wallace estava ciente de que eu nem pisaria na faculdade se soubesse que teria festa.
De volta ao meu serviço, distraí-me pensando no que deveria fazer. Talvez Dante nem percebesse minha presença e fosse fácil sair entre os alunos sem a cortesia de desejar os parabéns a ele, mas se ele percebesse deduziria imediatamente o que causou minha fuga e sentiria que eu estava perdendo naquele jogo proibido de confidências, deixando-me levar pelas emoções dele.
Que se dane, pensei. É só acenar e ir embora. Ele não vai ligar.
Alheia ao que acontecia ao meu redor, assustei-me ao sentir um hálito quente soprar em meu pescoço.
Arrepiada, coloquei a mão no pescoço e virei-me para encontrar Vitor me encarando de volta. Ele tinha um daqueles sorrisos no rosto, parecendo convencido por ter arrancado tamanha reação de mim.
— Te deixei arrepiada? — Brincou Vitor.
Balancei a cabeça, incrédula com tamanha falta de noção.
— Como um cara tão medíocre pode se achar tanto assim? — Questionei, estressada.
Inabalável, Vitor estendeu a mão e tirou uma mecha do meu cabelo da frente do rosto.
Senti o ímpeto de arrancar aquele sorriso dele à força. Ele nunca parava de me tocar, mesmo quando eu demostrava incômodo, e aquele tipo de atitude estava se tornando exaustiva. O abuso começava daquele jeito, um pequeno gesto abria espaço para um amontoado de outros pequenos gestos. Não demoraria muito até que ele achasse que poderia tocar em mim de outra forma.
— Eu garanto a você, querida — disse Vitor, a voz baixa —, que não sou nada mediano.
Franzi a testa.
Eu devia estar delirando, porque tinha quase certeza de que Vitor estava flertando comigo.
— Você não disse isso — murmurei.
Ele soltou uma gargalhada.
— Eu disse, sim. E te trouxe um presentinho. Foi bem difícil de conseguir, mas eu separei exclusivamente para...
— Não quero — interrompi-o. Não podia esperar nada de bom do Vitor. — Obrigada e retire-se. Estou ocupada.
Ele revirou os olhos.
— É só um doce, Diana — repreendeu-me. Vitor colocou nas mãos uma trufa aparentemente inofensiva. Eu já estava abrindo a boca para recusar, mas ele me fez a indispensável proposta: — Eu te deixo em paz depois que comer.
Estava tão cansada da presença dele que peguei a trufa no mesmo instante.
— Satisfeito?
Ele diminuiu a risada até que se tornasse somente um sorriso.
— Coma primeiro — resmungou. — Como vou saber se não jogou no lixo?
Ergui as sobrancelhas, ofendida. Mais uma vez em menos de dois dias um homem adivinhou perfeitamente algo que eu faria. Não tinha nada mais irritante do que ser tão previsível.
Ele estava insistindo demais no assunto, mas não seria cafajeste a ponto de me drogar com tanta gente vendo. Até mesmo os colegas que não conversavam comigo sabiam que eu não usava nada além da cafeína. Ele não se safaria tentando algo negligente como aquilo.
Convencida de que restava um pouco de bom senso no rapaz, deslizei o doce para dentro da boca e mastiguei, rapidamente engolindo para que ele fosse embora.
— Pronto — falei, o morango da trufa ainda nos lábios. — Agora vá até onde a luz não bata.
Estranhamente satisfeito, Vitor foi breve em sua despedida, acenando enquanto caminhava para perto dos colegas da turma dele. Ele disse algo para eles e eles riram em resposta, olharam de soslaio na minha direção e tentaram disfarçar em seguida.
Minha consciência pesou. Havia algo errado a respeito daquele grupinho, e se eu não quisesse dar sorte ao azar, teria que correr até o banheiro para tentar expulsar aquele doce antes que encostasse meu estômago.
Coloquei os docinhos ao lado da mesa, por cima de uma cadeira. Podia ser exagerado da minha parte, mas não confiava em homens como Vitor. Ele insistiu demais até forçar aquela situação, e eu não podia deixar de jeito nenhum que alguém na faculdade me visse chapada.
Andei apressadamente entre os alunos, apertando-me entre eles para chegar até a porta. A culpa enluvava minha mente com a amarga sensação de que fui ingênua e tinha me deixado levar pelo papo de alguém que nem mesmo era digno de confiança.
Passei a mão nos olhos para expulsar lágrimas frustradas.
Dois segundos com os olhos fechados bastaram para que eu colidisse numa rígida parede, recuando para trás para recuperar o equilíbrio.
Um suspiro escapou dos meus lábios quando fui capturada por mãos firmes e macias.
Relâmpagos azuis inundaram minha visão, embora os olhos dele estivessem mais opacos do que o normal.
As mãos dele seguravam minha cintura, o toque terrivelmente romântico para um professor. Os dedos eram suaves, a expressão preocupada. Era como um homem segurando sua amante para que não caísse enquanto calculava milimetricamente os danos causados pela queda apartada, preocupando-se com o bem-estar da pessoa pela qual sentia afeição.
Mais alguns segundos se passaram até que eu percebesse que a sala inteira estava nos olhando.
— Disfarça — sussurrei, desesperada.
Dante abriu os lábios rosados meio centímetro, hesitante. Em seguida, firmou o maxilar e engoliu a saliva de forma audível, forçando uma expressão de repreensão.
— Para onde vai tão apressada? — Indagou, teatralmente rígido como de praxe na frente da turma. Quando a tensão dos alunos não diminuiu, acrescentou: — A aula já vai começar.
Engoli a seco, ajeitando-me no meu lugar como se recebesse a repreensão com constrangimento. Ouvi a turma rir, o que aumentou a pressão no meu coração. Detestava ser o centro das atenções.
— Preciso ir ao banheiro, professor — falei, a voz trêmula para a atuação.
Dante balançou a cabeça atuando aborrecimento.
— Seja breve. Darei matéria de prova.
Assentindo como uma boa aluna faria, desviei dele e andei a passos largos pelo corredor.
Aplausos explodiram quando o professor tirou a atenção de mim e entrou a sala, os alunos cantarolando os parabéns com animosidade.
O banheiro estava vazio. Todos os outros alunos estavam em aula ou na festa, deixando-me livre para forçar vômito o quanto quisesse. Havia demorado mais do que o planejado para chegar até ali, o que talvez fosse r**m caso a trufa estivesse realmente batizada, mas teria que dar tempo.
Fechada numa cabine, iniciei meu triste trabalho.
O que Dante pensou ao me ver tão frustrada? Deduziu que havia sido culpa dele? Fugir da comemoração na frente do aniversariante não gerava boa impressão, ainda mais quando o aniversariante em questão tinha declarado interesse por uma aluna.
Fraca por colocar para fora o conteúdo do meu café da manhã, levantei-me. O movimento causou vertigem e precisei me segurar nas paredes da cabine para não cair.
Nunca tinha usado nenhum entorpecente. Se aqueles sintomas faziam parte do uso, não tinha como saber. Ainda tinha também um pouco de esperança de que aquilo tudo fosse inútil e Vitor não tivesse feito bobagem.
Tive dificuldade em abrir a cabine e achar minha escova de dentes. Costumava levar um kit de higiene para todos os lugares caso eu não conseguisse voltar para comer em casa.
Minha imagem no espelho não passava de um borrão enquanto higienizava a boca. Caso movesse os olhos muito rapidamente, quase podia enxergar duas de mim.
— Isso não é fraqueza — sussurrei, meus pensamentos tão gelatinosos que não podia compreender se não saíssem pelos meus lábios. — Eu preciso ir embora. Ele realmente fez...
Fechei os olhos com força, tentando a qualquer custo recuperar minha visão.
— Não. — Choraminguei. Minha distorção no espelho girava ao redor de várias Dianas. — Não, por favor...
Ele não podia ter feito aquilo comigo.
Trêmula, guardei meu kit de higiene e fechei o zíper até onde deu.
Precisava sair dali antes que alguém me visse.
Passei pela porta do banheiro com movimentos desajeitados, caminhando a tropeços pelos corredores até o estacionamento. O que restava da minha consciência exigia qualquer transporte que não fosse ônibus.
Demorei muito para atravessar pelo barulho da festa. Movia meus dedos pelo celular o tempo inteiro, tentando com afinco me recordar do meu endereço.
— Ele vai me pagar — balbuciei, a pronúncia confusa até para mim.
Tive a impressão de que alguém me segurou pelos ombros, mas minha pele parecia pertencer a outra pessoa. Era como se eu fosse uma espectadora do meu próprio desespero.
— Quem vai pagar? — Uma voz questionou. Achei ter ouvido uma risada. — Você não parece muito bem. Que tipo de olhar é esse?
Lembrei-me de quem era a voz, a memória tão fraca que ameaçava ir embora a todo instante.
— Vitor, o que você fez...
— Fala mais alto — interrompeu-me. Ele estava realmente rindo. — Onde está toda aquela sua coragem?
Senti uma fisgada na cabeça.
O que eu ia dizer mesmo?
— Preciso pedir Uber — falei, lembrando-me pouco com quem estava falando. — Pode me ajudar?
Minhas palavras saíram emboladas. A pessoa na minha frente pareceu achar divertido.
— Não precisa de Uber, eu te levo para casa.
Assenti, porque tudo o que eu queria era ir para casa. Disso conseguia me lembrar claramente. Não tinha nada mais importante do que chegar lá.
— Sabe onde fica?
Senti as mãos mais fortes em meus ombros.
— Claro que sei. Esqueceu? A gente sempre vai para lá. Você se sente muito confortável me deixando abrir os botões da sua camisa.
Alguma coisa estava muito errada. Eu não me sentia bem em deixar que ele abrisse os botões da minha camisa, não importava quem ele fosse.
Tive a percepção letárgica que nem sequer gostava dele.
Segurei as mãos dele, expulsando-as dos meus ombros. O movimento me desequilibrou, e eu lutei muito para manter meus pés no lugar. Parecia que tinha areia movediça me engolindo.
— Não vou com você — falei, enjoada.
Ele se aproximou novamente.
— O quê?
Para me certificar de que conseguiria pronunciar tudo, falei bem lentamente: — Eu. Não. Vou. Com. Você.
Senti a respiração dele na minha orelha.
— Acho seu desprezo atraente, sabia? Quanto mais você me afasta, mais atraído fico. Quer que eu te mostre como eu fico?
Ele tinha pegado minha mão. Eu conseguia ver a calça dele, era jeans azul-claro, e ele estava me levando até lá. Dois, três, quatro botões surgiram no meu campo de visão. Vi minha mão próxima do zíper, guiada pelas mãos firmes dele.
Minha visão turvou. Ele ia colocar minha mão lá.
— Não...
Uma terceira mão tomou minha visão. Achei que fosse mais uma clonagem da minha vista duplicada, mas o dono da mão tinha um relógio que eu lembrava ter visto antes.
Ele segurou minha mão com suavidade, levando-a para longe do zíper e do outro rapaz.
— O que você pensa que está fazendo? — O homem sibilou. Ele parecia muito bravo. Olhei na direção dele, procurando reconhecê-lo. Ele era borrão de cabelos escuros e olhos claros, mas não estava olhando para mim. — Você deu alguma coisa para ela?
Ouvi o rapaz se afastando.
— Não, professor. Eu a encontrei assim. Tentei ajudar, mas ela queria colocar a mão em mim....
O homem que me segurava soltou um som que parecia um rosnado.
— Não minta para mim, garoto.
Deslizei a mão até o pulso do homem. Queria tocar o relógio.
— Isso deve ser caro — observei, entorpecida.
Senti a mão do homem nas minhas costas. Percebi que estava me firmando no chão, mantendo-me de pé.
— Olha o estado dela, professor. Sabe que não é incomum essas desmioladas do campus aceitarem balinhas.
Os braços dele eram tão confortáveis que queria dormir neles.
— Cuidarei de você depois — disse o homem. Ele não pareceu muito contente em deixar o assunto de lado; tinha a postura de quem assumia prioridades. — Uma ordem de restrição é o mínimo. Quero vê-lo expulso.
O rapaz estalou a língua.
— Não é para tanto. Eu nem fiz nada com ela.
Ignorando, o homem me enrolou nos próprios braços e ergueu, tirando-me do chão. O inebriante cheiro do perfume amadeirado e lavanda alcançou minhas narinas, tranquilizando-me instantaneamente.
Ele me segurava firmemente com tanta facilidade que as passadas quase não me tiravam do lugar. Temendo que em algum momento perdesse o equilíbrio, envolvi meus braços ao redor do pescoço dele, aconchegando-me.
Minha cabeça doía tanto que poderia explodir a qualquer momento.
— Acho que estou morrendo — sussurrei.
A respiração profunda que ele soltou esvoaçou os fios de cabelo que descansavam na frente dos meus olhos. Eu o vi, finalmente o reconhecendo.
Meu coração derreteu como manteiga.
— Vai ficar tudo bem. Você só precisa dormir bastante.
Ele era tão lindo. A beleza imaculada pelo tempo, os traços firmes naquele rosto bem-feito. Os cílios dele, escuros e longos, curvavam-se como pétalas. Olhando mais de perto, a boca carnuda assumia tons rosados. Ele era uma reunião de leveza e escuridão, absolutamente belo.
— Dante — chamei-o.
Ele me deslizou para dentro do que notei ser um carro, depositando-me no banco do passageiro. Movimentos rápidos bastaram para que colocasse o cinto de segurança ao redor do meu corpo e inclinasse a poltrona para que eu dormisse.
O rosto dele estava bem próximo quando ele respondeu: — Sim?
Entreabri os lábios, anestesiada.
— Eu te desejo.
Ele piscou os olhos para mim, o choque perceptível.
— O que disse?
Estendi a mão, tocando-lhe a bochecha.
— Eu te desejo — repeti, sonolenta.
Ele fechou os olhos, contendo-se. Havia algo ali, algo profundo e antigo. Um sentimento, uma angústia...
Levantando-se, Dante segurou a porta do carro e me encarou.
Ele parecia machucado.
— Você nunca me diria isso se estivesse sóbria — disse, a voz cansada.
E então fechou a porta.