O Teste

1934 Words
Quando os olhos do professor voltaram aos meus, não havia nada lá que eu pudesse compreender; os olhos dele estavam opacos, os sentimentos inalcançáveis. — Acredito que isso seja seu — disse Dante. Ele depositou o teste de gravidez na mão que até então eu não notei ter estendido na vã tentativa de pegar o objeto antes dele. Eu não podia dizer a ele que o teste de gravidez era da Caroline. Mesmo que ele não a conhecesse, ela tinha me confidenciado aquilo e eu trairia a confiança dela se contasse a alguém. Ainda assim, ter Dante pensando que aquilo pertencia a mim era estranhamente incômodo. Ao me dar conta de que estava paralisada, pisquei repetidas vezes até voltar a encará-lo. Meu coração disparava, aflito em meu peito, e eu só desejava que aquela situação passasse logo. — É, hum... — Meus olhos rodopiaram pela biblioteca, a ansiedade me comendo viva. Olhei para baixo, deparando-me com meu pulso ainda pesado pelo casaco. Fiz a única coisa que me restava e estendi a sacola para ele. Com a voz estremecida pela tensão, disse: — Seu casaco, professor. Idiota, pensei. Lide com isso, olhe para ele e saia por cima como sempre faz. Mas eu não conseguiria fingir. A presença dele era tão imponente que me sentia vulnerável. Ele não era como os outros. Tudo sobre ele era forte e poderoso a ponto da minha língua afiada parecer uma lixa dentro da minha boca. A mão dele entrou no meu campo de visão. Ele fechou os dedos ao redor da alça da bolsa, os ponteiros do relógio que usava fazendo barulho no silêncio em que estávamos. Ao invés de retornar a mão para si, entretanto, o professor deslizou os dedos pelo meu pulso e tomou suavemente minha mão na dele. — Diana — disse ele, a voz não passando de um sussurro. Meu coração disparou dolorosamente em meu peito, a expectativa do julgamento que receberia machucando antecipadamente. — Você é a aluna mais dedicada do nosso departamento. Sei exatamente como é ser assim, sem tempo algum entre os estudos para sequer dormir. Eu já estive na sua pele. Ergui os olhos para ele, surpresa pelas palavras e curiosa por não saber aonde ele queria chegar com aquilo. Dante acompanhou meus olhos, as órbitas azuis fixas nas minhas órbitas castanhas. Os dedos dele passaram a deslizar suavemente entre os meus, formando uma espécie de carícia. — Você não tem tempo para namorar — concluiu Dante, um sorriso pequeno surgindo em seus lábios. Plenitude iluminou o fundo dos olhos dele quando acrescentou: — E é por isso que eu acredito que esse teste não pertence a você. A suposição dele foi tão incisiva que machucou. Eu ser tão óbvia não era meu objetivo de vida, muito pelo contrário; tornava-me extremamente desinteressante até para o meu próprio gosto. Irritada pela forma como ele tirou as próprias conclusões e acertou, inclinei-me mais próxima do rosto dele, nossos hálitos se misturando conforme eu falava: — Cuidado, professor. Com todo esse interesse na minha vida amorosa, posso acabar deduzindo que o senhor se sente atraído por mim. O sorriso dele cresceu. Os olhos se tornaram vírgulas, a expressão jovial e tentadora naquele rosto lindamente escupido. Se meu intuito era ofendê-lo, errei em cheio com aquelas palavras. Senti meu rosto esquentar, o constrangimento possuindo a atitude que eu suportava diante dele. Todas as minhas armas foram ao chão, meu escudo perfurado pela infeliz constatação de que eu estava certa. Aquele homem. Meu professor. O ser humano mais incrivelmente lindo que eu já vi na vida... Ele me desejava. — Você não pode — sussurrei, a voz cheia de pânico. Dante balançou a cabeça, a diversão repentinamente desaparecendo do rosto dele. — Sim, eu não posso — sussurrou de volta. A mão que segurava a minha deslizou para longe, a suavidade desaparecendo. — Você não faz ideia de como repeti isso na minha cabeça. Ainda assim, é só olhar para você. Todo esse tempo... — Todo esse tempo? — Repeti, minha voz vacilando. Aquilo não podia estar acontecendo. — Você é meu professor apenas nesse semestre, Dante. Isso não é tempo o suficiente para desenvolver um desejo tão leviano. Dante balançou a cabeça. A testa franziu um pouco, tornando óbvia a frustração dele. Quando ele falou, a voz saiu baixa e machucada: — Não chame o que sinto de leviano, Diana. Eu te observei, falei com você, gostei de tudo em você. Não faz apenas seis meses que nos conhecemos na cafeteria. Desde o início do ano, sou eu quem me sento... — Pare — interrompi-o. Minha garganta estava quente, a azia atacando com a raiva crescente. Eu não podia acreditar naquele homem. Ele era quatro anos mais velho e tinha vários diplomas a mais, o que certamente elevava o patamar dele, tornando-o absolutamente inalcançável. O fato de ser meu professor, embora fôssemos adultos, fazia daquela postura antiética e imoral. Ainda assim, quando olhava em meus olhos, tudo o que eu podia ver nele era sinceridade. Ele era cobiçado e poderia desejar facilmente alguma outra aluna, o relacionamento seria fácil e a mulher que tivesse tal oportunidade adoraria colocar em holofotes como era atraente. Eu não me rebaixaria a ponto de questionar o motivo pelo qual de todas as outras escolheu a mim, mas a pergunta estava ali, embaçando minha visão com lágrimas que eu não queria derramar. Ele era minha ruína. Poderia facilmente estragar tudo com a aproximação persistente. Minha vida era complicada o suficiente para o deixar entrar, sequer permitir meu corpo a responder ao dele. Não haveria pesadelo maior do que desejá-lo. Então, por quê? Por que meu coração estava tão disparado, as infelizes borboletas batendo as asas dolorosas no meu estômago? — Diana — chamou-me Dante, a voz rouca. Eu tinha finalmente tirado minhas costas da prateleira de livros e começado a caminhada a passos apressados para longe dele. Passei pela porta, pânico me levando a inúmeras lembranças da voz dele. Enquanto andava pelo campus, lembrei-me de quando comecei a ter companhia na cafeteria, sempre entretida demais com meus trabalhos para olhar o outro lado da mesa. No início do ano, o tutor da pesquisa me entregou o material de estudos. Era um processo seletivo árduo e fiquei extremamente estressada com a interminável lista de tarefas que surgiu. Passei a visitar com mais frequência a cafeteria na lateral da faculdade. Aquele tempo era precioso, dedicado ao dinheiro que entraria no final do mês pela minha colaboração naqueles estudos, e eu abdicaria do meu sono se conseguisse entrar na equipe da pesquisa. Demorei a gravar o nome da atendente, Vitória. Não prestava atenção o suficiente para saber a cor do cabelo dela ou para reparar na decoração que mais tarde descobri ser retrô. Escolhi a cafeteria depois de descobrir que somente veteranos vez ou outra a visitavam. Eu sempre escolhia aquela mesa ao lado da tomada que usavam para carregar o celular. Vozes diferentes me perguntavam se podiam me fazer companhia e eu respondia distraidamente todas as vezes, mas somente agora percebia uma constante. A voz do Dante era a mais frequente. A voz dele também era a única que perguntava como eu estava. Não faz apenas seis meses que nos conhecemos na cafeteria. Desde o início do ano, sou eu quem me sento... Levantei os olhos para o céu claro acima do gramado do campus, compreendendo o que Dante ia me contar. Era ele quem me fazia companhia durante aquele ano inteiro. ▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬ Atordoada por tudo o que tinha acontecido, não consegui me dedicar integralmente ao estágio. Atendi os animais com menos empolgação do que costumava, a fofura deles me distraindo parcialmente dos problemas. Queria lutar por uma aposentadoria antecipada. Considerava-me incapaz de viver com todos aqueles sentimentos, enquadrando-me perfeitamente como inválida. Eu não era a menina mais bonita do campus. Estava na categoria normal, arriscando pouco espaço a mais no ranking das bonitas. Meu coração, minha personalidade, quem eu era... Esses critérios foram tão acima da média para que Dante olhasse para mim? Era impossível considerá-lo fútil quando o modo como me olhou foi tão único. Não sabia o que sentia por ele. Tudo o que ele fazia, desde lecionar com paixão até me cobrir com um casaco, era encantador. Pensava que o odiava pela aparência que chamava tamanha atenção, mas estava cada vez mais difícil detestá-lo. Sentando-me numa das poltronas da preceptoria, observei minha mão direita machucada. O Hospital estava lotado de cães para vacinação e meus pensamentos não ajudavam em nada minha concentração. Tinha levado uma mordida de um pinscher meia hora antes e minha mão estava coberta por uma faixa e curativos. Feridas como aquela não eram incomuns aos estagiários, bastava um pouco menos de atenção — principalmente se tratando daqueles cachorrinhos de meio centímetro de puro ódio. — Distraída hoje, hein? — Vitor assobiou, sentando-se ao meu lado. — Sabe que não pode imobilizar um cachorro daquele jeito, você tem que pegar direto na lateral... — Eu sei como imobilizar um cachorro — cortei-o, ácida. Ainda não tinha perdoado Vitor pelo incidente do carro. Ele tinha sido indiscreto a ponto de comentar sobre o meu corpo, coisa que eu nunca tinha dado a liberdade de fazer. Faltar um dia bastou para que ele voltasse com a ideia errada de que eu tinha esquecido o que fez. — A gata tá com as unhas afiadas hoje? — Vitor quis saber, aproximando-se. — Não precisa ficar assim por causa daquela besteira. É normal amigos se desentenderem. Senti o perfume enjoativo dele próximo ao meu nariz. Vitor tinha aquele jeito invasivo de se aproximar, achando que o espaço entre mim e ele era liberado para me tocar como fazia ao flertar com qualquer outra mulher. — Pode ser normal entre amigos, Vitor — falei, levantando-me para manter a distância. — Só esqueceu de levar em consideração que não somos amigos. O embuste riu em resposta, preparando-se para falar alguma outra besteira. Felizmente, porém, a preceptora adentrou a sala com a costumeira pressa para guardar os materiais hospitalares e ir para casa. Ela me liberou, avisando-me que deveria renovar minha vacina antirrábica, e foi embora sem mais delongas. Enquanto eu arrumava meus próprios materiais, Vitor se aproximou novamente. Alheio ao que tínhamos acabado de conversar, disse: — Posso te levar para casa, se quiser. Era impossível entender como aquele homem decadente raciocinava. O que ele queria me convidando para uma carona? Eu já tinha deixado mais do que óbvio que não queria tê-lo por perto. Olhei para ele. O rapaz me encarava sério, cheio da expectativa de me ver deixando o assunto de lado e indo com ele. Com um longo suspiro, invoquei meu último resquício de simpatia para respondê-lo: — Não, obrigada. Tenho coisas importantes para resolver. Àquela altura, a detestadora de gatos deveria estar tão ansiosa para me ver quanto eu estava para vê-la. ▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬ O grito da Caroline foi tão alto que tive medo dos vizinhos chamarem a polícia. Duas horas antes, tínhamos pesquisado passo a passo de como fazer o teste. Insatisfeita com a pesquisa, minha colega de apê estudou meticulosamente tudo o que poderia dar errado, desde o falso positivo ao falso negativo. Inicialmente interpretei o cuidado e os estudos como preocupação, mas depois de um tempo percebi que ela estava enrolando e a joguei no banheiro com o teste nas mãos. O escândalo que ela fez dez minutos depois afirmou o que suspeitávamos: Caroline estava grávida. E eu queria muito saber onde estava o pai.
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