O último dia em Londres começou com batidas animadas na porta.
— Siena! Acorda! — Beatrice entrou sem esperar resposta. — Hoje é o dia do vestido, e o dia de Luca, estou tão apreensiva por ele.
Siena gemeu contra o travesseiro.
— Vai dar tudo certo Bea! Eu odeio você por me acordar.
— Você me ama. Levanta.
O café veio junto com risadas. Sentadas na cozinha, o céu cinza parecia distante. Pela primeira vez desde que chegaram, não havia tensão no ar.
Só ansiedade.
— Você acha que eu vou passar vergonha? — Siena perguntou.
— Sim. Mas eu tenho mais chances do que você
Siena arregalou os olhos.
Beatrice riu.
— Relaxa. Toda mulher passa vergonha na primeira vez. O segredo é fingir que não.
— Ótimo. Me sinto preparada.
————
A loja parecia um palácio.
Tecidos longos pendiam como cascatas. As vendedoras falavam baixo; o lugar exigia elegância.
O primeiro vestido que Siena provou era bonito.
O segundo era elegante.
O terceiro fez o quarto ficar em silêncio.
Beatrice cruzou os braços.
— Esse.
Siena virou devagar diante do espelho.
O vestido moldava o corpo sem exagero. Sofisticado. Um vermelho profundo. Forte.
Ela não parecia a mesma mulher que tinha entrado ali.
— Eu não posso usar isso…
— Pode — Beatrice respondeu, simples. — E vai.
— Está… demais.
— Não existe “demais” nesse mundo. Existe presença.
Siena mordeu o lábio.
— Vittorio vai surtar.
— Ótimo. Esse é o objetivo, fazer com que eles surtem.
As duas riram.
Beatrice escolheu um vestido igualmente poderoso. Diferente. Frio. Desenhava seu corpo de forma impecável.
Quando saíram da loja, Siena sentia que tinha comprado mais do que um vestido.
Tinha comprado coragem emprestada.
⸻
O salão à noite era esmagador.
Luz dourada.
Cristais.
Música suave demais para aquele tipo de gente.
A mão de Vittorio nas costas dela era a única coisa que mantinha o chão firme.
— Você está linda — ele murmurou.
Não era elogio social.
Era verdade.
Siena sentiu o rosto esquentar.
— Você também — respondeu baixo.
Beatrice e Luca caminhavam à frente. Luca estava diferente naquela noite. Mais rígido. Mais observado.
Hoje era a coroação dele. Deixaria oficialmente de ser um soldado para se tornar um m****o da máfia, já abençoado pelo padrinho, Vittorio.
As apresentações começaram.
Nomes longos.
Famílias antigas.
Sorrisos que não chegavam aos olhos.
Siena sorria quando precisava. Falava pouco. Observava tudo.
Era exaustivo.
Beatrice entrou primeiro.
Vestida de preto.
Cabeça erguida.
Olhar firme.
Siena sentiu orgulho antes mesmo de entender o que estava sentindo.
Luca veio logo atrás.
A postura dele não era mais a de um soldado.
Era a de um homem assumindo um trono invisível.
Um dos homens mais velhos falou. A voz grave enchia o espaço:
— Hoje não coroamos apenas poder. Coroamos lealdade.
Os homens do salão uivaram, como se fossem lobos.
Beatrice e Luca se ajoelharam.
Siena sentiu um arrepio.
Aquilo não era encenação.
Era vínculo.
Era promessa.
Quando chamaram Vittorio e Siena à frente, o coração dela acelerou.
— Vocês testemunham essa união — disse o homem — e respondem por ela.
Vittorio respondeu primeiro.
— Testemunho.
A palavra saiu sólida.
Siena engoliu seco.
Todos os olhos nela.
— Testemunho.
A voz tremeu no início… mas terminou firme.
A coroação continuo por mais pouco tempo, agora Luca tinha seu proprio território, e tinha o melhor aliado que poderia ter, Vittorio, que era como um irmão.
Coroação finalizada.
— Eu vou ao banheiro — sussurrou para Beatrice.
— Quer que eu vá?
— Não… eu já volto.
O silêncio do corredor foi um alívio.
No banheiro, Siena apoiou as mãos na pia.
Respira.
Espelho.
Controle.
Quando levantou o olhar, havia outra mulher ali.
Alta.
Bonita.
Confiante demais.
— Você é a esposa dele — a mulher disse, como quem comenta o clima. — Siena, né?
Siena engoliu seco.
— Sou.
— Eu imaginava. — sorriso fino — Sou Clara.
Siena apertou a mão dela automaticamente.
— Prazer…
Clara inclinou a cabeça.
— Eu e Vittorio fomos… próximos, diria que até demais.
O coração de Siena falhou uma batida.
— Ah… — a voz saiu pequena.
Clara se aproximou do espelho, retocando o batom.
— Nada sério. Ele nunca foi homem de ficar. Mas achei curioso ele casar.
Silêncio.
Siena tentou respirar.
Tentou falar.
— Ele… — gaguejou — ele não é… mais assim…
A frase morreu antes de nascer.
Clara riu baixo.
— Você ainda acredita nisso?
Siena sentiu o rosto esquentar.
— Eu… conheço meu marido.
Mas a insegurança tremia na voz.
Clara virou devagar.
— Conhece? — o sorriso era quase piedoso. — Homens como ele não pertencem a ninguém. Você é só a fase respeitável, uma obrigação que ele precisa cumprir.
A palavra cortou.
Siena deu um passo para trás, mas se obrigou a sustentar o olhar.
— Mesmo assim… ele me escolheu.
Saiu torto.
Frágil.
Mas saiu.
Clara observou por um segundo longo demais.
— Aproveita enquanto ainda é novidade pra ele — murmurou. — Ele sempre volta para o que é confortável.
E saiu.
O salto ecoando no mármore parecia zombar dela.
Siena ficou parada.
O vestido pesado.
O peito mais ainda.
Ela voltou para o salão com o sorriso treinado.
Mas por dentro…
algo tinha se quebrado em silêncio.
Beatrice levantou o olhar.
E sorriu para a irmã.
Foi rápido. Pequeno. Mas dizia tudo:
Eu consegui.
Siena sorriu de volta.
Eu sei.
Vittorio percebeu no instante em que ela se aproximou.
— O que foi?
— Nada.
E ele soube.
Mas havia olhos demais ali.
Siena cumpriu o papel perfeito pelo resto da noite.
Sorriso.
Educação.
Distância.
Ela não buscou a mão dele.
Não encostou.
E Vittorio sentiu cada centímetro dessa ausência.
Sem entender.
Ainda.
E aquilo estava consumindo ele.