Capítulo 4

1948 Words
Já era difícil fingir que não a odeio, aquele jantar ficou ainda pior ao saber que o Charlie não estaria conosco. Passar a noite toda aguentando os sorrisinhos simpáticos da Sophia seria insuportável, pelo menos eu tinha uma boa lasanha e um vinho caro para me amenizar o meu sofrimento. - Você gostou? - ela perguntou quebrando o silêncio enquanto me servia mais um pedaço de lasanha. - Pelo visto tudo o que você faz é gostoso. - murmurei em meu melhor tom malicioso vendo-a engasgar com o vinho, ela até tentou limpar o vestido mas já era tarde. - Eu te ajudo. - me inclinei sobre a mesa passando meu guardanapo lentamente no canto dos seus lábios mantendo meus olhos fixos nos seus. Eu nunca havia flertado na vida, na verdade, o simples ato de conversar com alguém mais de três frases já era algo raro. Confirmei a minha última suspeita naquele momento, não foi fácil me aproximar da Sophia porque ela era ingênua e sim porque era lésbica. A deduzir, uma policial que é mãe solteira definitivamente não tem tempo para encontros amorosos, o que a torna um alvo fácil, qualquer sedução barata a convence de que é especial. - Olha... - ela balançou a cabeça negativamente se afastando de mim, me sentei corretamente esperando que ela falasse. - Eu não sei o que está acontecendo aqui. - assenti levemente com a cabeça olhando fixamente em seus olhos mesmo que ela preferisse encarar qualquer canto da cozinha menos a mim. - Eu fiz coisas horríveis então o esperado era que me odiasse e sequer topasse esse jantar mas tenho quase certeza de que está flertando comigo. - ela apontou para mim acusatoriamente, franzi o cenho fazendo minha melhor cara de incrédula. - Desculpa... Eu não saio com pessoas há muito tempo, tudo o que faço é seguir conselhos de um garotinho de dez anos que nem entende nada sobre a vida e... - coloquei lentamente minha mão sobre a sua que repousava sobre a mesa desejando que ela parasse de divagar nervosamente e me olhasse nos olhos. - Relaxa um pouco. - falei dando o meu melhor sorriso na tentativa de tranquilizá-la. - Quer saber de uma coisa? - ela assentiu que sim com a cabeça. - Sobe para seu quarto e coloca um pijama, eu levarei esse vinho para a sala e colocarei um filme para a gente assistir. - Mas... - Eu entendo que tudo possa parecer confuso Sophia, mas eu realmente só quero deixar as coisas no passado e passar um tempo com você. - ela sorriu aliviada assentindo lentamente em compreensão e passando por mim saiu da cozinha para se trocar. Rapidamente corri até a sala com a garrafa de vinho a deixando na mesinha de centro e ligando sua televisão, eu tinha poucos segundos até que ela retornasse precisava ser rápida. Fui até a porta no canto da sala, assim que a abri constatei que era seu escritório, ligando a laterna do meu celular passei a abrir cada gaveta em busca dos documentos de adoção ou qualquer coisa suspeita, estranhei ao notar que a última gaveta da escrivaninha estava trancada, busquei por uma chave sobre a mesa mas não havia nada, me desesperei ao ouvir barulhos de passos no andar de cima, me adiantei em fechar as gavetas novamente e organizar os papéis dispostos ali em cima mas parei ao notar algo curioso. Havia um envelope aberto com o nome do meu filho, apenas li as primeiras palavras já tendo a certeza de que havia algo errado. "...os exames foram inconclusivos, sendo assim, solicitamos novos..." - Alice? - soltei o papel desligando a lanterna, rapidamente sai do seu escritório fechando a porta e correndo para a cozinha, só então sai de lá caminhando devagar. - Você está ai. - sorri para ela vendo-a descer os últimos degraus da escada. - Se sente mais confortável? - perguntei obrigando meu coração a não bater tão acelerado. Não me sentia tão eufórica em ser flagrada desde a vez em que algumas detentas estavam produzindo vinho no vaso sanitário da minha cela e me obrigaram a vigiar para que nenhum carcereiro visse. - Sim. - ela respondeu se sentando ao meu lado no sofá, havia muito espaço mas estranhamente ela sentou tão perto que estava quase se aconchegando em meu peito. - O que vamos assistir? - Por que você não escolhe? - murmurei lhe entregando o controle remoto. - Afinal, é você quem vai assistir pois eu prefiro ficar aqui apreciando a sua beleza. - passei meu braço em torno de seus ombros suavemente vendo-a sorrir. - Quem diria que um dia estaríamos no mesmo cômodo tanto tempo depois. - ela falou baixinho rindo, arqueei a minha sobrancelha tentando engolir meu rancor. - Nunca poderei dizer a você o quanto eu sinto muito... - ela tocou a minha coxa desviando seus olhos da televisão para me olhar, mesmo que ela parecesse sincera eu não me importava. - Agora que tenho um filho penso muito mais sobre isso, se alguém fizesse o que eu fiz... - Se alguém roubasse seu primeiro beijo e no dia seguinte agisse como se ele nem existisse? - questionei olhando nos seus olhos, ela assentiu com a cabeça abaixando seus olhos. - Se alguém derramasse sua comida todos os dias o deixando com fome? - ela abriu a boca para dizer algo porém não permiti. - Se alguém lhe mandasse uma carta dizendo que o ama mas na verdade tudo isso era uma piada só para humilhá-lo? - ela ergueu seus olhos me encarando novamente mas dessa vez havia mais do que vergonha por seus erros. Ficar perto de quem me fez m*l não era difícil, eu vivi em rodeada de pessoas assim por toda a minha vida e tirei o melhor disso, mas com a Sophia parecia extremamente difícil, não sei se é porque eu esperava que ela fosse alguém diferente. Era a única pessoa que eu havia depositado boas expectativas, e isso só me decepcionou. - Eu gostava de você de verdade, mas quando não acreditou nisso e achou que eu estava zombando de você eu fiquei quieta. - abri a boca incrédula, tentei pensar em algo para dizer mas não consegui, isso não melhorava as coisas em nada. - Eu sinto muito por tudo o que fiz. - Está tarde, eu preciso ir. - murmurei me desvencilhando dela, me levantando do sofá ajeitei minha roupa para ir embora. Seria melhor se ela não tivesse tocado naquele assunto, seria tão mais fácil se meu filho tivesse sido adotado por uma desconhecida. Apanhando meu casaco o vesti, meu coração dizia para ir embora mas a minha mente me lembrava que eu precisava manter a pose e descobrir o que significa aquele envelope no escritório dela, eu não podia deixar meus sentimentos estragar as coisas tão facilmente. - Espera Alice... - olhei para trás vendo-a se aproximar com algo nas mãos. - O meu filho adora bolinhos de chocolate, então hoje quando falei de você ele achou uma boa idéia lhe entregar um. - ela falou de mim para o Charlie? E ele gostava da mesma coisa que eu? Sorri o pegando de sua mão como se fosse o bem mais precioso do mundo, e era, olhei para a Sophia vendo-a sorrir timidamente, me inclinando lentamente deixei um beijo no canto dos seus lábios. - Obrigada. - pisquei para ela antes de abrir a porta e sair de sua casa. O beijo não era para pegar tão perto de sua boca mas acho que devido ao excesso de vinho eu calculei m*l as coisas. Em nem me importei em andar por mais de meia hora até chegar a casa da minha irmã, estava extasiada por saber que o Charlie sabia de mim, qualquer pequena coisa já fazia o meu coração transbordar. Depois de sofrer tanto eu percebi que podia enfrentar qualquer coisa desde que eu pudesse ter o meu filho de volta, mas para isso acontecer eu precisava não me deixar levar pelas emoções passadas e me tornar amiga da Sophia, ou seja lá o que ela quisesse. - Alison, eu cheguei. - falei abrindo a porta. - procurei por algum sinal de vida da minha irmã na casa mas não havia nenhum. Encontrei na mesinha de centro uma caixa e um bilhete. "Precisei viajar a trabalho e estou levando a Hannah. Lhe deixei muita comida e um presentinho." Revirei os olhos amassando o papel, ela não enganava a ninguém, era notável que estava mantendo sua filha longe de mim por achar que eu era perigosa. Isso me lembrava que eu precisava encontrar um emprego rapidamente para conseguir ter uma casa e poder morar em paz com meu filho. Abri o embrulho com cuidado notando que dentro havia um celular, o observei por um tempo sem ter ideia de como usar aquilo, haviam celulares escondidos na cadeia mas para chegar perto de um era necessário fazer alguns certos tipos de trabalhos manuais que eu não tinha estômago para fazer, em partes por achar que aquilo beirava a prostituição e também porque não chego nem perto de ser lésbica. Sentando-me no sofá removi meus sapatos e passei a ler o manual de instruções me arriscando a testar algumas coisas, já era início da madrugada quando finalmente consegui configurar o celular e criar conta em algumas redes sociais. - Sophia Hastings... - murmurei procurando pela ruiva, enviei uma solicitação e bloqueei o celular o levando comigo até o meu quarto no segundo andar. Eu queria mandar uma mensagem mas acho que isso seria apressado demais, eu m*l havia saído da casa dela, e também, se ela acabasse querendo mais que uma amiga eu entraria numa fria por não saber como proceder, eu tenho quase certeza de que com mulheres é muito diferente do que é com homens. Talvez eu pudesse recuperar meu filho antes que as coisas evoluam muito. Retirei minhas roupas ansiosa para tomar um banho de banheira, precisava relaxar pois amanhã procuraria um emprego, antes que eu pudesse chegar ao banheiro meu celular tocou sobre a cama, o pegando notando que havia duas mensagens. "Sophia Hastings: Já estava me perguntando que tipo de pessoa era você que não tinha instagram." "Sophia Hastings: O que está fazendo?" Então ela me procurou nas redes sociais, interessante, arqueei a sobrancelha vendo que eu nem precisava me esforçar muito em manter a Sophia por perto pois ela já fazia todo o trabalho. Olhei para o meu corpo nu tendo a certeza de que não era uma boa idéia dizer o que eu estava fazendo, mas eu poderia tentar flertar, fiz isso durante a noite toda e o resultado era sempre uma Sophia envergonhada engasgando com o vinho. "Alice: Você não quer saber o que estou fazendo... Rsrs." Será que ela vai entender que foi um flerte? As pessoas digitam assim? Por que ela não responde logo? Suspirei impaciente seguindo até o banheiro com meus olhos fixos na tela do celular. "Sophia Hastings: Não sei por que... Mas agora estou mais curiosa." Deixei um sorriso escapar ao ler sua mensagem, mas logo me dei conta da besteira que estava fazendo. - Não sorria para as mensagens dela! - me repreendi em voz alta balançando a cabeça. "Sophia Hastings: Sinto que arruinei o jantar de hoje, será que eu posso te compensar?" Li a sua mensagem enquanto me sentava na banheira cheia de água e sais de banho, não me parecia seguro sair com ela novamente a sós, talvez fosse melhor evitar isso. "Sophia Hastings: Existe um lugar que vende bolinhos deliciosos... Topa?" Deixei um sorriso escapar e sem nem perceber já estava digitando que aceitava.
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