Passando as mãos pelo meu corpo para ajustar a roupa parei em frente ao meu crítico profissional que colocando a mão no queixo semicerrou os olhos como se estivesse me analisando minuciosamente.
- Você está linda, mãe. - ele falou pela terceira vez a mesma coisa. - O que tinha de errado com as outras duas blusas?
- Não sei... - murmurei nervosa virando-me para o espelho novamente, mordi o lábio inferior incerta da minha escolha. - Eu não pareço sem graça?
- Alice não vai te achar sem graça, vai te achar linda. - arregalei os olhos encarando o pequeno ser sentado na minha cama. - Sei que vai se encontrar com ela. - abri a boca para dizer algo porém me contive, qualquer coisa que eu dissesse poderia me comprometer.
- Você não deveria estar fazendo sua lição? - perguntei vendo-o deitar na cama ignorando minhas palavras. - Sua babá chegará logo.
- Você não deveria estar me contando como foi o seu encontro? - sentei na cama dando um tapinha de leve no traseiro daquele ser audacioso. - Anda mamãe, me conta.
- Nós jantamos juntas, foi só isso. - respondi vendo aqueles olhinhos castanhos brilhando em expectativa. - Ela me fez rir com umas piadas estranhas e foi muito gentil comigo. - ele se sentou na cama animado me agarrando pelo pescoço de modo desajeitado.
- Você foi legal com ela? - sorri sem graça não tendo certeza se eu realmente havia sido. - Deu o bolinho? - assenti que sim com a cabeça enquanto o pegava pela cintura para sentar em meu colo. - Vou te ensinar uma coisa... - arqueei minha sobrancelha ao ouvir aquilo.
- Que coisa é essa que você vai me ensinar Theodoro? - murmurei fazendo minha melhor cara de séria mas eu deveria saber que há anos já não funcionava mais.
- Hoje no encontro você tem que segurar a mão dela. - ele falou baixinho como se me confidenciasse um segredo. - Não de qualquer jeito, tem que fazer carinho na mão dela e depois segurar, vai deixar ela feliz. - ele tocou a minha mão com a pontinha de seus dedos carinhosamente me mostrando como eu deveria fazer.
- Pode deixar meu príncipe, vou tentar fazer isso. - deixei um beijo em sua testa antes de tirá-lo do meu colo para ir atender a campainha.
Descendo as escadas correndo alcancei a porta rapidamente a abrindo.
- Theo, a babá chegou. - gritei logo após dar passagem para ela entrar, observei que logo atrás dela vinha a Alice se aproximando devagar. - Filhote, eu estou saindo, eu te amo. - gritei novamente saindo pela porta mas parei ao ouvir a resposta do meu filho.
- Eu te amo mamãe, não esquece de segurar a mão da Alice! - sorri sem graça fechando a porta atrás de mim, ela deixou um sorriso escapar estendendo sua mão para mim.
- Então você realmente segue conselhos de uma criança de dez anos? - ela questionou assim que eu coloquei minha mão sobre a sua, me arrependi de não ter secado ela antes, acabei ensopando a mão da Alice com meu suor de nervosismo.
Ela não pareceu incomodada, apenas me segurou um pouco mais forte para que nossas mãos não escorregassem.
- Queria muito dizer que não, mas acho que depois dessa ficou meio óbvio. - murmurei envergonhada enquanto a guiava pela rua.
- Como está o fã de dinossauros? - a olhei de soslaio notando pela primeira vez como ela parecia ainda mais linda de cabelos soltos.
Eram longos e castanhos cabelos que se ondulavam de modo tão gracioso que eu poderia lhe confundir com alguma princesa de conto de fadas, era incrivel como seus cabelos combinavam com a cor de seus olhos.
- Ele está bem, parece que ele é quem cuida de mim. - respondi deixando meus olhos recairem sobre nossas mãos juntas mas estranhamente ela desvencilhou sua mão a colocando no bolso da jaqueta. - Como você disse que esteve fora da cidade, espero que não tenha conhecido esse pequeno paraíso ainda. - coloquei minha mão em suas costas a guiando para dentro do estabelecimento.
Nos sentamos numa mesa mais afastada para ter privacidade, respirei fundo tentando não ficar tão nervosa diante da sua presença, mas parecia algo tão difícil.
- Você está bem? - perguntei começando a me incomodar com seu silêncio, ela apenas balançou a cabeça positivamente mantendo seus olhos fixos no cardápio.
Assim que o garçom chegou pedi de tudo um pouco, queria muito que ela experimentasse os melhores bolinhos do mundo, mas ela parecia distraída com alguma coisa, logo após fazer o pedido repassei mentalmente todas as minhas atitudes tentando descobrir se eu havia feito algo errado naquele meio tempo.
Talvez ensopar sua mão com meu suor a tenh incomodado.
- Ei... - tentei chamar sua atenção mas foi em vão. - Alice... - ela me encarou finalmente. - Você não me parece bem, eu fiz algo que te chateou?
- Me desculpe... Eu estou bem, só estou com uns problemas. - ela me deu um sorriso forçado como se fosse me convencer de que não era nada demais.
Fiquei na dúvida se insistia no assunto ou se ficava quieta, eu era uma completa desconhecida e com um histórico nem um pouco confiável, ela tinha muitas razões para não querer conversar comigo.
Nosso pedido não demorou a chegar o que fez a Alice sorrir como criança, vários bolinhos foram colocados na mesa e dois milkshakes de chocolate.
- Acho que eu nunca tive isso. - Alice falou tão baixinho que eu não sabia se deveria ter escutado aquilo.
- Bolinhos de vários sabores? - perguntei lhe entregando o que eu considerava melhor.
- Um encontro. - ela pronunciou erguendo o rosto finalmente me olhando nos olhos enquanto se inclinava e mordia o bolinho em minha mão ao invés de pegá-lo. - Adorei esse! - Alice murmurou de boca cheia o pegando de minha mão para terminar de comer.
Eu não sabia se perguntava primeiro o por que ela nunca teve um encontro ou se ela considerava que o que estávamos fazendo era um encontro.
- Se você demorar de comer eu vou acabar comendo tudo sozinha. - ela murmurou de boca cheia enquanto arrastava os bolinhos para perto de si como uma criança gulosa.
- Por que nunca teve um encontro? - perguntei enquanto pegava o guardanapo e me inclinava para limpar gentilmente a sua bochecha suja. - Você é do tipo que não namora?
- Meu pai era bastante agressivo e controlador, ter um namorado seria como afrontá-lo e dar mais motivos para apanhar. - disfarcei o meu choque ao ouvir aquilo, ela continuou a comer com naturalidade como se não tivesse dito nada demais.
Eu sempre desconfiei que ela tivesse uma vida difícil afinal a Alice as vezes aparecia no colégio com uns hematomas mas nunca passaram de suspeitas pois ela sempre matava aula por dias e voltava como se nada tivesse acontecido, ter a certeza disso só me deixava pior, ela teve uma vida horrível e eu piorei ainda mais as coisas.
- Sinto muito por isso ter acontecido com você... - atravessei minha mão sobre a mesa mas hesitei em tocar a sua recuando no mesmo momento, ela já tinha uma vida terrivel em partes por minha causa, ser consolada por mim deveria ser a última coisa que ela desejava. - Mas e agora, você...
- Estou livre do meu pai, mas andei ocupada com... - ela olhou para cima refletindo um pouco. - as coisas da vida, sabe!? - assenti com a cabeça que sim mesmo que não tivesse entendido. - Por isso nunca tive um encontro.
- E isso é um encontro? - me arrependi de perguntar ao vê-la engasgar violentamente, lhe entreguei o copo de milkshake rapidamente para que ela o bebesse. - Desculpe, é que eu não sou boa de decifrar sinais, não quero me iludir achando que isso é algo que na verdade é outra coisa pois...
- Isso é o que você quiser que seja. - Alice interrompeu minhas divagações e sorriu me deixando mais calma, era incrivel o jeito como ela parecia me conhecer e sabia exatamente o que me dizer para que as coisas melhorassem.
- Então é um encontro. - murmurei sorrindo mas isso pareceu deixá-la apavorada, mesmo tentando disfarçar ela parecia super incomodada o que só me deixava mais confusa ainda. - Você me parece estranha, quer me contar o que houve?
Ela queria que fosse um encontro e agora que eu concordei parece ter entrado em colapso. Ela estava esperando eu negar?
- Eu e minha irmã estamos nos desentendendo... - ela falou num suspiro debruçando-se sobre a mesa, afastei os bolinhos dela um pouco esperando que continuasse. - Eu entendo que ela seja super protetora mas não precisa me afastar da vida dela para fazer isso... - ela começou a falar baixinho demais resmungando, me debrucei sobre a mesa para ouvi-la melhor. - Eu só queria fazer parte da família e que ela me apoiasse mas na verdade ela fugiu. - eu não havia entendido muita coisa mas lhe dei um sorriso compreensivo.
- Eu não sabia que você tinha uma irmã... - comecei a falar atraindo sua atenção. - E não entendo como funciona a relação de vocês mas aposto que ela te ama muito e que talvez vocês só precisem conversar um pouco para se ajustarem. - ela apoiou seu queixo em sua mão como se refletisse em minhas palavras.
- Deve ser. - ela resmungou fazendo um biquinho chateado que a deixava ainda mais adorável.
- Sinto muito que isso esteja te aborrecendo, mas... - levei minha mão até a sua lentamente envolvendo seus dedos nos meus, dei-lhe chance para recuar mas ao invés de fazer isso ela apenas ficou encarando nossas mãos unidas. - Eu estou aqui para o que você precisar. - Alice permaneceu com seus olhos fixos em nossas mãos entrelaçadas por um tempo mas quando finalmente me olhou ela sorriu fazendo seus olhos quase sumirem de um jeitinho muito fofo.
Foi algo curioso, era como se borboletas passeassem por meu estômago quando ela sorria.
Quando o Theo ficava chateado ele resmungava tão baixo que eu quase nunca ouvia, mas mostrá-lo que eu estava ali com ele o ajudava, pelo visto a Alice funcionava do mesmo modo.
De repente, era como se a nuvem n***a que pairava sobre ela tivesse ido embora, tive essa mesma sensação na noite passada durante o jantar.
- Você nem comeu nada ainda Sophia. - ela murmurou soltando minha mão passando a se sentar na cadeira ao meu lado, estranhamente ela parecia mais leve e sorridente. - Come esse. - Alice estendeu o bolinho em minha frente mas quando fui pegá-lo ela já estava levando-o a minha boca, dei uma mordida pequena a olhando de soslaio. - Incrível não é!? - assenti que sim com a cabeça enquanto mastigava.
Alice encaixou sua mão na minha suavemente quase como se não quisesse que eu notasse o que ela estava fazendo, passando meu polegar sobre sua pele carinhosamente aceitei mais um pedaço do bolinho enquanto ela listava quais eram os melhores.
Eu ainda não a entendia muito bem mas estava começando a perceber que ela parecia viver sempre num impasse sobre aproveitar o momento comigo ou permanecer mais centrada, talvez tivesse medo que eu a magoasse novamente, eu queria muito que ela se sentisse confortável e bem como estava agora então faria de tudo para vê-la sempre sorrindo daquele jeito.
Talvez em algum momento ela abandonasse essa nuvem n***a que pairava sobre seus pensamentos e postura inflexível e relaxasse mais um pouco, eu esperava que sim.