"Alison? - chamei baixinho vendo minha irmã mais velha com a metade do corpo para fora da janela de seu quarto. - Eu tive um pesadelo... - cocei os olhos tentando dissipar o sono para enxergá-la melhor enquanto adentrava o quarto em passos tropeçados.
- Alice, volta para a cama agora. - Alison pronunciou num sussurro parecendo irritada por eu estar ali, ela me encarou por longos segundos antes de suspirar alto e colocar a cabeça para fora da janela enquanto ajeitava a mochila em suas costas de maneira apressada.
- Você vai embora? - perguntei finalmente me dando conta de que ela parecia estar fugindo, e pior ainda, ela estava indo sem mim. - Você vai me abandonar?
Ela me olhou por alguns segundos de maneira indecifrável, um barulho ecoou ao longe a deixando rapidamente desesperada, Alison olhou para o lado de fora e depois voltou a me olhar como se estivesse em dúvida do que fazer, meu coração batia contra meu peito acelerado só de pensar na idéia de nunca mais ver a única pessoa que era boa para mim.
- Não, eu não vou te deixar. - ela sorriu para mim mas na verdade parecia triste, saindo da janela ela a fechou logo em seguida e me olhou com carinho.
Ela jogou sua mochila debaixo da cama e me carregando com cuidado Alison me deitou em sua cama se deitando ao meu lado em seguida e me abraçando bem forte, por ser bem maior que eu seus abraços sempre eram os melhores, mesmo que desse para sentir seus ossos visto que era muito magra eu ainda sim gostava de apertá-la pois fazia com que eu me sentisse segura.
- Fecha os olhos maninha, eu estou aqui com você. - fiz o que ela pediu me agarrando a sua blusa com força. - Eu nunca vou te abandonar. - senti um beijo ser deixado em minha testa suavemente.
Eu adorava o jeito como os pesadelos iam embora quando a Alison me abraçava apertado, eu não acreditava muito em suas palavras pois muitas vezes ela já tentou ir embora, mas ainda sim uma parte de mim gostava de acreditar que ela sempre estaria ao meu lado não importava o que acontecesse.
- Eu sempre vou cuidar de você Alice, nem que para isso eu tenha que matá-lo, nós vamos ficar bem e fugir um dia para um lugar bem longe onde estaremos seguras... - ela parou de sussurrar assim que ouviu barulho de passos.
- Alison! - estremeci ao ouvir a voz do papai, ele sempre parecia tão bravo, especialmente quando me encontrava na cama da Alison a noite. - Sua vadiazinha...
- Para debaixo da cama Alice! - ela falou rapidamente me empurrando para o chão, sequer tive tempo de pensar e já estava me arrastando pelo chão sujo ficando encolhida ali. - Anda Alice! - as mãos da minha irmã pararam de me empurrar assim que eu estava fora de seu alcance.
Prendi minha respiração ao ouvir o barulho da porta ser aberta, eu não conseguia ver nada além das meias do papai e a barra de sua calça, o silêncio reinou no cômodo por alguns instantes até que o rangido da cama o quebrou, virei meu rosto de lado pois quando o papai subiu nela acabou a afundando e me apertando ali embaixo um pouco, eu já estava acostumada então não era tão horrível assim como da primeira vez, engoli a seco levando minha mão a orelha com um pouco de dificuldade para não ouvir nada do que aconteceria, a Alison sempre chorava e isso me deixava triste também, mas quando ergui meus olhos vi sua mão caída ali para fora da cama.
Esticando-me um pouco consegui segurar dois de seus dedos e ela prontamente segurou minha mão de volta, eu queria que ela soubesse que eu também estava ali e nunca a abandonaria."
- Alice! - abri os olhos assustada olhando a minha volta rapidamente em busca da voz. - O alarme estava tocando e você não desligou, são quase 5 da tarde, horário incomum para colocar um despertador... - Alison murmurou me olhando preocupada. - Pesadelos?
Passei a mão em meu rosto notando o quanto estava suada, olhei para o relógio tentando me situar ainda, Alison permaneceu parada no pé da cama me olhando, a ignorei sentindo que estava sentada em algo molhado, ao passar minhas mãos pelo lençol vi que havia feito xixi na cama.
Era só o que me faltava!
- Alice... - ela falou baixinho ao perceber o que eu havia feito na cama, engoli a seco me sentindo envergonhada.
- Eu lavarei os lençóis, não se preocupe. - falei ríspida enquanto me cobria para que ela não continuasse encarando.
- Está tudo bem, deixe-os na máquina e eu faço isso, estou de folga hoje. - mantive meus olhos nos lençóis esperando que ela fosse embora, eu não queria conversar e muito menos ser vista numa situação como aquela. - Eu posso fazer algo por você?
- Não. - me limitei a responder.
Eu não era mais uma criança de 8 anos que precisava dos seus abraços para me sentir segura, depois de um tempo percebi que os pesadelos nunca iriam embora pois eles faziam parte da minha vida.
Assim que ela se foi me levantei da cama arrancando os lençóis os deixando no chão, fui até o banheiro tomar um banho rápido já que estava atrasada, em minutos me aprontei e pegando meu celular sai do quarto.
Parei no meio da escada ao ouvir uma voz masculina, diminui meus passos ao ver aquele cara alto de bigode espesso e terno preto sair da cozinha.
- Você deve ser a Alice... - ele sorriu caminhando em minha direção estendendo sua mão, tentei disfarçar a minha surpresa, esperava que ele me expulsasse de sua casa assim que me visse. - Eu sou o Robert. - dei um sorriso cordial aceitando sua mão, minha irmã que estava parada logo atrás dele sorria tranquilamente.
- Então você é o cara que abriga uma ex-presidiária? - o sorriso dela morreu no mesmo instante, ele coçou a nuca nervosamente sorrindo sem graça sem saber como responder aquilo. - Relaxe, estou saindo para trabalhar.
Era notável que ele não havia concordado em me abrigar, deveria pensar assim como a minha irmã que eu era um ser muito perigoso sem merecimento de uma nova chance.
- Esperava poder conversar com você melhor, mas entendo, vamos jantar juntos mais tarde? - assenti que sim mesmo que estranhasse toda sua simpatia. - Buscarei a Hannah para que a conheça.
Depois de 15 dias ele finalmente apareceu e queria que eu conhecesse minha sobrinha?
- Tem certeza que não é perigoso deixá-la perto de uma ex-condenada? - perguntei fingindo preocupação enquanto arqueava a sobrancelha. - Eu estarei usando garfo e faca, não deve ser muito seguro para ela...
- Alice, por favor para com isso. - Wynonna pediu me interrompendo. - Eu confesso que não soube reagir bem quando você saiu da cadeia e mantive a Hannah fora de casa nas últimas duas semanas mas isso é porque eu...
- Não sabe que crime cometi? - questionei sentindo a raiva me dominar, eu sabia que não havia me enganado, ela estava mantendo a garota longe de mim. - Acha que sou perigosa? - andei em sua direção falando cada vez mais alto. - Pensa que vou machucar a sua filha? - ela engoliu a seco negando com a cabeça mas era claro que pensava isso, olhando no fundo daqueles olhos azuis eu não estava conseguindo acreditar que ela pensava o pior de mim.
- Eu não acho isso Alice, eu fiz isso porque...
- Eu não sou o nosso pai, eu não sou um monstro. - murmurei entredentes próximo ao seu rosto. - Não volto para o jantar.
Sai daquela casa o mais rápido que podia, respirei fundo tentando não chorar, peguei meu celular para ligar pra minha chefe avisando que iria atrasar já que não pegaria carona com a Alison
- Senhora Rose? - murmurei respirando fundo para a minha voz não embargar. - Eu sinto muito pelo atraso, é que eu...
- Fui clara quando te contratei Alice, se for atrasar nem apareça. - me chutei mentalmente ao ouvir aquilo. - Espero que isso não aconteça amanhã.
- Não vai! - falei rapidamente aliviada por não ter sido demitida. - Eu estarei aí amanhã. - ela fez um som nasalado em concordância e desligou.
Olhei para a casa atrás de mim, eu não queria retornar para lá, mesmo que fosse para passar a noite trancada no quarto.
Peguei meu celular finalmente notando que havia mensagens da Sophia.
"Sophia Hastings: Sinto muito termos passado a madrugada toda conversando, sempre me empolgo quando falo de séries."
"Sophia Hastings: Você deve está dormindo agora a tarde não é!? Só me resta ficar entediada sozinha com todos esses relatórios..."
"Sophia Hastings: Está livre esta noite? Poderíamos jantar juntas se você desejar..."
Decidi não responder, colocando o celular no bolso passei a caminhar pela calçada em passos lentos, lá no fundo eu sabia que o único lugar onde poderia ficar seria a casa da Sophia.
Já estava escurecendo quando parei na frente da sua casa, eu havia parado no mercado para comprar um vinho, não queria aparecer de mãos vazias e a Sophia deveria ter tido um dia cansativo no trabalho, com certeza estaria precisando relaxar.
Antes mesmo de tocar a campainha a porta foi aberta exibindo uma Sophia de short curto e top, a olhei de cima abaixo deduzindo que estava saindo para correr.
- Alice! - ela sorriu parecendo confusa com a minha presença. - Eu não estava te esperando já que não respondeu as mensagens. - dei um passo para trás sorrindo sem graça, percebi naquele momento que eu não deveria estar ali.
- E-Eu... - pigarreei para que a minha voz não falhasse. - Achei que... - eu sequer sabia o que dizer e muito menos tinha voz para completar uma frase.
O que eu estava querendo indo até ali? Que a Sophia me abraçasse e me deixasse chorar em seu colo? Logo ela?
- Você está bem? - ela questionou dando um passo em minha direção me fazendo dá um passo para trás instintivamente, eu não sei por que mas aquela pergunta misturada a forma como ela me olhava intensamente acabou completamente com toda a minha postura. - Alice? - respirei fundo negando com a cabeça.
Péssima hora para ficar emocional, mas engolir a vontade de chorar não ajudava em nada quando ela ainda continuava me olhando com tanta preocupação e carinho.
Por que ela estava me olhando daquele jeito?
- E-Eu não... - murmurei baixinho tentando encontrar as palavras, desviei meu olhar dos seus tentando pensar de forma coerente. - Eu não quero incomodar, eu não deveria estar aqui pois o Theo pode...
- Relaxa, ele está na casa do Henry. - ela deu outro passo em minha direção tocando o meu braço gentilmente. - Você quer entrar? - ela questionou enquanto ia me envolvendo em um abraço delicado como se me desse a chance de recusar e recuar.
A princípio meu corpo se congelou diante daquele ato, meus braços ficaram paralisados sem saber onde deveriam ficar, senti sua mão ir de encontro aos meus cabelos o acariciando lentamente como se quisesse me acalmar, sequer notei que ela me trouxe para tão perto de si que eu estava chorando compulsivamente ensopando o seu peito com minhas lágrimas.
- Está tudo bem, Alice. - ela murmurava baixinho sem parar mantendo aquele abraço apertado, fechei os olhos dando-me por vencida e deitando minha cabeça em seu peito enquanto meus braços rodeavam sua cintura suavemente. - Eu estou aqui meu anjo, agora está tudo bem.
Suspirei baixinho podendo ouvir as batidas calmas do seu coração, em contrapartida, meu coração estava batendo acelerado, parece que o peso da dor que carrego estava me massacrando e a cada dia se tornava ainda mais difícil fingir.
Talvez fosse mais fácil ficar forte se a Sophia não tivesse se importado comigo e nem me abraçado.
A última vez que fui abraçada e consolada eu ainda era uma criança que não entendia bem o porque tinha uma vida tão horrível, mas agora eu era uma mulher solitária que carregava um fardo pesado demais e isso sempre soava em minha mente como um sinal de fraqueza perante os outros.
Na minha casa chorar era sinal de fraqueza e meu pai sabia muito bem como aproveitar e explorar cada fraqueza minha, já na prisão, quanto mais fraco você fosse mais coisas suas poderiam roubar.
- Vamos entrar? - Sophia perguntou baixinho me despertando dos meus pensamentos. - Eu tenho sorvete e uma cama quentinha. - ela suavemente tirou a sacola com vinho da minha mão.
- Não sei se consigo me mover agora. - respondi num sussurro tão baixo que se ela não tivesse colada ao meu corpo jamais me ouviria.
- Não tem problema, eu te carrego. - Sophia sorriu gentil e se afastou um pouco envolvendo seus braços em minha cintura, logo fui erguida com cuidado, envolvi seu corpo com as minhas pernas para não cair mesmo sabendo que ela não me soltaria.
Sophia adentrou sua casa e fechou a porta com o pé, ela subiu as escadas me segurando firmemente, empurrando com o corpo ela abriu a porta de seu quarto que só não estava completamente escuro por causa da luz do luar que adentrava a janela.
Senti meu corpo ser colocado com delicadeza sobre sua cama macia e a observei colocar o vinho sobre sua cômoda, senti falta do calor do seu corpo mas ela rapidamente removeu meus sapatos e fez o mesmo com os seus deitando-se no lado vago da cama de frente para mim.
- Eu nunca trouxe nenhuma mulher que conheci há menos de um mês para a minha cama. - deixei um riso baixinho escapar ao ouvir sua confissão dita em um sussurro, ela sorriu de maneira adorável para mim deixando claro que só disse aquilo para me fazer sorrir.
- Eu nunca chorei no colo de nenhuma mulher que conheci em menos de um mês. - murmurei em resposta a fazendo sorrir mais ainda, acho que eu nunca havia parado pra notar o quanto seu sorriso era lindo e combinava perfeitamente com seus olhos cor de mel.
Ela colocou o braço debaixo da cabeça e fechou os olhos, fiquei a observando em silêncio por um tempo mas não resistindo movi a minha mão lentamente sobre o lençol até que alcançasse a sua bochecha, a tocando delicadamente acariciei a sua pele vendo-a abrir os olhos novamente.
Sophia segurou a minha mão entrelaçando os nossos dedos, nenhuma palavra foi dita mas eu sentia que podia conversar com ela através de olhares e isso soava tão incrível.
Eu nunca havia conhecido alguém como ela.
Eu não sei como mas ela acalmou meu coração, e ali dividindo uma cama comecei a me desesperar pensando que estava começando a me deixar levar demais, desde o dia em que ela segurou a minha mão naquela padaria eu comecei a vê-la de verdade, ela não parecia mais alguém terrível, só que isso não alterava que ela ainda era a mulher que estava com meu filho e eu não mudaria o meu plano inicial.
Eu não voltaria atrás somente porque ela parecia alguém incrível e doce que valia a pena conhecer melhor.