Capítulo 18

2045 Words
Apertei meus olhos com força ao ver a mulher adentrar a sala com uma bandeja cheia de objetos de tortura. - Ela nem fez nada ainda. - ouvi a Sophia sussurrar, nem precisava abrir o olhos para ver que ela estava sorrindo. - Você deveria ir ficar com o Theo. - resmunguei me encolhendo na cadeira me arrependendo por não ter ido com uma roupa apropriada para enfrentar o frio congelante do ar condicionado do hospital. - Ele deve estar com medo. - Ele está dormindo agora, não conseguiu durante a madrugada então está aproveitando a maca. - assenti com a cabeça esperando que ela pudesse ver de onde quer que estivesse. - Por que não fecha os olhos somente quando ela começar? - Odeio hospitais. - confessei o que era meio óbvio. - Prefiro não ver nenhuma parte porque na última vez... - engoli a seco me arrependendo de ter entrado naquele assunto. - O que aconteceu na última vez? - Sophia perguntou baixinho me impendindo de ouvir o que a enfermeira havia falado. - Se não quiser contar está tudo bem... eu só perguntei porque você mencionou e achei que poderia... - Está tudo bem. - ergui minha mão do braço da cadeira pra buscar a sua porém recuei me lembrando que já não podíamos ficar de mãos dadas sempre que eu quisesse. - A última vez que estive em um hospital foi há dez anos. 10 anos atrás - Isso não está certo! - escutei a carcereira Stevens falar exaltada com a enfermeira e o diretor interino. - Ela não tem como dar a luz aqui senhor, mesmo que você ache viável dar a luz no chão ela ainda tem seus direitos! Respirei fundo sentindo outra contração vir, levei minha mão a barriga desejando que aquilo acabasse logo. - Várias detentas deram a luz aqui. - senti uma enorme vontade de agredir aquele homem que estava atrapalhando tudo. - Ela é extremamente perigosa e não sairá daqui! - ele decretou bravo. Eu me tornaria perigosa se ele não calasse a boca. - Ela é uma menina com dor, não há nada de perigoso nela! - a carcereira me olhou com carinho indo de encontro com suas palavras furiosas. - Você não é o diretor de verdade, farei umas ligações e a tirarei daqui, você querendo ou não! Observei a loira sair da sala me deixando sozinha com o diretor interino e a enfermeira, limpei meu suor com o punho antes de me jogar na cama esperando algum tipo de conforto para as minhas costas. - Se depender de mim ela só sai daqui morta. - fechei meus olhos ignorando aqueles dois ali, eu só queria que a dor acabasse e meu neném ficasse bem. Eu poderia finalmente vê-lo, e mesmo na prisão, eu tinha solicitado uma transferência para a ala onde as mães ficavam, seria só eu e meu bebê por três meses e então a Alison onde quer que estivesse cuidaria dele até que eu pudesse sair. Mesmo que não estivéssemos bem devido ao meu estado atual de vida eu ainda acreditava que ela cuidaria do meu filho por um tempo. - Movam-se! - abri os olhos ao ouvir a voz da carcereira Swan, ela trazia consigo dois homens que rapidamente me carregaram sem muita delicadeza e colocaram numa cadeira de rodas. - Você não pode fazer isso! - o diretor gritou me fazendo estremecer. - Não posso? - a loira ironizou. - Pois me observe fazendo. - me empurrando para fora dali eu fui guiada até uma ambulância que estava no pátio externo. - Chegaremos em alguns minutos, aguente firme. - Você... - segurei sua mão assim que fui colocada deitada na maca e envolvida por um cinto de segurança. - Você vai perder o emprego. - Fique tranquila, se eu puder salvar você e o seu bebê então tudo terá valido a pena. - ela sorriu para mim enquanto alisava meus cabelos. Assim que as portas foram fechadas, ela se sentou e assim que colocou o cinto de segurança deu dois socos no teto do veiculo sinalizando que poderiamos ir. - 0805 pronta para remoção! - ela falou alto e a ambulância passou a se mover. Segundo a Stevens levamos alguns minutos mas cada contração me fizeram sentir que demorou uma eternidade, eu estava suando e com muita dor mas apenas me preocupava com a saúde do meu filho. - Eu vou estar com você o tempo todo. - ela murmurou sorrindo para mim, senti o carro parar e as portas serem abertas. - Stevens.. - a chamei sentindo o pânico me dominar. - Por favor, eu... - Não se preocupe. - ela me tranquilizou rapidamente. Eu fui colocada numa sala vazia, me transferiram de maneira brusca para a cama do hospital e rapidamente me algemaram as grades laterais, respirei fundo sentindo outra contração vir. - Vou checar a dilatação. - foi tudo que ouvir antes de sentir uma mulher erguer minhas pernas e se posicionar no meio delas. - Preparem uma dose de... - Não. - Stevens interveio. - Ela não pode receber medicamentos que a apaguem. - arregalei os olhos desesperada. Uma criança estava prestes a rasgar uma parte do meu corpo e eu nem posso estar sedada? - Ok. - a médica murmurou. - Vamos prepará-la para empurrar. - Não! - supliquei chorando. - E-Eu não posso fazer isso. - tentei fechar minhas pernas porém a médica impediu. - Eu não consigo. - Você pode sim. - Stevens falou levando sua mão a minha testa enquanto a outra segurava minha mão. - Você não está sozinha nisso, vamos trazer esse bebê ao mundo e tudo ficará bem. - assenti mesmo que estivesse morrendo de medo. O que mais me preocupava é que eu nunca soube o que era amor ou ser amada, eu nunca soube como uma família deveria ser de verdade, eu nunca tive ninguém para segurar a minha mão e me prometer que tudo ficaria bem, meus pais não foram assim, e eu tinha medo de não saber amar o meu filho, ou pior, ser tão horrível para ele quanto o meu pai foi para mim. - Empurra! - ela falou alto, reuni todas as minhas forças e apertando a mão da carcereira empurrei o máximo que pude deixando um grito gutural escapar da minha garganta. - Ótimo, vamos de novo. - olhei para os olhos verdes da mulher que com um sorriso me incentivava a continuar. Cada célula do meu corpo queria desistir, mas eu precisava fazer aquilo, eu precisava ser forte por ele mais uma vez, assim como no dia em que esfaqueei meu pai e incendiei a casa com ele dentro. Respirei aliviada no momento em que ouvi o choro escandaloso do meu filho. - Me parece que você teve um meninão saudável.. - sorri em meio as lágrimas esticando minhas mãos para que ela me entregasse ele porém as algemas limitaram minha ação. Olhei para a mulher ao meu lado implorando para que ela me ajudasse, recebendo um aceno compreensivo ela soltou meus pulsos das algemas mesmo que um dos caras que a acompanhava não tivesse gostado. Recebendo aquele pequeno embrulho ainda um pouco sujo de sangue o peguei delicadamente temendo não saber segurá-lo, o repousei em meu peito sentindo meu coração explodir de felicidade. - O-Oi.. - murmurei baixinho extasiada enquanto o observava mover a cabeça devagarzinho. - Eu sou a sua mãe. - falei não contendo as lágrimas, um enorme sorriso rasgava meus lábios somente por tê-lo ali comigo. - Ele já tem um nome? - desviei minha atenção para a Stevens. - Ele precisa de um nome bonito. - Charles Theodore Griffin. - murmurei olhando o meu pedacinho de perfeição, depois de pronunciar percebi que talvez fosse um nome muito pesado para um bebê. - Charlie. - ele abriu os olhos lentamente como se aprovasse. - Oi Charlie, é a mamãe. Levei minha mão a sua com cuidado para lhe fazer carinho mas logo senti meu dedinho ser envolvido por sua mãozinha em um aperto firme. - Eu sempre vou estar com você meu amor, não importa o que aconteça eu irei estar lá para você quando precisar e te protegerei, eu vou te amar até o meu último suspiro. - toquei a sua testa com um beijo delicado. - Eu faria qualquer coisa por você meu amor. De repente a porta se abriu revelando o diretor da prisão acompanhado de uma mulher. - Você pode levá-lo. - franzi a testa apertando suavemente meu filho em meus braços instintivamente, dando um olhar desesperado para a Stevens que parecia tão perdida quanto eu. - Não podem levar meu filho, eu ainda tenho três meses com ele! - falei exaltada ao ver a mulher desconhecida tentar arrancá-lo de mim a força. - Não! Ele é o meu bebê! Não podem fazer isso! Por favor devolvam o meu filho! - gritei implorando enquanto chorava, meu coração se apertou ao vê-lo se distanciando de mim aos prantos. - Ela ainda precisa amamentar o bebê. - Stevens tentou intervir porém foi inútil. - Gregory você não pode simplesmente levá-lo. - Essa criança não crescerá na cadeia. - foi tudo o que ele disse exalando pura indiferença. - Entreguem a Alison, minha irmã ficará com ele! - supliquei tentando me levantar da cama porém um dos caras me empurrou de volta e me algemou novamente as grades laterais. Eu ainda não sabia que aquela seria a última vez que veria o meu filho, mas estar presa a uma cama enquanto ele era arrancado brutalmente dos braços me dava a sensação de que eu não cumpriria a promessa de sempre estar ao lado dele e protegê-lo. Dias atuais - Charles Theodore? - Sophia perguntou me distraindo da dor em meu braço. - Esse seria o nome dele? - Sim, mas eu estava determinada a sempre chamá-lo de Charlie. - respondi baixinho arriscando abrir os olhos mas ao notar a enfermeira com uma enorme agulha na minha frente fechei novamente, pelo visto ela não havia coletado todo o sangue que precisava. - Eu fiquei com raiva a princípio por ele se chamar Theo, mas no fundo gostei pois chegava perto do que eu havia pensado. - Eu não posso imaginar o quanto você sofreu... - ela mudou suavemente o assunto, como se não soubesse muito bem como tocar naquele assunto delicado. - Eu fiquei louca só de imaginar que o Theo poderia ter sido tirado de mim, e você passou exatamente por isso. - senti algo tocar a minha mão, abri os olhos lentamente ignorando a agulha enfiada em meu braço sugando meu sangue aos poucos para observar a mão da Sophia repousando sobre a minha. - Me desculpe por aquela noite, eu não fui muito justa com você. - Eu mereci. - sorri compreensiva não sentindo necessidade de receber um pedido de desculpas por aquilo. - Você estava o protegendo, eu entendo isso, apenas fico triste por não ter conseguido cumprir a minha promessa a ele. - Bom, eu sei que as coisas estão complicadas por hora, mas eu sei que o Theo ficará bem graças a você. - ela sorriu de modo adorável exibindo suas covinhas. - Obrigada por fazer isso mesmo com medo de agulhas e hospitais. - dei de ombros sorrindo. Passando seus dedos por minha pele ela envolveu sua mão ainda mais na minha me segurando firmemente, alternei meu olhar entre seus olhos e sua mão tentando não fazer nenhum movimento brusco para não afastá-la. - Eu vou segurar a sua mão até que tudo isso acabe. - ela sorriu sem jeito enquanto mordia seu lábio inferior. - Eu prometo que tudo vai ficar bem. - Obrigada. - me limitei a dizer não sabendo bem como me expressar. Não notei o quanto eu sentia falta do sorriso dela até que meu coração disparasse diante daquele rostinho adorável. Era desconcertante tê-la ali me confortando, mas ao mesmo tempo, tudo parecia tão certo que eu nem sabia como proceder. Eu sei que a Sophia faria de tudo pelo nosso filho, assim como ela mencionou, e eu sei que faria de tudo pelo Theo, poderia ser disfuncional mas eu esperava encontrar o meu rumo. Ao lado dele, e talvez ao lado dela também.
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