Capítulo 17

2061 Words
Meu pai costumava dizer que eu era uma filha perfeita, eu não me considerava assim mas parte de mim acreditava que ele pensava desse modo porque eu sempre mantive a calma em situações desesperadoras, eu não chorei quando a vovó morreu e nem quando meses depois minha mãe foi morta durante um assalto, eu apenas me mantive tranquila e fui forte, e eu considerava isso algo bom no meu ramo de trabalho e até mesmo como mãe visto que o Theo sempre precisava do meu apoio, eu só não sabia que no instante que a morena de longos cabelos revoltos e extensa ficha criminal surgisse em minha porta eu perderia completamente a minha tranquilidade. Minha perna balançava incessantemente enquanto minha mão se mantinha grudada na dele, eu me esforçava muito em parecer calma para não assustá-lo mas essa era uma missão nada fácil. - Bom mamãe... - observei a loira de jaleco branco adentrar o consultório novamente com papéis em mãos. - Podemos conversar um pouquinho lá fora? - Por que eu não posso ouvir? - escutei o Theo perguntar enquanto tentava se levantar da maca porém coloquei a mão em seu peito o impedindo de fazer isso. - Vocês vão falar de mim, eu quero saber o que é. - Filhote, nós vamos conversar rapidinho e depois a Dra. Robbins vem conversar com você. - falei esperando que ele compreendesse como sempre fazia porém ele apenas semicerrou os olhos para mim mostrando que duvidava da minha palavra. - Eu prometo. - Assim como prometeu me contar sobre minha mãe mas na verdade escondeu isso e namorou ela? - engoli a seco vendo a médica esconder o sorriso atrás dos papéis. - Que seja! Respirei fundo para não brigar com ele por causa daquela petulância, me levantando da cadeira sai do consultório seguindo a médica. - As vitaminas não estão funcionando mais, não é!? - questionei cruzando meus braços e logo recebi um sorriso triste confirmando minhas suspeitas. - Ele voltou a parecer cansado, as febres sempre vem e vão, eu andei pesquisando e existe um remédio que... - Senhora Hastings... - ela me interrompeu com um suspiro. - Sophia, o Theo não é como as outras crianças. - senti sua mão tocar o meu braço gentilmente. - Por um tempo a dieta e as vitaminas serviram como um paliativo mas elas não substituem os nutrientes que o sangue dele não produz. - respirei fundo passando a mão em meus cabelos nervosamente. - Ele já esteve pior do que agora e... - tentei ser otimista mas seu olhar triste não me deixou continuar a frase. - Eu acredito que ele está sentindo dor há muito tempo mas não quis te contar. - neguei com a cabeça não podendo acreditar naquilo, meu filho não me esconderia as coisas. - Andar para ele é muito cansativo, em breve o Theo ficará fraco demais pois não tem os nutrientes necessários para fazer seu corpo funcionar como deveria. - Ok. - murmurei sentindo meus olhos arderem, respirei fundo para que minha voz não soasse tão quebrada. - O que eu devo fazer? - perguntei com a voz embargada segurando o seu braço. - Só me diga o que é necessário para que ele fique bem. - Ele precisa de algumas transfusões de sangue para dá-lo uma chance significativa de melhorar o seu quadro anêmico. - franzi a testa confusa com sua declaração repentina. Quando adotei o Theo eu sabia que ele era mais suscetível a ficar doente e que precisava de todo um cuidado com a sua saúde e alimentação já que seu sangue não produzia os nutrientes necessários para que ele tivesse uma boa imunidade para enfrentar qualquer coisa, um mínimo resfriado o fazia ficar internado por dias no hospital, há dois anos atrás a Dra. Robbins disse que ele precisava de uma transfusão mas como não havia um doador compatível ela encontrou vitaminas experimentais que forteleciam sua imunidade, porém aquilo não resolveria as coisas para sempre, e era a possibilidade de tratamento mais remota existente. - Mas você disse que para achar um sangue compatível era raro pois... - minha mente ficou em branco tentando lembrar do que ela havia dito há algum tempo. - Eu sei que disse que era raro, porém dentre as pessoas compatíveis com o Theo eu encontrei 4 que talvez possam fazer isso, farei algumas ligações para tentar providenciar isso o mais rápido possível. - sorri tentando me manter esperançosa com a notícia mesmo que sua voz não transmitisse confiança alguma. - Quatro pessoas em Hope Garden? - questionei já me animando. - Não... - Dra. Robbins murmurou me deixando confusa. - São quatro pessoas no mundo. E assim como veio, a minha esperança foi embora rapidamente. - Em breve lhe darei mais notícias. - a observei mexer em seu celular enquanto falava comigo. - Podemos ir para casa enquanto isso? - perguntei em meio a um suspiro cansado, eu poderia no mínimo deixá-lo perto do Henry e mimá-lo um pouco para que esquecesse de tudo que está acontecendo. - Sinto muito Sophia... - ela me lançou um olhar triste. - Mas o Theo dará início ao seu internamento hoje, não podemos arriscar que ele saia e piore. - ouvir aquilo apenas me confirmou que era pior do que eu pensava. Quando estava para dizer algo notei que ao longe no saguão do hospital se encontrava uma figura morena familiar, quando seus olhos se encontraram com os meus ela virou-se de costas tentando disfarçar. - Eu volto num minuto. - falei com médica me afastando, andei a passos largos indo em direção a ela. - Você se esconde muito m*l. - Eu me escondia com perfeição durante as brigas de pátio da prisão. - Alice se defendeu como se eu tivesse a insultado. - Eu só... só queria saber como ele está, a Alison me disse que você o trouxe ao hospital há algumas horas. - Ele está bem. - menti dando um sorriso forçado, claro que ela merecia saber a verdade mas eu estava acostumada a lidar com tudo sozinha. Tudo bem que estávamos investigando o seu caso, e que se o Theo quisesse ela sempre estaria por perto, mas eu não me sentia nem um pouco confortável em falar para a pessoa que claramente confessou querer roubar o meu filho que eu não estava cuidando bem dele. - Sei que está processando muita coisa... - ela coçou a nuca parecendo nervosa e perdida com as palavras. - E eu não espero que goste ou confie em mim, mas... - Não é todo dia que a mãe biológica do seu filho vira sua vida de cabeça para baixo em dois segundos. - murmurei sarcástica cruzando os braços. - Eu preciso voltar para o Theo... - Ok, não há um jeito fácil de dizer... - ela se aproximou de mim mordendo o lábio inferior, desviei meus olhos para o teto do hospital dando um passo para trás, não cederia aos encantos do inimigo novamente. - Quando estávamos juntas, tipo, quando nós estava namoran... - Me iludindo. - a corrigi bruscamente. - Quando você estava me iludindo. - Eu entrei no seu escritório algumas vezes, para colher informações que me ajudassem a provar que você não era uma boa mãe. - engoli a seco tentando não ficar com raiva e matá-la ali mesmo com tantas testemunhas presentes. - Eu vi os envelopes do hospital e os exames do Charl... do Theo. Absorvi aquela informação tentando entender o que ela queria dizer. - Eu sei o que ele tem Sophia. - ela explicou após alguns segundos em silêncio mas não entendi o por que aquilo importava no momento. - Meu filho precisa de mim agora, conversamos sobre suas tendências de stalker em outro momento. - me virei para retornar ao consultório porém a Alice interrompeu meus passos segurando o meu pulso. - Sophia eu preciso vê-lo por que... - Se você leu os exames deve saber que o Theo está fraco e com dor, e se você se lembra do que aconteceu ontem na casa da Madelyn então entende perfeitamente que não é um bom momento para vê-lo. - me aproximei dela perigosamente podendo sentir sua respiração pesada bater contra meu pescoço. - Ele não precisa passar por mais coisas do que já está passando, você não vai vê-lo agora. - Não, você não está entendendo Sophia, eu.. - olhei para trás ao ouvir a médica do Theo me chamar. - Eu não tenho tempo para isso agora, volte para a casa da Madelyn ou a minha e continue procurando provas. - comuniquei me afastando dela sem dar atenção aos seus murmúrios embolados. Parando em frente a Dra.Robbins ela me informou que eu precisava assinar alguns papéis para dar entrada na internação do Theo enquanto ele seria levado a uma ala de tratamento. - Quanto tempo levará para que alguém queira doar sangue para o meu filho? - questionei equilibrando todos aqueles formulários entre meus dedos de modo desajeitado. - Sendo honesta com você, em uma situação normal não demoraria tanto, mas como a identidade das pessoas portadoras desse sangue raro é altamente confidencial e geralmente eles tem medo de fazer algo assim eu não sei quanto tempo levará. - assenti com a cabeça mais por educação do que por compreensão. Meu filho dependia de pessoas distantes, desconhecidas e numa situação similar a dele para que pudesse sobreviver. - Olá doutora. - respirei fundo ao ouvir a voz da Alice surgindo de detrás de mim. - Eu sou a... - ela deu um passo para frente estendendo sua mão para cumprimentar a médica porém parou sua frase no ar como se esperasse que eu a autorizasse dizer quem ela era. - Ela é a mãe do Theo. - murmurei baixinho vendo-a sorrir espantada assim como a médica. - Ele tem duas mamães, que garoto de sorte! - revirei os olhos já prevendo a dor de cabeça que a Alice e sua falta de senso me trariam. - Bom, você deseja que eu explique novamente como procederemos o tratamento do Theo ou vo... - Ele é RH Nulo, certo!? - arqueei a sobrancelha observando a Alice interromper a médica. - E anêmico, não é? - Sim mãezinha, mas nós lhe daremos o melhor tratamento possivel até encontrarmos um doador para fazer transfusões de sangue. - suspirei alto passando meu braço ao redor dos seus ombros assim que seu semblante obscureceu. Eu não sabia se ela entendia a gravidade daquilo, mas eu tinha certeza que ela o amava e se importava com ele tanto quanto eu. Eu enfrentava tudo isso há anos e ter alguém para me apoiar e ajudar a lidar com tudo talvez tornasse as coisas mais suportáveis, então mesmo diante da nossa situação eu faria isso por ela, eu a apoiaria e entenderia sua dor. - Eu sinto muito. - Alice sussurrou para mim enquanto erguia seus olhos para me encarar, haviam tanta tristeza neles que eu conseguia sentir a sua dor. - Eu passei isso para ele, eu li que pode ser genético. - Você é RH Nulo? - Dra. Robbins se intrometeu na conversa parecendo perplexa. - Eu sou, assim como o meu pai era. - Alice explicou me deixando ainda mais absorta. - Eu posso doar sangue para o Theo, o quanto for necessário, até mesmo todo! - ela se desvencilhou de mim se aproximando da médica. - Me testa a vontade! - Ok isso é surpreendente, vamos fazer isso, preciso pedir que organizem tudo para testar se seu sangue é realmente compatível, e se ele for então prepararei o filho de vocês para a transfusão. - a médica anunciou animada e logo saiu andando desaparecendo por um dos corredores. - Alice... - Eu tentei te dizer. - ela me cortou na defensiva porém eu nem me importava mais com seu tom. Em um impulso envolvi seu corpo num abraço apertado enquanto suspirava aliviada, a princípio ela ficou tensa mas depois relaxou e me abraçou de volta. - Obrigada por existir e dá uma chance do meu filho viver. - murmurei baixinho a apertando mais um pouco em meus braços. - Dá uma chance ao nosso filho. - corrigi podendo ouvi-la rir baixinho. - Nosso filho ficará bem enquanto tiver a nós duas. Naquele momento eu só poderia concordar com ela, ele precisava de nós duas.
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