11 anos atrás
Ali sentada na cadeira diante de todo aquele burburinho eu desejava imensamente que o sinal magicamente tocasse me liberando para ir pra casa, não que houvesse algo lá que eu quisesse demais, é só que as vezes os amigos que fiz me dão a sensação de que eu não deveria estar com eles.
Não são pessoas horríveis ou prejudicam meus estudos, eles apenas acham que são seres superiores e que tudo que dizem é lei, honestamente eu não ligava muito para isso, com exceção de que uma das leis deles é que a Alice Griffin era um ser inferior que precisava ser lembrado disso todos os dias.
- Qual é Sophia, não vai com ninguém para o baile? - suspirei alto cansada daquele assunto, ajeitando-me na minha cadeira me debrucei sobre a mesa após dar de ombros como resposta.
Eu estava ansiosa para ir ao baile de inverno, mesmo que fosse clichê dançar músicas lentas e usar um vestido desconfortável e pomposo eu sempre sonhei em fazer isso, mas não fazia sentido algum ir com um cara aleatório.
Eu iria ao baile se eu pudesse realmente levar quem eu desejava, mas isso era um sonho tão remoto que eu sequer o cogitava de verdade.
Por alguma razão inexplicável, eu pensava que se tivesse que ir a um baile, eu iria com a Alice Griffin.
Olhei para a porta da sala de aula vendo a Alice entrar em seus habituais moletons largos e boné, eu não entendia muito bem o por que ela se vestia daquele jeito mesmo no verão, mas eu não ligava, os olhos dela eram lindos mesmo que ela parecesse triste o tempo todo.
Não sei por que mas desde a vez em que fizemos dupla em um projeto de artes eu a olhava de maneira diferente.
Ela não notou mas naquele dia escreveu uma poesia em um papel aleatório e depois o jogou fora, a princípio eu só queria saber o que estava escrito mas agora aquela poesia estava guardada em minha carteira há meses, eu sempre o lia quando me sentia triste, eram simples palavras mas era tão inteligente e delicado, no fundo eu me perguntava o que se passava em sua mente e quando me dei conta eu estava me perguntando silenciosamente o que havia em seus pensamentos todos os dias.
Não fazia sentido ir a um baile onde ela não fosse o meu par.
- A imunda chegou. - voltei minha atenção para a minha amiga sentada sobre a mesa ao meu lado. - Ela está usando essa roupa há mais uma semana... - olhei para trás vendo a Alice se sentar numa cadeira ao fundo, era verdade, ela não costumava mudar de roupas, sempre aparecia com as mesmas, mas mesmo assim ainda tinha um doce perfume que eu sabia que pertencia somente a ela e de vez em quando ele se misturava a algum sabonete. - Porquinha, você roubou as roupas de qual mendigo dessa vez? - mordi o lábio inferior ao vê-la se encolher como se desejasse sumir. - Sophia, joga nela. - recebi um potinho de pudim de chocolate das mãos da Jenn, ela me olhava com expectativa esperando que eu fizesse aquilo.
Jogar coisas na Alice havia se tornado um hábito desde que a Jenn há alguns meses derrubou sem querer seu almoço nela enquanto estava sentada no refeitório, a princípio foi engraçado o acidente mas minha amiga tornou isso parte da rotina, segundo ela a Alice já era imunda então sujá-la mais um pouco não faria diferença.
Eu não gostava de fazer aquilo e muito menos de ver a maneira como isso a deixava triste, Alice nunca ficava brava ou revidava, ela apenas suspirava triste e engolia o choro, como se achasse que merecia aquilo, infelizmente eu sabia que se eu não fizesse a Jenn faria e seria muito pior.
- Anda Hastings! - recebi um tapa no ombro como incentivo, respirando fundo atirei aquilo com força mirando um pouco mais acima da cabeça da morena acertando a parede atrás da Alice, ela se encolheu ainda mais cobrindo seus ouvidos com as mãos, seus olhos se cruzaram com os meus por um instante antes que ela se levantasse furiosa saindo da sala. - Sua mira é uma droga.
- A sua é ainda pior. - rebati revirando os olhos. - Vou na biblioteca. - murmurei me levantando e saindo da sala.
Andei pelos corredores rapidamente, o sinal logo tocaria e eu não podia mais matar aulas se quisesse fazer uma boa faculdade, entrei no banheiro feminino que estava vazio, a não ser pelo som baixinho de fungadas.
- Haverá um dia bom, e você terá a chance de vivê-lo... - a ouvir dizer baixinho repetidas vezes.
- Alice? - murmurei tocando a última porta das cabines, ela se abriu lentamente exibindo aquele ser encolhido sentado sobre a privada.
- Por favor, não. - ela implorou se encolhendo ainda mais, engoli a seco me sentindo m*l por assustá-la.
Eu era um ser humano horrível por deixá-la naquele estado.
- Eu não vou... - não consegui completar a frase me sentindo terrivel por infernizá-la. - Eu sinto muito por tudo, eu só...
- Precisa de alguém menor que você para machucar? - a observei erguer os olhos um pouquinho me encarando. - Vai embora.
- Haverá um dia bom, e você terá a chance de vivê-lo. - repeti suas palavras enquanto me agachava para ficar da sua altura. - Frase legal, significa algo para você?
Ela arqueou a sobrancelha parecendo desconfiada e eu entendia o por que, na frente dos meus amigos eu sempre era indiferente, deixava que a destratassem somente por medo de que eles não fossem mais meus amigos.
- Foi o que a minha irmã me disse antes de ir embora. - ela murmurou tão baixinho que eu não tinha certeza do que havia escutado. - Essa frase me motiva a não desistir de mim mesma.
- Você é impressionante. - falei deixando um sorriso escapar. - Eu fico feliz em ser a segunda melhor da sala desde que você sempre seja a primeira. - puxei do meu bolso um pacotinho de bolinho de chocolate. - Você me parece gostar deles. - ela hesitou por um instante mas o aceitou.
- Está sendo legal para me humilhar na próxima vez que sua amiga estiver por perto? - ela questionou abaixando seus pés da privada sentando direito.
- Não... - mordi o lábio inferior envergonhada. - Eu queria saber se você quer ir ao baile comigo. - puxei do bolso o convite lhe estendendo.
Eu sei, era estúpido...
Todos me odiariam por estar com uma garota, ainda mais sendo a Alice, mas era o último baile do colégio, logo eu faria 18 e estaria na faculdade e eu honestamente não queria me perguntar como seria minha vida se eu tivesse sido um pouco corajosa e a tirado para dançar no baile.
Respirei fundo ansiosa por uma resposta, sua expressão era indecifrável, somente naquele momento percebi que havia um hematoma em seu olho coberto de um jeito péssimo por maquiagem.
- Alice, o que aconteceu com o seu...
- Para. - ela estapeou minha mão fazendo abaixá-la. - Não ouse brincar comigo e fingir que eu tenho a chance de passar um segundo da minha vida sem ser humilhada por você!
- Eu realmente quero te levar ao baile. - expliquei baixinho. - Eu escrevi algo para você. - abri o envelope onde havia o convite mostrando que juntamente com ele havia uma cartinha. - Por favor, eu não quero mais te machucar eu só quero parar de fingir que não gosto de você e que...
- Eu nunca tive chance! - ela murmurou olhando para o chão, eu não tinha certeza se havia sido para mim e fiquei ainda mais confusa ao vê-la se levantar e sair.
Em que mundo a Alice aceitaria sair com alguém que lhe fez tão m*l?
Eu deveria saber que ela nunca me perdoaria, não tinha o por que confiar em mim.
Mas lá no fundo, uma parte de mim tinha esperança de que ela não me olhasse com tanta raiva e desprezo.
Dias atuais
Apertei meus olhos ao notar que a luz do meu quarto foi acendida, cobri meu rosto não desejando ser incomodada.
- Senhorita Hastings? - abri os olhos ao ouvir a voz da babá. - Sei que pediu para não lhe perturbar mas... - mas já estava perturbando.
- O Theo está bem? - perguntei notando que estava com a voz rouca por estar com o nariz entupido.
- Ele está bem, mas é que... - removi o lençol a olhando. - Tem uma mulher morena lá embaixo, ela diz que se chama Griffin e que só sai quando você levantar seu corpo preguiçoso da cama. - franzi a testa ao ouvir aquilo sentindo um calafrio percorrer meu corpo automaticamente ao escutar aquele sobrenome. - Foram palavras dela.
- Ninguém merece! - me levantei da cama abruptamente. - Avisa que eu já vou.
Assim que ela saiu do meu quarto vesti um roupão e desci as escadas, eu não estava com ânimo para me arrumar.
- Ruiva! - encarei a Alison parada na minha sala, definitivamente eu não esperava por ela. - Disfarça a cara de frustração. - revirei os olhos me aproximando um pouco.
- O que faz aqui? - questionei friamente, mesmo não tendo feito nada a mim diretamente eu desconfiava que ela soubesse de tudo o tempo todo.
- Você está acabada Hastings, mas sei que não está doente. - ela falou sorrindo. - Está matando trabalho há uma semana.
- Eu...
- Me poupa o discurso de coração partido. - ela ergueu a mão me interrompendo. - Eu entendo como se sente.
- Ninguém entrou na sua vida, mentiu por meses somente porque queria roubar seu filho e sei lá mais o que. - cuspi as palavras furiosa, eu havia passado dias em silêncio mas estava cansada de ser feita de trouxa.
- Disse a Alice que eu rejeitei a criança, essa é uma das razões da minha visita. - ela falou baixinho me fazendo franzir a testa confusa. - Eu não sabia que a criança existia até que estivesse prestes a ser adotada por você, o processo já estava praticamente concluído e eu não tinha como intervir.
- O que isso tem a ver? - cruzei os braços me sentindo incomodada com aquele assunto.
- A Alice nunca abandonaria o Charlie... Digo, Theo. - ela caminhou até o meu sofá se sentando nele, me aproximei dela sentando também um pouco mais afastada. - Ele foi levado de seus braços porque ela estava na penitenciária de segurança média, e eu nunca fui notificada da existência desse bebê assim como manda a justiça.
- Eu o adotei legalmente. - pronunciei alto deixando claro que eu não cometi nenhum tipo de infração durante o processo. - Fui informada que ele foi abandonado e que ninguém o procuraria, a adoção era fechada.
- Ninguém o procuraria porque alguém não queria que eu soubesse da existência dele e esperava que a Alice nunca saísse da cadeia. - abri a boca incrédula sentindo meu coração apertar, aquilo era algo praticamente impossível de acreditar.
Eu não engoliria qualquer história triste sobre a Alice ficando disposta a dar a guarda do meu filho ou perdoá-la.
- Que crime ela cometeu? - questionei não tendo certeza se eu queria mesmo uma resposta ou não.
- Eu não espero que perdoe a Alice, ou que fique bem com toda essa situação, eu só quero que saiba de toda a verdade pois preciso da sua ajuda. - senti sua mão tocar meu joelho, pensei em tudo o que ela estava me dizendo, caso aquilo fosse verdade significa então que a Alice não era a pessoa horrível que imaginei.
Ela mentiu e me enganou, mas ela não abandonou o filho porque não se importava com ele, ela não teve a chance de ficar com ele ou de lutar por isso, ela não o abandonou, na verdade não teve a chance de fazer nada.
- Ela nunca teve uma chance. - falei baixinho para mim mesma.
Como um gatilho, lembrei-me da frase que a Alice repetiu diversas vezes naquela cabine de banheiro, ela queria ter a chance de viver um dia bom.
Seus tempos no colégio foram um inferno na terra, e depois veio a prisão, ela não teve a chance de ter um dia bom.
- O que você...
- Eu preciso fazer algo. - falei a interrompendo rapidamente.
Subi as escadas indo ao meu quarto, tomei um banho rápido e vesti roupas limpas, ajeitei meu cabelo e desci os degraus rapidamente.
- Onde está indo? - Alison questionou se levantando. - Ela está numa pensão no fim dessa rua. - a encarei confusa assim que ouvi suas palavras. - Ela não quis mais morar comigo porque achou que eu não quis ficar com o bebê dela. - assenti com a cabeça saindo de casa em seguida.
Andei a passos largos pela calçada por alguns minutos até parar em frente a pensão, adentrei o local observando uma senhora atrás de um balcão.
- Bem-vinda, deseja um quarto? - sorri simpática emquanto negava com a cabeça.
- Eu vim ver uma amiga, ela se chama Alice Griffin. - menti com meu melhor sorriso nos lábios. - Ela está me esperando.
- Alice, claro. - ela sorriu olhando suas anotações em um caderno. - Menina adorável. - assenti em concordância. - Ela está no quarto número 5.
- Obrigada. - murmurei indo em direção ao corredor que dava nos quartos, ainda bem que aquela senhora não tinha noção que é proibido divulgar informações dos hóspedes daquela maneira.
Parando em frente a porta com um número 5, respirei fundo batendo duas vezes, esperei alguns segundos até que a porta foi aberta por ela.
- Sophia? - ela murmurou perplexa, até eu estava surpresa em estar ali parada diante dela.
Engoli cada sentimento que veio a tona ao vê-la que com certeza eram muitos, era a primeira vez que eu a encontrava desde aquela noite e definitivamente eu não estava pronta para vê-la mas precisava fazer isso.
Por um bem maior.
- No colegial eu te chamei para ir ao baile de inverno comigo, mas você não acreditou que eu realmente queria fazer aquilo...
- E você me humilhou em público quando eu finalmente disse sim. - ela completou parecendo confusa enquanto cruzava os braços sob o peito.
- Meus amigos estavam perto e eu fui covarde, mas eu realmente queria sair com você, eu gostava de você. - expliquei mesmo que ela não fosse acreditar.
- Sophia eu não estou entendendo o que você quer dizer com...
- Você nunca teve uma chance. - murmurei a interrompendo. - Em sua vida você nunca teve a chance de viver um dia bom. - falei me lembrando da frase que ela sempre citava no passado.
- E daí? - Alice questionou.
- Você é a mãe do meu filho, eu não quis te ouvir e com certeza não te perdoo por me enganar. - deixei claro vendo sua expressão triste. - Mas você tem uma chance.
- Eu tenho uma chance? - engoli a seco lutando internamente contra meus pensamentos confusos.
- Você tem uma chance. - repeti novamente torcendo para não me arrepender de fazer aquilo.