Minhas mãos buscaram com pressa os botões de sua blusa enquanto ela subia as escadas tentando não fazer muito barulho mas falhando miseravelmente, seus lábios percorriam meu pescoço me causando suspiros e arrepios.
- Alice você... - ela tentou sussurrar algo porém bateu as costas na porta de seu quarto. - O Theo vai acordar assim. - ela me segurou com um braço só e com a mão livre abriu a porta de seu quarto adentrando ele comigo. - Você quer...
- Não faz perguntas! - a repreendi bruscamente temendo que eu pudesse me arrepender de fazer aquilo se pensasse muito.
E meu corpo estava implorando pelo dela, minha boca não queria desgrudar da sua e eu queria fazer tudo menos pensar no que realmente estava fazendo.
Voltei a beijá-la para que ela se calasse, senti meu corpo ser colocado na sua cama enquanto ela deitava-se por cima encaixando-se no meio das minhas pernas com tanta perfeição que eu automaticamente entrelacei minhas pernas a sua cintura.
Sophia se afastou um pouco segurando a barra da minha blusa, ela me olhou como se pedisse permissão para tirá-la, eu sequer estava pensando em nada, só desejava tê-la o mais perto possível, erguendo meus braços ela removeu aquela peça de roupa, levei minha mão a sua nuca querendo continuar o beijo delicioso e intenso mas ao ver o seu olhar sobre meu corpo eu me dei conta de como fazer aquilo havia sido um erro.
Por um instante eu esqueci de que não era alguém normal com uma vida comum, por um mísero e maldito instante eu esqueci que as tinha.
- Alice, o que aconteceu com você? - senti seus dedos tocarem uma de minhas cicatrizes na costela com delicadeza mas aquilo só me deixou ainda mais desconfortável, me levantei rapidamente a empurrando para que saisse de cima de mim.
Andei rapidamente até o outro lado do quarto depois de não achar minha blusa, encarei suas mãos vendo que estava ali, envolvendo meu corpo com meus braços respirei fundo desejando sumir dali o mais rápido possível.
- Não... não... - ela tentou se aproximar porém recuei mais ainda me encostando na parede gélida.- Eu sinto muito, eu não queria... - ela estava tentando dizer algo porém eu só conseguia pensar em como parecia extremamente difícil respirar.
Eu não queria que ela me visse daquele modo, não queria seu olhar de pena e nem que pensasse que eu era uma coitadinha fracassada.
Eu não queria que ela pensasse que eu mereci aquilo, que eu tinha um corpo feio e marcado ou que não sorrisse mais para mim quando me olhasse pois na verdade tinha repulsa ou desprezo.
Sinceramente eu não sei o por que me importava tanto com o que a Sophia estava pensando a meu respeito, eu não entendia de onde aqueles pensamentos embaralhados estavam vindo e muito menos podia esperar que a ruiva agisse de modo diferente do que agia no colegial.
Me sentei no chão encolhendo-me o máximo que podia, abaixei minha cabeça a repousando sobre meu joelho, eu só queria que aquilo acabasse logo.
- Ei... - senti algo tocar no dedo da minha mão. - Eu estou aqui com você, tá bom!? - a ouvir dizer baixinho, eu não precisava erguer minha cabeça para saber que ela estava sentada na minha frente segurando meu dedo. - Eu imagino que esteja assim por causa do que eu vi... - ela começou a falar de maneira cuidadosa após alguns instantes em silêncio. - Eu posso fechar meus olhos, não porque não quero vê-la pois isso é tudo o que eu mais quero, mas para que se sinta confortável. - ergui um pouquinho minha cabeça, apenas o suficiente para vê-la de olhos fechados parada há poucos centímetros de mim. - As vezes eu tenho ataques de pânico também... - ela continuou a falar permanecendo de olhos fechados. - Eu entendo que deve estar se sentindo sufocada e perdida, se servir de alguma coisa, você pode segurar minha mão. - a vi estender sua mão no ar, a encarei por alguns segundos antes de tocar nela lentamente.
Ficamos assim por alguns minutos, a Sophia não abriu os olhos em nenhum momento e nem soltou sua mão que segurava meu dedinho ou a que tocava a minha mão.
- Por um segundo, esqueci que as tinha, eu estava tão envolvida que eu acabei esquecendo delas. - confessei baixinho suspirando em seguida. - Eu sou uma bagunça, eu sinto muito, não deveria ter te beijado ou feito você me trazer aqui para que nós... Sabe!? - mordi o lábio inferior envergonhada.
- Eu não me importo que seja uma bagunça, na verdade, acho que eu gosto de você justamente por você ser exatamente como é. - desviei meu olhar do seu rosto me sentindo culpada pela primeira vez por estar mentindo para ela. - Eu posso abrir os olhos agora?
Até então eu não me importava de mentir e enganá-la, mas as vezes sentimentos estranhos me confundiam e agora me sinto culpada.
- Não! - falei rapidamente cobrindo seus olhos com a mão ao vê-la abrir um deles lentamente. - Eu prefiro assim.
- Tudo bem, Alice - ela sorriu compreensiva. - Você quer me contar o que aconteceu com você? - pensei por uns instantes se poderia ou não fazer aquilo.
A Sophia que eu conheci sempre sujava minhas roupas largas que eu usava para encobrir meus hematomas, era como se ela soubesse que eu estava tendo um dia r**m e quisesse piorá-lo, mas essa memória não combinava nem um pouco com aquela Sophia sentada no chão do seu quarto há minutos segurando meu dedinho de olhos fechados para que eu não tenha mais um ataque de pânico, eu poderia estar sendo enganada, ou ela realmente mudou.
- São marcas de cigarros, alguns de fios, de chicote... - falei baixinho enquanto removia a mão dos seus olhos, se eu ia mesmo falar do meu passado eu precisava fazer aquilo olhando nos seus olhos para ver se havia sinceridade neles e ausência de pena. - Eu não era muito obediente... - dei um sorriso triste. - na verdade, eu era bastante teimosa e estava sempre criando uma maneira de escapar, mas como pode ver, nem sempre eu conseguia. - Sophia abaixou seus olhos para uma das minhas cicatrizes um pouco abaixo do sutiã.
- Tudo bem se eu...- assenti com a cabeça meio receosa ao ver sua mão indo em direção ao meu corpo, senti a ponta dos seus dedos traçando a cicatriz com tanto carinho e delicadeza. - Eu sinto muito que isso tenha acontecido com você.
Esperei que ela me olhasse com pena ou nojo, mas isso não aconteceu, ela permaneceu ali sentada na minha frente me olhando com tanto carinho, como se eu fosse importante, eu não sabia como reagir a isso, afinal ninguém nunca me olhou daquela forma antes.
- Eu nunca fiz isso antes. - falei sendo sincera, eu não poderia ser honesta sobre tudo mas talvez sobre aquilo sim. - Eu nunca me relacionei com alguém.
- Com uma mulher? - ela questionou me parecendo confusa. - Você nunca namorou uma mulher?
- Com qualquer pessoa. - abaixei meus olhos envergonhada por estar contando aquilo. - Eu nunca estive com ninguém, nunca beijei ou fui a encontros.
Parecia até irreal uma pessoa com mais de 25 anos nunca ter se relacionado com ninguém, mas esta era a verdade.
- Ei... - ela ergueu meu rosto com suas mãos me fazendo olhá-la. - Então, eu fico feliz em ser a primeira. - ela sorriu de um jeito tão adorável que me fez sorrir também.
Se aproximando lentamente ela encostou seus lábios nos meus suavemente.
- Não precisamos fazer nada que não queira. - Sophia murmurou ainda sorrindo. - Podemos ir devagar. - senti seus lábios tocar aos meus novamente.
Ela se levantou do chão estendendo sua mão para que eu me levantasse também, prontamente aceitei sua mão cruzando meus braços a frente do meu corpo em seguida para cobrir o máximo possível da minha barriga ainda envergonhada.
- Você quer dormir aqui hoje? - ela perguntou meio insegura, arqueei a sobracelha me perguntando se dormir com ela era sua idealização de devagar. - Não quis dizer desse modo, era só dormir mesmo. - Sophia falou rapidamente tentando corrigir o que disse mas apenas deixei um sorriso escapar assentindo que sim.
Peguei minha blusa sobre a sua cama a vestindo novamente, ela se deitou numa ponta e eu deitei na outra.
- Eu não sabia que sua irmã era detetive, e que seu pai era policial.. - senti a tensão retornar ao meu corpo ao ouvir aquilo. - Eu falei algo errado?
- Não. - murmurei baixinho sorrindo para disfarçar. - A Alison te disse alguma coisa?
- Ela apenas me chamou para trabalhar num caso com ela, não sabia que havia falado de mim. - ela me deu um sorriso enquanto cutucava minha barriga levemente. - Então já estamos assim, contando para os outros? - revirei os olhos virando-me de costas para ela. - Saiba que eu também falei com umas amigas minhas. - senti seu braço envolver meu corpo lentamente ao passo que seu rosto encaixava-se na curva do meu pescoço formando uma perfeita conchinha.
- O que você disse? - perguntei tentando fingir que não estava curiosa, passando minha mão por seu braço entrelacei nossos dedos deixando nossas mãos unidas contra o meu peito.
- Nada demais. - ela murmurou baixinho contra minha pele. - Apenas disse que eu adoro o seu sorriso, adoro seu jeitinho e como você me faz sentir. - engoli a seco ao ouvir sua declaração.
Nunca achei que em tão pouco tempo ela estaria tão envolvida, mas o pior é que eu não achei que me sentiria m*l por estar a enganando.
- Eu preciso tomar um banho, você me espera? - assenti com a cabeça sentindo-a se desvencilhar.
Sophia saiu do quarto me deixando ali sozinha com meus próprios pensamentos que não eram nem um pouco agradáveis.
Talvez se eu desistisse naquele momento e lhe contasse a verdade ela entenderia que o Charlie não precisa mais ficar com ela já que ele tem a mim, ou, ela usaria o fato de ser policial para me incriminar por qualquer coisa que me enfie na prisão por mais uma década e eu nunca mais verei meu filho.
Eu não poderia me dá o luxo de perdê-lo, mas eu também não queria magoá-la daquela forma.
O plano era perfeito antes, o problema é que agora o remorso de ferir os sentimentos da Sophia estava se tornando algo grande.
Me levantei da cama cuidadosamente, sai do quarto indo até a porta do banheiro checar que ela estava realmente no banho, depois fui até o quarto do Charlie, abri a porta devagar vendo-o deitado na cama dormindo, eu queria muito me aproximar e abraçá-lo mas era muito arriscado e eu precisava usar aquele tempo para fazer algo importante.
Descendo as escadas rapidamente atravessei a sala indo em direção ao escritório da Sophia, ligando a lanterna do meu celular vasculhei os papéis sobre sua mesa em busca de algum envelope do hospital, não demorou muito até que eu encontrasse o resultado de um exame.
- Droga. - murmurei ao perceber pelas poucas palavras que eu pude compreender que o Charlie estava anêmico e tinha uma condição genética rara no sangue. - Não. - engoli a seco não querendo acreditar naquilo. - Eu deixei você doente meu amor? - me perguntei continuando a ler aquelas palavras que eram estranhas para mim.
Abri a câmera do meu celular fotogrando os papéis, os coloquei de volta no lugar procurando por mais alguma coisa que me ajudasse a entender melhor o que o Charlie tinha.
Eu sempre soube que ele poderia vir a ter algum problema de saúde pois além de ser fruto de uma relação incestuosa, eu tinha uma condição sanguínea rara e durante toda a gestação eu não fiz o acompanhamento devido com médicos por estar presa.
Pela primeira vez eu estava me perguntando se eu era realmente boa o bastante para ser a sua mãe.