- Vamos repassar isso... - suspirei alto ao ouvir a Maddie dizer aquilo. - Como tudo deu errado?
- Eu prestei atenção em todos os sinais, ela olhou pra minha boca, estava sorrindo, tocou meu braço e se aproximou de mim. - enumerei todas as minhas observações frustrada enquanto me afundava no sofá. - Eu achei que ela queria ser beijada.
- Certo, tem bastante sinais de que ela queria ser beijada, mas me diz... Onde vocês estavam? Era um encontro em um lugar legal ou estavam só conversando no sofá da sua casa? - revirei os olhos ouvindo a voz da Olívia ao fundo da ligação. - Calma amor, a Sophia está me contando sobre o quase beijo.
- Estávamos no hospital, nos encontramos lá por acaso. - respondi a sua pergunta aguardando que ela me explicasse o por que deu errado porque eu particularmente não fazia ideia do motivo.
- Sério ruiva? - franzi a testa confusa com sua pergunta cética. - Você queria beijar ela num hospital? - me afundei ainda mais no sofá chateada notando onde errei. - Por que não a chama para um encontro e aí você a beija?
- Já pensou que ela recuou porque na verdade não gosta de mim assim? - questionei num sussurro ao notar que alguém se aproximava.
- Espero que essa ligação seja sobre o caso. - dei um sorriso sem graça ao ver meu chefe parado na porta do meu escritório. - Venha conhecer a nova detetive da divisão.
- Maddie, eu te ligo depois. - murmurei desligando antes mesmo que ela pudesse falar algo.
Me levantei do sofá ajeitando minha farda para estar o mais apresentável possível, há anos não tínhamos uma detetive na divisão, era tudo dominado por homens e eu estava ansiosa para ter outra figura feminina por aquele lugar.
Sai do meu escritório caminhando até a sala de reuniões, passei entre os homens tomando um lugar ao fundo, fiz minha melhor cara de séria para disfarçar a minha ansiedade em conhecê-la.
- Pessoal... - Ryan pronunciou atraindo a atenção de todos. - Como chefe de vocês é com prazer que anuncio a mais nova adição a divisão de homicídios... - ele estendeu sua mão apontando para a morena alta que entrou e parou ao seu lado. - Esta é a detetive Alison Griffin.
- Não sou boa com as palavras, mas gostaria de dizer que fico feliz em me tornar detetive e trabalhar com os mesmos que serviram ao lado do meu pai. - ela sorria de um jeito muito forçado para quem dizia estar feliz. - Fiquem de olhos abertos, pois eu não deixo nada passar. - após dizer aquilo tudo de maneira irônica ela piscou para um dos policiais, logo em seguida seus olhos correram por todos ali até me avistar. - Quero a ruiva no meu time. - ela comunicou saindo da sala deixando meu chefe perplexo com suas poucas e objetivas palavras.
Sai dali a procura da morena, não precisei ir muito longe para encontrá-la parada na porta do meu escritório.
- Como uma policial tem um escritório somente para si? - ela questionou me encarando.
- Estou aqui há muitos anos, quando mudei para os serviços burocráticos ganhei uma sala para mim. - endireitei minha postura tentando não ficar nervosa, ela entrou e sentou na minha cadeira passando a remexer no meu computador.
- Você sabe quem eu sou? - ela desviou os olhos da tela me encarando.
- Você é a Alison Griffin, se tornou detetive no último mês mas desde seu primeiro ano como policial você..
- Você fez o dever de casa ruiva. - ela me interrompeu sorrindo como se o que eu tivesse falado já fosse suficiente. - Mas não era isso que eu estava perguntando. - mordi o lábio inferior não sabendo o que responder. - Eu sou a irmã mais velha da Alice. - abri a boca incrédula com sua declaração.
Tudo bem que elas tinham traços super parecidos mas mesmo assim não associei.
- Ela ficará feliz em saber que vamos trabalhar juntas. - sorri assentindo com a cabeça, era tão bom conhecer alguém próximo da Alice, mesmo que não fosse assim que eu queria conhecer sua família. - Eu trouxe um caso pessoal para que resolvamos, e seremos só eu e você nisso.
- Claro Alison, vou adorar trabalhar com você. - me aproximei da mesa para ver o que ela havia digitado no meu computador. - Que caso será? - perguntei contendo a minha emoção em finalmente ter uma parceira de casos.
- A justiça cometeu um erro, manteve presa uma adolescente de 17 anos sob a acusação de tortura e homicídio em uma prisão de segurança média sem direito a julgamento ou apelação. - franzi o cenho buscando o nome do réu nas informações mas não havia nenhum, estava simplesmente apagado.
- Certo, você quer investigar para provar que ela não cometeu o crime? - perguntei tentando entender seu raciocínio porém ela negou com a cabeça mantendo seus olhos fixos nas informações do computador com um olhar extremamente triste.
- Ela cometeu o crime, e isso foi há dez anos, não há mais provas substanciais. - a encarei confusa tentando entender como proceder diante daquele caso visto que a acusada era realmente culpada.
- Então você... - deixei a frase no ar esperando que ela completasse e me desse alguma luz.
- Quero que leia minuciosamente isto, que viva ele, você não pode respirar nada além desse caso, e então encontre uma forma de indenizarmos a ré e quero que encontre a mãe dela para que seja condenada por cúmplice em abuso infantil. - assenti em concordância me sentindo honrada por ela confiar em mim para fazer aquilo mesmo que eu não soubessea razão para ter sido escolhida já que eu estava praticamente inoperante apenas preenchendo relatórios. - Outra coisa, o nome da acusada é confidencial e você não pode compartilhar isso com ninguém.
Eu quis perguntar o por que era confidencial e como eu contaria a alguém o nome que nem eu sabia mas ela se levantou e foi embora.
Quando me vi sozinha novamente me sentei na cadeira pegando o meu celular, procurei pelo contato da Alice lhe contando a novidade, não demorou nem dois segundos para que ela respondesse.
"Alice Griffin: Como assim você e a minha irmã vão trabalhar juntas???
O que ela te falou??"
Sorri imaginando que ela deveria estar apreensiva com medo de que a Alison me falasse seus podres da adolescência como os namoradinhos ou defeitos, m*l sabia ela que eu não me importava com nada disso.
Ao ver meu chefe passar pela minha porta guardei o celular rapidamente voltando ao trabalho, guardei meus relatórios antigos na gaveta indo em busca do caso que a Alison havia me entregado, mergulhei de cabeça naquilo lendo cada parte do processo de sua prisão.
Mal me dei conta que o meu turno havia acabado até ver o Ryan bater na minha porta chamando a minha atenção.
- Hastings. - ele murmurou adentrando. - O que a Alison fez com você? - ele questionou sorrindo. - Você nunca passou um turno inteiro quieta aqui dentro. - revirei os olhos sorrindo enquanto desligava o computador e me levantava da cadeira que deixava minhas costas doloridas.
- Ela me deu um caso novo. - me limitei a dizer enquanto entrelaçava meu braço ao seu para descansar um pouco meu corpo sobre o seu.
- O Theo deve estar com a babá, vamos tomar um drink para relaxar? - eu queria muito ir para casa abraçar o meu filhote mas sabia que precisava muito de uma bebida para terminar aquele dia bem.
As palavras do caso e cada acontecimento estavam rondando a minha mente, eu não costumava me sensibilizar com os casos pois é um erro de principiante mas aquele caso em particular mexia comigo, talvez porque era só uma criança ou porque tudo que aconteceu a ela foi culpa das pessoas que deveriam mais amá-la no mundo.
- Se você pagar, eu topo. - ele sorriu assentindo enquanto me guiava para fora da delegacia, andamos pela calçada juntos em um silêncio confortável.
Eu e o Ryan não éramos muito próximos, mas visto que trabalhamos em muitos casos juntos acabamos criando o hábito de beber sempre que estávamos cansados.
Assim que chegamos ao bar que ficava próximo pegamos uma mesa no canto como de costume.
- Noite silenciosa ou quer desabafar? - ele perguntou se sentando ao meu lado.
- Não quero te encher com os meus problemas. - murmurei baixinho meio sem jeito, ele tocou a minha mão me fazendo olhá-lo, havia um sorriso terno em seu rosto, coisa que sempre me fazia desabafar por horas.
Ryan sempre sabe o que dizer, mesmo que muitas vezes não falasse nada, era muito importante pra mim ter aqueles momentos com ele pois sempre tornavam meus dias de trabalho mais leves.
- Estou atrapalhando? - olhei para cima encontrando a Alice parada em nossa frente com uma expressão nada agradável, acompanhei seu olhar que se mantinha fixo na mão do Ryan sobre a minha.
- Eu vou querer um whisky e a Sophia vai querer tequila. - Ryan murmurou já sabendo o que eu gostava enquanto tirava sua mão da minha para passar seu braço em torno do meu corpo me apertando um pouco. - Essa garota aqui precisa se divertir. - engoli a seco sentindo que ele estava piorando as coisas.
- Alice, eu não...
- Trago num minuto. - ela me cortou bruscamente e depois se retirou.
- Vocês se conhecem? - ele perguntou se afastando um pouco de mim parecendo finalmente se dar conta de que a Alice não gostou muito dele.
- Bom... - murmurei tentando pensar no que falar. - Meio que saímos juntas, ou algo assim.
- Ou algo assim? - ele indagou rindo, mordi o lábio inferior dando de ombros envergonhada.
- Eu gosto dela, mas não sei se ela sente algo por mim. - confessei baixinho encarando meus dedos sobre a mesa, parecia extremamente bobo dizer aquilo.
- Como assim não sabe, Hastings? - ele parecia incrédulo assim como a Maddie ficava quando eu falava da Alice ser indecisa.- Aquela morena baixinha quase arrancou meus cardaços e me enforcou só por estar tocando em você. - revirei os olhos para seu exagero irreal. - Ela gosta de você, e é muito ciumenta.
- Você está imaginando coisas. - debochei o empurrando levemente com meu ombro. - Ela só deve está...
- Ela está vindo. - ele me interrompeu rapidamente, sem nem ter tempo de reagir senti sua mão tocar a minha bochecha me trazendo para perto de seu rosto.
- As bebidas. - me afastei ao ouvir o copo ser deixado com brutalidade, olhei para ela sentindo sua raiva exalando.
- Alice, você...
- Nunca mais fala comigo. - ela pronunciou furiosamente entredentes. - Quer dizer... - ela coçou a cabeça parecendo ter se arrependido de dizer aquilo. - E-Eu... - ela me olhou por um instante antes de suspirar alto. - Meu turno acabou, outra pessoa atenderá vocês. - e do mesmo jeito que veio a Alice se foi.
- Droga. - pegando a minha dose de tequila virei com tudo sentindo minha garganta queimar imediatamente.- Eu preciso ir, fico te devendo uma. - murmurei para o Ryan antes de sair correndo.
Assim que passei pela porta de saída encontrei a Alice andando a passos largos pela calçada caminhando daquele jeito não haveria concreto na calçada que resistisse intacta, corri para alcançá-la sabendo que ela não pararia.
- Ei. - falei segurando seu braço para fazê-la pará-la. - Alice.
- Por favor não seja tão cara de p*u! - dei um passo para trás erguendo minhas mãos em defesa temendo que ela pudesse me agredir ali mesmo.
- Eu não sabia que trabalhava lá. - murmurei calmamente dando outro passo para trás ao vê-la avançar furiosamente.
- E eu não sabia que você estava dando mole para um cara! - franzi a testa confusa, mordi o lábio inferior contendo a vontade de rir ao ver um ser tão baixinho extremamente furioso. - O que ele é seu?
- Meu chefe. - eu queria perguntar desde quando a devia satisfações mas preferi não arriscar e acabar apanhando. - Nós só estávamos tomando um drink...
- Assim como eu e você só tomamos vinho nos últimos dias? - ela estapeou meu braço com raiva porém ela não tinha muita força, facilmente poderia confundir aquilo com carinho. - Você é inacreditável!
- Eu sou lésbica. - expliquei vendo-a ficar quieta por um instante, segurei o riso apertando meus lábios. - E eu acho que nós não somos exclusivas não é!? - ela paralisou ao escutar aquilo, após alguns segundos passou a mão nos cabelos nervosamente.
A observei por alguns instantes, ela resmungava baixinho como se estivesse num impasse consigo mesma, novamente eu tinha a sensação de que ela estava lutando internamente outra vez sobre ser verdadeira ou mascarar as coisas, e eu só soube qual lado seu venceu quando a vi se aproximar de mim.
- É irritante a forma como eu não consigo odiar você. - franzi a testa confusa com a sua confissão aleatória.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa senti uma de suas mãos irem de encontro a minha nuca me puxando com força e ao mesmo tempo delicadamente para baixo, estávamos tão próximas que eu podia sentir seu coração acelerado batendo contra meu peito ou talvez fosse o meu que batia daquela maneira mas era difícil distinguir pois estávamos com os corpos muito colados, envolvendo minhas mãos em sua cintura olhei em seus olhos buscando a certeza de que poderia continuar aproximando lentamente da sua boca, fechei os olhos assim que sentir seus lábios se encaixarem nos meus com tanta perfeição que era até mesmo assustador.
Beijá-la era tão mágico que eu podia jurar naquele momento que unicórnios existiam.