Capítulo 8

2260 Words
Faziam alguns minutos que eu estava deitada naquela cama encarando as diversas mensagens que a Sophia havia mandado, em partes eu estava com vergonha por ter chorado em seu colo na noite anterior, mas também eu estava a evitando porque precisava encontrar o foco novamente. Que eu claramente havia perdido. Perto da Sophia muitas vezes eu esquecia a raiva que sentia por ela ou até mesmo que só estou me aproximando com o objetivo de ter o Charlie de volta, então até que eu pudesse me controlar melhor eu a evitaria. - Griffin! - olhei para a porta vendo minha irmã colocar a cabeça na fresta como se pedisse permissão para entrar, a ignorando retornei meus olhos para a tela do celular mas isso não foi suficiente para que ela me deixasse em paz. - Podemos conversar? - Não. - falei de modo rude desejando que ela fosse embora logo mas isso não aconteceu, na verdade ela adentrou o quarto em passos lentos. - Alice, eu queria conversar sobre o que aconteceu. - senti sua mão tocar a minha perna ao passo que ela se sentou na ponta da minha cama, me esquivando de seu contato larguei o celular me sentando na outra extremidade da cama. - Sobre o que aconteceu ontem, o que houve na cadeia ou o que aconteceu na nossa infância? - questionei irritada, ela abriu a boca para dizer algo mas nada saiu, assim como eu esperava. - Por favor, saia. Alison não era mais a mulher corajosa e forte que eu achava que fosse, na verdade com o tempo percebi que ela era como eu, e estaria tudo bem, se ela não fosse tão covarde. - Por que você foi presa, Alice? - olhei para sua mão que tentou alcançar a minha porém recuei novamente. - Eu não tenho medo de você e nem acho que é perigosa, só preciso saber o por que foi presa. - suspirei alto me levantando da cama perdendo a paciência que eu sequer tinha. Não fazia sentido algum me chamar para morar com ela e manter sua filha e marido distantes como se eu pudesse machucá-los, e já que eu não sou horrível pelo crime que cometi, por que ela parou de ir me visitar? - Por que isso é tão importante para você? - olhando no fundo de seus olhos esperei alguma resposta que pudesse me convencer de que minha própria irmã não me enxergava somente como uma criminosa. - Porque eu me culpo. - ela murmurou baixinho desviando seus olhos dos meus. - Eu não te protegi o suficiente ainda mais com a sua condição e por isso você terminou na prisão, eu não consigo conviver sabendo que a minha maninha chegou a esta situação por minha causa, a verdade é que eu tive medo que sentisse raiva ao conhecer a Hannah porque eu cuido dela como nunca cuidei de você. Eu queria muito manter a minha postura irredutível mas aquilo me quebrou de uma forma inexplicável, me sentei novamente na cama ficando a sua frente. - Eu me lembro que muitas vezes lhe encontrei na janela do seu quarto prestes a fugir, então quando você me via desistia de ir... - Eu retornava, e te abraçava até que dormisse. - ela deu um sorriso nostálgico porém em seus olhos havia tanta tristeza que era impossível não ficar triste também. - Você nunca foi embora por minha causa, deveria ter ido antes mas eu sempre te atrapalhei, se tivesse ido... - engoli a seco sentindo minha voz embargar, olhei para sua mão onde haviam cicatrizes de queimaduras feitas por bitucas de cigarro, eu sabia muito bem o que originou aquelas marcas pois eu tinha iguais nas coxas. - Eu não me arrependo de ter saído da janela e ficado contigo nenhuma das vezes, na verdade eu me sinto culpada por ter escolhido o bebê ao invés de continuar com você. - respirei fundo dando-lhe um sorriso compreensivo, eu não vou dizer que compreendi isso na época pois não foi o que aconteceu, mas agora as coisas eram diferentes, ouvir seus sentimentos davam mais clareza aos meus. Quando a Alison ficou grávida, o nosso pai queria que ela abortasse para que ninguém descobrisse o que ele fazia em seu quarto todas as noites, mas o feto já tinha 6 meses e ela não queria que isso acontecesse então fugiu, e me deixou para trás com dezesseis anos, na época eu não entendi o por que ela fez isso mas agora sendo mãe do Charlie eu sabia que faria qualquer coisa pelo bem dele. - Eu voltei para te buscar alguns meses depois, seria o seu presente de aniversário. - ela sorriu tristemente limpando rapidamente a lágrima que deslizou por sua bochecha sem querer. - Mas era tarde demais, você já havia sumido depois de... - Ter matado ele. - completei sua frase fazendo seus olhos arregalarem, Alison ficou perplexa me encarando sem piscar, duvidava muito que ela estivesse respirando normalmente. - Eu o matei, mas não consegui ir muito longe com aquela barriga. - olhei para minhas mãos sobre o meu colo, eu não queria ver a decepção em seus olhos. Respirei fundo para não começar a chorar mas era inevitável, minha garganta já estava começando a embargar e meus olhos queimavam. - Eu te amo Alice, e saber disso nunca mudará o que eu sinto por você. - senti sua mão tocar a minha carinhosamente. - Você é a única família que eu sempre tive, sinto muito por não cuidar melhor de você e ter deixado que ele te... - Ainda dói, eu queria muito esquecer isso, mas ainda dói. - a encarei por um instante antes de continuar. - O peso que carrego não é por ter matado nosso pai, é por ter te impedido de fugir quando pôde e ter arruinado sua vida, e ver você se afastar de mim quando estava presa me deixou com medo de que você me odiasse por isso. Eu sabia que a Alison não gostava do nosso pai e nem daquela casa horrível, mas mesmo assim eu sempre temi que ela me odiasse por tê-lo matado e destruído tudo. - Como eu posso odiar você? - ela perguntou como se não houvesse sentido naquele pensamento. - Você foi o meu anjo, me deu forças para nunca desistir de nada e me protegeu muitas vezes mesmo que nem faça ideia de que fez isso. Em um impulso me inclinei sobre ela envolvendo meus braços em seu pescoço de modo desajeitado a abraçando apertado, aquilo era tudo o que eu queria e precisa ouvir. - Podemos prometer que seremos honestas sobre tudo de agora em diante? - murmurei contra seus cabelos enquanto sentia seus braços apertarem meu corpo retribuindo o abraço na mesma intensidade. - Eu prometo. - senti um peso sair das minhas costas ao ouvir ela dizer aquilo. - Eu estou atrasada para ir ao hospital, quer ir comigo? - Claro. - falei enquanto me desvencilhava dela suavemente e secava a sua bochecha molhada com o polegar. - Saímos em 5 minutos. - Alison falou saindo do meu quarto. Me levantei da cama indo ajeitar meus cabelos no banheiro, assim que retornei coloquei meu celular e carteira no bolso da jaqueta e desci as escadas para encontrá-la. Entramos em seu carro e ela passou a dirigir em direção ao hospital que ficava próximo. - O que fará lá? - questionei enquanto mexia em seu rádio em busca de alguma música legal para ouvir durante o trajeto. - Consulta com uma obstetra. - arqueei a sobrancelha a encarando. - Robert e eu queremos ter a certeza de que eu não posso mais engravidar. - A Hannah então é... - Adotada. - ela forçou um sorriso. - Pelo visto somente você teve a sorte de ter o Charlie, a minha menina não sobreviveu. - toquei a sua coxa sem saber o que lhe dizer. - Mas me conta, o que você tem feito nos últimos dias, m*l fica em casa. - Nem você. - respondi automaticamente mas logo percebi o quão rude soou. - Eu só... - parei um instante pensando se deveria contar que tinha um plano para recuperar meu filho e isso envolvia flertar com a mãe adotiva dele. - Tenho conhecido a cidade. - Bom, eu posso te levar para jantar em algum dia desses, deve ter algum lugar bom por aqui. - ela estacionou o carro em frente ao hospital. Desci do carro me apressando em acompanhar seus passos, assim que adentramos o local olhei a volta, a última vez que estive ali foi para dar a luz ao Charlie, isso porque o hospital próximo a penitenciária não tinha o suporte devido. - Prometo não demorar. - Alison falou apontando para a cadeira na sala de espera, assenti com a cabeça indo me sentar. Estar de volta ali me causava sensações esquisitas, eu sempre odiei hospitais principalmente porque eu vivia neles, mas aquele dia foi diferente, eu estava ansiosa para conhecer o meu filho, mesmo que isso só durasse alguns segundos antes que ele fosse arrancado dos meus braços. Me aconcheguei na cadeira pronta para jogar algum joguinho até a Alison sair de sua consulta mas meus olhos se fixaram na figura que vinha caminhando pelo corredor. Carregando em seus braços de modo desajeitado o meu filho a Sophia parecia preocupada, sem nem pensar direito me levantei e passei a andar em sua direção rapidamente. - Sophia! - a chamei parando a sua frente mas meu olhar era direcionado a criança em seus braços que ainda tinha os olhos avermelhados como se tivesse chorado. - O que você está fazendo aqui? - Theo, vai buscar um pudim na cantina para mim? - ela o colocou no chão, o observei se afastar ainda me olhando, ele deu um sorriso antes de voltar a olhar para frente. - Oi Alice. - Por que ele estava chorando? - questionei sentindo meu coração acelerar. - O que houve com ele? - ela arqueou a sobrancelha confusa, respirei fundo tentando não parecer uma descontrolada. - Desculpe, eu só me preocupei... - sua expressão suavizou e ela sorriu compreensiva. - Obrigada pela preocupação. - senti sua mão tocar o meu braço. - O Theo está bem, só não gosta de agulhas. - assenti lentamente com a cabeça. - Também odeio. - murmurei baixinho. - Ele está bem mesmo? - Claro. - eu não estava nem um pouco convencida com aquela resposta, e foi ai que me lembrei do envelope que encontrei em seu escritório com exames inconclusivo. - Eu tive anemia quando criança, isso me rendeu muitas agulhadas, eu odiava hospitais... - falei tentando prolongar o assunto, obviamente ocultando a parte que entrei em desnutrição severa porque meu pai gastava seu dinheiro com cervejas e não com comida chegando a precisar de transfusão de sangue dele. - E o que está fazendo aqui? - ela perguntou cruzando os braços. - Além de ignorar minhas mensagens, é claro. - Eu? - levei a mão ao peito fingindo incredulidade. - Eu não estava te evitando. - Você fugiu da minha casa e depois não respondeu a nenhuma das minhas mensagens. - engoli a seco dando-lhe um sorriso sem graça logo depois. - Eu fiz algo errado? - neguei rapidamente tocando seus braços, ela encarou minhas mãos antes de voltar a me olhar. - Olha, se eu fiz algo que te chateou eu sinto muito. - a observei morder o lábio inferior parecendo nervosa. - De forma alguma, você foi um amor. - sorri para ela me aproximando mais um pouco. - Eu que sinto muito por ter me apavorado e fugido. - ela deixou um sorriso escapar parecendo mais aliviada, levei minha mão a sua em sinal de carinho querendo garantir que ela não tinha dúvidas daquilo. - Muito obrigada por ter cuidado de mim naquele dia. - sorri novamente a fazendo sorrir também. Senti sua mão se desvencilhar da minha e ir de encontro com a minha cintura fazendo nossos corpos ficarem ainda mais próximos, seus olhos alternavam entre os meus olhos e a meus lábios, quando percebi que ela estava lentamente se inclinando dei-me conta que ela pretendia me beijar. Droga! E agora? Eu não posso fazer isso, eu nem sei como beijar uma mulher! Eu sou hétero, não posso fazer isso, se bem que eu sempre quis saber se os lábios da Sophia são tão macios quanto parecem, talvez um beijo não seja tão horrível assim afinal... - Mãe? - empurrei bruscamente a Sophia sentindo meu coração parar por um segundo ao ouvir a voz do meu filho. - Eu... - ele alternou o olhar entre eu e ela. - Trouxe o pudim. - a vi sorrir constrangida pegando o doce da mão dele. - Preciso ir. - falei rapidamente saindo dali sem nem esperar uma resposta. - Alice, o que você estava... - Vamos embora. - agarrei o braço da Alison interrompendo suas palavras enquanto a puxava para fora do hospital rapidamente. - Calma aí. - ela se desvencilhou assim que chegamos perto do carro. - O que você estava fazendo perto da Sophia e do Theo? - engoli a seco sem saber como responder. - Droga Alice, não me diga que se apaixonou por ela de novo! De novo? Quando eu havia me apaixonado pela Sophia que eu não lembrava? Deixa pra lá, admitir isso era melhor do que contar a verdade. Assenti com a cabeça decretando a minha sentença da minha falsa paixão como a grande mentirosa que era.
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