A noite avançava devagar, como se o tempo também tivesse medo dele.
Eu ainda estava sentada na cama, com o rosto molhado de lágrimas, quando ouvi passos de novo. Passos lentos, firmes, medidos.
Leonardo.
O som parou do outro lado da porta.
Meu coração disparou.
Ele ficou ali, imóvel. Por longos segundos, nenhum dos dois disse nada.
Então a voz dele veio, baixa, controlada:
— Vai ficar trancada todas as noites?
Demorei a responder.
— Enquanto puder.
— E o que acha que vai ganhar com isso?
— Paz.
Um silêncio curto.
Depois, ouvi o som do metal — ele girava a maçaneta, mas encontrou a tranca.
— Eu poderia mandar arrombar essa porta, sabia?
— Então faça. É a sua especialidade.
Ouvi um leve riso.
— Você tem coragem. Isso é... interessante.
— Não. Isso é o mínimo que me restou.
Os passos se afastaram.
Quando percebi, estava prendendo o ar.
Deitei na cama, de costas pra porta, e me forcei a acreditar que ele não voltaria.
Mas minutos depois, a luz por baixo da porta se apagou.
E o som dos passos sumiu de vez.
No dia seguinte, o sol invadiu o quarto sem pedir licença.
Meu corpo estava cansado, mas a cabeça não parava.
A ideia de estar ali — na casa dele, com o nome dele, com o peso do que aconteceu — me deixava doente.
Troquei de roupa e desci pra sala.
A mansão parecia uma galeria de arte. Nenhum som, nenhum sinal de vida, exceto o eco dos meus próprios passos.
Quando cheguei à cozinha, uma funcionária arrumava a mesa.
— O senhor Valença pediu que o café fosse servido pra dois — disse ela, hesitante.
— Pode servir só pra um.
A porta se abriu atrás de mim antes que ela respondesse.
— Bom dia, esposa.
O som daquela palavra me atravessou como gelo.
Virei devagar.
Leonardo estava ali, de camisa branca dobrada nos antebraços, sem gravata, o cabelo levemente bagunçado. O tipo de imagem que qualquer mulher acharia bonita, se não soubesse o demônio que vinha junto.
— Não me chame assim.
— Assim como? — Ele pegou uma xícara de café e bebeu calmamente. — É o que você é, não?
— Sou a mulher que o senhor comprou.
— E pelo visto, uma mulher que fala demais.
— Melhor do que viver calada ao lado de um homem que acha que pode tudo.
Ele pousou a xícara com calma e se aproximou.
Cada passo era uma ameaça silenciosa.
— Acha que me provocar vai ajudar?
— Acha que me intimidar vai funcionar?
Ele parou a poucos centímetros.
— Você me subestima.
— E o senhor se superestima.
Por um instante, os olhos dele brilharam — um desafio.
— Está com fome?
— Estou enjoada.
— Talvez porque ainda não entendeu que isso não é um cativeiro.
— Parece.
— Não é. — Ele se inclinou levemente, a voz mais baixa. — É um lar.
Ri sem humor.
— Um lar não tem grades invisíveis.
— As únicas grades aqui estão na sua cabeça.
— E quem colocou elas lá foi o senhor.
Por um segundo, o silêncio entre nós ficou pesado.
Eu vi o maxilar dele travar, como se estivesse se segurando pra não dizer algo.
Ele se afastou, pegando o paletó.
— Estarei no escritório. Hoje à noite teremos um jantar com diretores. Quero que esteja presente.
— Não vou.
— Vai. — Disse sem olhar pra mim. — Aprenda a obedecer, Isabella. Vai tornar as coisas menos difíceis.
— Não sou uma funcionária da sua empresa.
— Não. É a minha esposa. E isso te coloca num nível de responsabilidade bem maior.
Ele saiu, e o silêncio voltou a dominar o espaço.
Mas algo dentro de mim ainda vibrava.
Raiva, medo... e algo que eu não queria nomear.
O dia passou arrastado.
Tentei ocupar o tempo andando pela mansão, mas cada corredor parecia igual.
Frio, branco, vazio.
Nenhum quadro era bonito o bastante pra esconder o vazio que morava ali.
Em certo momento, encontrei uma sala de piano.
Aproximei-me, toquei levemente uma tecla. O som soou limpo, triste.
Toquei outra.
E outra.
Até que percebi o reflexo dele no vidro da janela.
— Então sabe tocar.
Virei rápido.
Leonardo estava na porta, observando.
— Não sabia que havia regras sobre isso também.
— Não há. Mas é curioso. — Ele deu alguns passos, o olhar fixo em mim. — Minha mãe tocava.
Aquilo me pegou desprevenida.
— Sua mãe?
— Morreu há muito tempo. — O tom dele mudou, quase imperceptivelmente. — Eu era garoto.
Houve silêncio. Pela primeira vez, ele parecia... humano.
Mas durou pouco.
Ele voltou ao tom habitual.
— O jantar é às oito. Não se atrase.
E saiu.
O relógio marcava oito e cinco quando entrei na sala de jantar.
Ele já estava à mesa, impecável, mexendo no celular.
Levantou os olhos quando me viu.
— Atrasada.
— Não sou funcionária pra bater ponto.
— É esposa. E pontualidade é questão de respeito.
— Respeito não se exige. Se conquista.
Os olhos dele se estreitaram.
— Sente-se.
— Prefiro comer sozinha.
— Prefira o que quiser. Mas hoje, vai comer comigo.
Havia algo na voz dele que não permitia discussão.
Sentei.
A comida estava perfeita. E sem gosto nenhum.
Ele comia devagar, observando cada movimento meu.
— Acha que consegue continuar me desafiando por muito tempo?
— O senhor me forçou a um casamento. O que mais pode fazer?
— Muito mais.
— Como o quê? Me trancar em outro quarto?
— Talvez. Ou talvez eu apenas te mostre o que acontece quando alguém tenta brincar comigo.
— Não sou um brinquedo.
— Ainda bem. Brinquedos quebram fácil.
O ar entre nós ficou tenso, quase palpável.
Ele colocou o copo sobre a mesa e se inclinou um pouco.
— Sabe o que mais me irrita em você, Isabella?
— Imagino que minha existência.
— O fato de ainda olhar nos meus olhos quando fala comigo.
— Prefere que eu abaixe a cabeça?
— Prefiro que entenda seu lugar.
— Eu entendo. — Levantei-me. — E o meu lugar não é aqui.
Ele também se levantou, devagar.
— Vai fugir de novo?
— Não estou fugindo. Estou respirando.
— Então respire onde eu puder te ver.
— Não confunda posse com proteção, senhor Valença.
— Estou apenas garantindo que cumpra o acordo.
— Acha mesmo que me manter presa aqui vai apagar o que sente?
— O que sinto? — Ele riu, sem humor. — Eu não sinto nada, Isabella.
— Minta melhor da próxima vez.
Por um instante, o olhar dele se desviou. E foi ali que eu percebi:
por trás de toda aquela arrogância, havia rachaduras.
Pequenas, quase invisíveis.
Mas reais.
Ele desviou o olhar e pegou o paletó.
— Boa noite.
— Boa noite, senhor Valença.
Quando ele saiu, minhas mãos ainda tremiam.
Não de medo. Mas de algo que eu não queria admitir.
Voltei pro quarto e tranquei a porta.
Olhei o reflexo no espelho e vi uma mulher diferente.
Cansada, ferida, mas ainda de pé.
Tirei o anel, o coloquei sobre a penteadeira e disse, em voz baixa:
— Pode ter comprado meu nome. Mas não tem o direito de comprar minha alma.
Apaguei a luz, deitei e encarei o teto.
Lá embaixo, ouvi o som distante de passos.
Ele ainda estava acordado.
E, de algum modo, eu sabia que pensava em mim tanto quanto eu tentava não pensar nele.
A primeira noite terminou assim: dois estranhos sob o mesmo teto, cercados por um silêncio que era mais perigoso do que qualquer palavra.