A Primeira Noite: Dois Estranhos

1273 Words
A noite avançava devagar, como se o tempo também tivesse medo dele. Eu ainda estava sentada na cama, com o rosto molhado de lágrimas, quando ouvi passos de novo. Passos lentos, firmes, medidos. Leonardo. O som parou do outro lado da porta. Meu coração disparou. Ele ficou ali, imóvel. Por longos segundos, nenhum dos dois disse nada. Então a voz dele veio, baixa, controlada: — Vai ficar trancada todas as noites? Demorei a responder. — Enquanto puder. — E o que acha que vai ganhar com isso? — Paz. Um silêncio curto. Depois, ouvi o som do metal — ele girava a maçaneta, mas encontrou a tranca. — Eu poderia mandar arrombar essa porta, sabia? — Então faça. É a sua especialidade. Ouvi um leve riso. — Você tem coragem. Isso é... interessante. — Não. Isso é o mínimo que me restou. Os passos se afastaram. Quando percebi, estava prendendo o ar. Deitei na cama, de costas pra porta, e me forcei a acreditar que ele não voltaria. Mas minutos depois, a luz por baixo da porta se apagou. E o som dos passos sumiu de vez. No dia seguinte, o sol invadiu o quarto sem pedir licença. Meu corpo estava cansado, mas a cabeça não parava. A ideia de estar ali — na casa dele, com o nome dele, com o peso do que aconteceu — me deixava doente. Troquei de roupa e desci pra sala. A mansão parecia uma galeria de arte. Nenhum som, nenhum sinal de vida, exceto o eco dos meus próprios passos. Quando cheguei à cozinha, uma funcionária arrumava a mesa. — O senhor Valença pediu que o café fosse servido pra dois — disse ela, hesitante. — Pode servir só pra um. A porta se abriu atrás de mim antes que ela respondesse. — Bom dia, esposa. O som daquela palavra me atravessou como gelo. Virei devagar. Leonardo estava ali, de camisa branca dobrada nos antebraços, sem gravata, o cabelo levemente bagunçado. O tipo de imagem que qualquer mulher acharia bonita, se não soubesse o demônio que vinha junto. — Não me chame assim. — Assim como? — Ele pegou uma xícara de café e bebeu calmamente. — É o que você é, não? — Sou a mulher que o senhor comprou. — E pelo visto, uma mulher que fala demais. — Melhor do que viver calada ao lado de um homem que acha que pode tudo. Ele pousou a xícara com calma e se aproximou. Cada passo era uma ameaça silenciosa. — Acha que me provocar vai ajudar? — Acha que me intimidar vai funcionar? Ele parou a poucos centímetros. — Você me subestima. — E o senhor se superestima. Por um instante, os olhos dele brilharam — um desafio. — Está com fome? — Estou enjoada. — Talvez porque ainda não entendeu que isso não é um cativeiro. — Parece. — Não é. — Ele se inclinou levemente, a voz mais baixa. — É um lar. Ri sem humor. — Um lar não tem grades invisíveis. — As únicas grades aqui estão na sua cabeça. — E quem colocou elas lá foi o senhor. Por um segundo, o silêncio entre nós ficou pesado. Eu vi o maxilar dele travar, como se estivesse se segurando pra não dizer algo. Ele se afastou, pegando o paletó. — Estarei no escritório. Hoje à noite teremos um jantar com diretores. Quero que esteja presente. — Não vou. — Vai. — Disse sem olhar pra mim. — Aprenda a obedecer, Isabella. Vai tornar as coisas menos difíceis. — Não sou uma funcionária da sua empresa. — Não. É a minha esposa. E isso te coloca num nível de responsabilidade bem maior. Ele saiu, e o silêncio voltou a dominar o espaço. Mas algo dentro de mim ainda vibrava. Raiva, medo... e algo que eu não queria nomear. O dia passou arrastado. Tentei ocupar o tempo andando pela mansão, mas cada corredor parecia igual. Frio, branco, vazio. Nenhum quadro era bonito o bastante pra esconder o vazio que morava ali. Em certo momento, encontrei uma sala de piano. Aproximei-me, toquei levemente uma tecla. O som soou limpo, triste. Toquei outra. E outra. Até que percebi o reflexo dele no vidro da janela. — Então sabe tocar. Virei rápido. Leonardo estava na porta, observando. — Não sabia que havia regras sobre isso também. — Não há. Mas é curioso. — Ele deu alguns passos, o olhar fixo em mim. — Minha mãe tocava. Aquilo me pegou desprevenida. — Sua mãe? — Morreu há muito tempo. — O tom dele mudou, quase imperceptivelmente. — Eu era garoto. Houve silêncio. Pela primeira vez, ele parecia... humano. Mas durou pouco. Ele voltou ao tom habitual. — O jantar é às oito. Não se atrase. E saiu. O relógio marcava oito e cinco quando entrei na sala de jantar. Ele já estava à mesa, impecável, mexendo no celular. Levantou os olhos quando me viu. — Atrasada. — Não sou funcionária pra bater ponto. — É esposa. E pontualidade é questão de respeito. — Respeito não se exige. Se conquista. Os olhos dele se estreitaram. — Sente-se. — Prefiro comer sozinha. — Prefira o que quiser. Mas hoje, vai comer comigo. Havia algo na voz dele que não permitia discussão. Sentei. A comida estava perfeita. E sem gosto nenhum. Ele comia devagar, observando cada movimento meu. — Acha que consegue continuar me desafiando por muito tempo? — O senhor me forçou a um casamento. O que mais pode fazer? — Muito mais. — Como o quê? Me trancar em outro quarto? — Talvez. Ou talvez eu apenas te mostre o que acontece quando alguém tenta brincar comigo. — Não sou um brinquedo. — Ainda bem. Brinquedos quebram fácil. O ar entre nós ficou tenso, quase palpável. Ele colocou o copo sobre a mesa e se inclinou um pouco. — Sabe o que mais me irrita em você, Isabella? — Imagino que minha existência. — O fato de ainda olhar nos meus olhos quando fala comigo. — Prefere que eu abaixe a cabeça? — Prefiro que entenda seu lugar. — Eu entendo. — Levantei-me. — E o meu lugar não é aqui. Ele também se levantou, devagar. — Vai fugir de novo? — Não estou fugindo. Estou respirando. — Então respire onde eu puder te ver. — Não confunda posse com proteção, senhor Valença. — Estou apenas garantindo que cumpra o acordo. — Acha mesmo que me manter presa aqui vai apagar o que sente? — O que sinto? — Ele riu, sem humor. — Eu não sinto nada, Isabella. — Minta melhor da próxima vez. Por um instante, o olhar dele se desviou. E foi ali que eu percebi: por trás de toda aquela arrogância, havia rachaduras. Pequenas, quase invisíveis. Mas reais. Ele desviou o olhar e pegou o paletó. — Boa noite. — Boa noite, senhor Valença. Quando ele saiu, minhas mãos ainda tremiam. Não de medo. Mas de algo que eu não queria admitir. Voltei pro quarto e tranquei a porta. Olhei o reflexo no espelho e vi uma mulher diferente. Cansada, ferida, mas ainda de pé. Tirei o anel, o coloquei sobre a penteadeira e disse, em voz baixa: — Pode ter comprado meu nome. Mas não tem o direito de comprar minha alma. Apaguei a luz, deitei e encarei o teto. Lá embaixo, ouvi o som distante de passos. Ele ainda estava acordado. E, de algum modo, eu sabia que pensava em mim tanto quanto eu tentava não pensar nele. A primeira noite terminou assim: dois estranhos sob o mesmo teto, cercados por um silêncio que era mais perigoso do que qualquer palavra.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD