A Mansão Valença

1324 Words
Acordei com o barulho distante de vozes no andar de baixo. Por um instante, demorei a lembrar onde estava. As cortinas abertas deixavam a luz invadir o quarto, iluminando o vestido jogado no chão, o anel sobre a penteadeira e a realidade que eu queria esquecer. Levantei devagar, os pés descalços encontrando o frio do mármore. A mansão Valença. Meu novo lar — ou melhor, meu novo cativeiro de luxo. Abri a janela. O jardim era tão perfeito que parecia pintado. Havia uma fonte no centro, esculturas de mármore e fileiras de flores brancas, todas alinhadas como soldados. Nenhuma pétala fora do lugar. Nenhum sinal de vida. E foi aí que percebi: o perfeccionismo daquela casa era o reflexo dele. Tudo em ordem. Tudo controlado. Inclusive as pessoas. Bati os olhos no relógio: 9h15. Eu deveria estar na faculdade, tomando café com meus colegas, rindo, fazendo planos para o estágio. Mas, em vez disso, estava ali — a mulher que pertencia a um contrato. Desci as escadas. Cada degrau parecia mais largo do que o anterior. Um funcionário apareceu no corredor e fez uma leve reverência. — Bom dia, senhora Valença. O café está servido na sala principal. Senhora Valença. Aquela palavra ainda me dava vontade de gritar. — Obrigada — murmurei, mesmo sem gratidão alguma. A sala de jantar era enorme, banhada pela luz que entrava pelos vitrais. A mesa, longa o bastante pra caber uma família inteira, tinha apenas dois lugares prontos. Ele estava lá, claro. Lendo o jornal, impecável, com uma xícara de café à frente e a expressão entediada de quem governa o mundo. — Acordou tarde — comentou, sem tirar os olhos das páginas. — Não lembrava que havia horário pra acordar. — Há pra tudo nesta casa. Sentei à mesa, contrariada. — O senhor vive de regras, não é? — Regras mantêm as pessoas sob controle. — Talvez o medo também. — O medo é mais instável. Prefiro a disciplina. Peguei um pedaço de pão e o encarei. — Isso aqui não é disciplina. É cárcere. Ele ergueu o olhar. — Ninguém te acorrentou, Isabella. — Ainda não. Um silêncio tenso se instalou. Ele pousou o jornal, cruzou as mãos e me observou como se eu fosse um enigma irritante. — Você tem o dom de transformar tudo em guerra. — O senhor declarou guerra primeiro. — E você decidiu lutar. — Eu nunca fui boa em abaixar a cabeça. — Percebi. — Um meio sorriso apareceu, rápido, antes que ele voltasse ao tom frio. — Termine o café. À tarde, mostro a casa. — Não precisa. Sei o que é uma prisão. — Não seja dramática. — Dramático é obrigar alguém a casar com você e fingir que isso é normal. Ele não respondeu. Pegou o celular e se levantou. — Às três. E vista algo que não pareça uma despedida. Passei o resto da manhã explorando o andar superior. Os cômodos pareciam tão vazios quanto o olhar dele. Havia uma biblioteca gigantesca — fileiras e mais fileiras de livros, organizados por cor e tamanho. Senti vontade de tocar em um deles, mas hesitei. Pareciam pertencer a outro mundo, a outro tempo. Entrei em uma galeria lateral e encontrei quadros emoldurados com retratos antigos. Um deles chamou minha atenção. Uma mulher jovem, com o mesmo olhar dele, mas mais doce. Leonardo ao lado, ainda garoto, terno pequeno, expressão séria demais pra idade. — Minha mãe. — A voz dele veio atrás de mim. Virei rápido. Ele estava parado na porta, sem gravata, mangas dobradas, como se tivesse esquecido que era um ditador. — Eu... desculpe. Eu não sabia. — Ninguém sabe muito. — Caminhou até o quadro e o olhou por um instante. — Ela morreu quando eu tinha dez anos. — Sinto muito. — Não sinta. — O tom dele era controlado demais. — Pessoas morrem. Eu aprendi cedo. Fiquei em silêncio. Não porque não tivesse o que dizer, mas porque percebi que ele não queria consolo. — E seu pai? — perguntei, sem pensar. — Ele vive. Infelizmente. A raiva contida naquelas duas palavras me fez recuar um passo. — Parece que o senhor não gosta muito dele. — Gosto menos do que de ser enganado. Entendi. A frieza dele vinha de muito antes de mim. — E sua mãe... — comecei, mas ele me interrompeu. — Já terminou o tour? Assenti. Ele voltou à porta. — Às oito teremos outro jantar. Não quero discussões. — Então não fale comigo. — É impossível. Você tem um talento especial pra me irritar só de existir. — Fico feliz em ser boa em algo. Ele me lançou um olhar de advertência, depois saiu. À tarde, caminhei pelo jardim. O ar fresco era a única coisa que me fazia sentir viva. Um jardineiro idoso cuidava das flores. — São lindas — comentei. Ele sorriu. — O senhor gosta que tudo esteja sempre igual. — Igual? — Sim. — Ele apontou para as roseiras. — Nenhuma muda nova em anos. O senhor não gosta de mudanças. Sorri de leve. — Eu percebi. — Mas a senhora… — Ele hesitou. — A senhora parece diferente. — Diferente como? — Como alguém que ainda quer ver o que há além dos muros. Aquilo me atingiu de forma estranha. Apenas agradeci e voltei pra dentro. Quando entrei, Leonardo estava ao telefone na sala de estar. — Eu disse que não fechem o contrato antes da minha autorização — falava, o tom firme, impaciente. — E se alguém tentar fazer diferente, eu mesmo destruo a empresa. Ele desligou, respirou fundo e me olhou. — Gosta de ouvir conversas alheias? — A culpa é do eco. Essa casa repete tudo. — Inclusive desaforos. — Só quando merecidos. — Isabella… — Ele se aproximou. — Um conselho: aprenda a ficar calada. — E o senhor, aprenda a não me dar ordens. A tensão voltou. A mesma de sempre. Ele parecia querer dizer algo, mas se conteve. Aquela era a primeira vez que notei: por trás da arrogância, havia algo cansado. — Por que me odeia tanto? — perguntei, sem planejar. — Porque você me obriga a lembrar que ainda posso sentir alguma coisa. Por um segundo, o ar sumiu. Não sabia o que responder. Ele desviou o olhar, como se tivesse dito demais, e saiu da sala. À noite, o jantar foi silencioso. Nenhuma provocação. Nenhum olhar prolongado. Ele comia devagar, pensativo, enquanto eu só empurrava a comida. Quando terminou, levantou-se. — Boa noite, Isabella. — O senhor… não vai mais me chamar de esposa? Ele parou por um instante. — Não precisa lembrar o que ambos já sabemos. E subiu as escadas. Fiquei ali, sozinha, olhando o prato cheio à minha frente. A mansão parecia respirar junto comigo — fria, contida, solitária. Subi depois, andando descalça pelos corredores silenciosos. A porta do quarto dele estava entreaberta. Luz acesa. Parei sem pensar. Lá dentro, ele estava de costas, sentado à escrivaninha, os ombros caídos, as mãos no rosto. Por um momento, não era o homem que me ameaçava. Era apenas alguém quebrado. Mas, antes que pudesse entender aquele lado dele, ele ergueu a cabeça, me viu e falou: — Está perdida? — Não. Só… passando. — Então passe. — A voz voltou a ser fria. — E da próxima vez, bata antes de espiar. Senti o rosto queimar. — Boa noite, senhor Valença. — Boa noite, Isabella. Fechei a porta atrás de mim e voltei pro quarto. Deitei e fiquei olhando pro teto, o coração acelerado. Aquela casa era enorme, mas parecia cada vez menor. E aquele homem… quanto mais eu o conhecia, mais perigoso se tornava — não apenas pelo poder, mas pela forma como começava a invadir minha mente. A mansão Valença era o reflexo dele: fria, perfeita e impossível de ignorar. E eu, a prisioneira que começava a perceber que, talvez, a pior prisão fosse a que se constrói dentro da gente.
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