Acordei com o barulho distante de vozes no andar de baixo. Por um instante, demorei a lembrar onde estava.
As cortinas abertas deixavam a luz invadir o quarto, iluminando o vestido jogado no chão, o anel sobre a penteadeira e a realidade que eu queria esquecer.
Levantei devagar, os pés descalços encontrando o frio do mármore.
A mansão Valença.
Meu novo lar — ou melhor, meu novo cativeiro de luxo.
Abri a janela. O jardim era tão perfeito que parecia pintado. Havia uma fonte no centro, esculturas de mármore e fileiras de flores brancas, todas alinhadas como soldados.
Nenhuma pétala fora do lugar. Nenhum sinal de vida.
E foi aí que percebi: o perfeccionismo daquela casa era o reflexo dele.
Tudo em ordem. Tudo controlado.
Inclusive as pessoas.
Bati os olhos no relógio: 9h15.
Eu deveria estar na faculdade, tomando café com meus colegas, rindo, fazendo planos para o estágio.
Mas, em vez disso, estava ali — a mulher que pertencia a um contrato.
Desci as escadas. Cada degrau parecia mais largo do que o anterior.
Um funcionário apareceu no corredor e fez uma leve reverência.
— Bom dia, senhora Valença. O café está servido na sala principal.
Senhora Valença.
Aquela palavra ainda me dava vontade de gritar.
— Obrigada — murmurei, mesmo sem gratidão alguma.
A sala de jantar era enorme, banhada pela luz que entrava pelos vitrais.
A mesa, longa o bastante pra caber uma família inteira, tinha apenas dois lugares prontos.
Ele estava lá, claro.
Lendo o jornal, impecável, com uma xícara de café à frente e a expressão entediada de quem governa o mundo.
— Acordou tarde — comentou, sem tirar os olhos das páginas.
— Não lembrava que havia horário pra acordar.
— Há pra tudo nesta casa.
Sentei à mesa, contrariada.
— O senhor vive de regras, não é?
— Regras mantêm as pessoas sob controle.
— Talvez o medo também.
— O medo é mais instável. Prefiro a disciplina.
Peguei um pedaço de pão e o encarei.
— Isso aqui não é disciplina. É cárcere.
Ele ergueu o olhar. — Ninguém te acorrentou, Isabella.
— Ainda não.
Um silêncio tenso se instalou.
Ele pousou o jornal, cruzou as mãos e me observou como se eu fosse um enigma irritante.
— Você tem o dom de transformar tudo em guerra.
— O senhor declarou guerra primeiro.
— E você decidiu lutar.
— Eu nunca fui boa em abaixar a cabeça.
— Percebi. — Um meio sorriso apareceu, rápido, antes que ele voltasse ao tom frio. — Termine o café. À tarde, mostro a casa.
— Não precisa. Sei o que é uma prisão.
— Não seja dramática.
— Dramático é obrigar alguém a casar com você e fingir que isso é normal.
Ele não respondeu. Pegou o celular e se levantou.
— Às três. E vista algo que não pareça uma despedida.
Passei o resto da manhã explorando o andar superior.
Os cômodos pareciam tão vazios quanto o olhar dele.
Havia uma biblioteca gigantesca — fileiras e mais fileiras de livros, organizados por cor e tamanho.
Senti vontade de tocar em um deles, mas hesitei. Pareciam pertencer a outro mundo, a outro tempo.
Entrei em uma galeria lateral e encontrei quadros emoldurados com retratos antigos.
Um deles chamou minha atenção.
Uma mulher jovem, com o mesmo olhar dele, mas mais doce.
Leonardo ao lado, ainda garoto, terno pequeno, expressão séria demais pra idade.
— Minha mãe. — A voz dele veio atrás de mim.
Virei rápido.
Ele estava parado na porta, sem gravata, mangas dobradas, como se tivesse esquecido que era um ditador.
— Eu... desculpe. Eu não sabia.
— Ninguém sabe muito. — Caminhou até o quadro e o olhou por um instante. — Ela morreu quando eu tinha dez anos.
— Sinto muito.
— Não sinta. — O tom dele era controlado demais. — Pessoas morrem. Eu aprendi cedo.
Fiquei em silêncio. Não porque não tivesse o que dizer, mas porque percebi que ele não queria consolo.
— E seu pai? — perguntei, sem pensar.
— Ele vive. Infelizmente.
A raiva contida naquelas duas palavras me fez recuar um passo.
— Parece que o senhor não gosta muito dele.
— Gosto menos do que de ser enganado.
Entendi.
A frieza dele vinha de muito antes de mim.
— E sua mãe... — comecei, mas ele me interrompeu.
— Já terminou o tour?
Assenti.
Ele voltou à porta.
— Às oito teremos outro jantar. Não quero discussões.
— Então não fale comigo.
— É impossível. Você tem um talento especial pra me irritar só de existir.
— Fico feliz em ser boa em algo.
Ele me lançou um olhar de advertência, depois saiu.
À tarde, caminhei pelo jardim. O ar fresco era a única coisa que me fazia sentir viva.
Um jardineiro idoso cuidava das flores.
— São lindas — comentei.
Ele sorriu. — O senhor gosta que tudo esteja sempre igual.
— Igual?
— Sim. — Ele apontou para as roseiras. — Nenhuma muda nova em anos. O senhor não gosta de mudanças.
Sorri de leve. — Eu percebi.
— Mas a senhora… — Ele hesitou. — A senhora parece diferente.
— Diferente como?
— Como alguém que ainda quer ver o que há além dos muros.
Aquilo me atingiu de forma estranha.
Apenas agradeci e voltei pra dentro.
Quando entrei, Leonardo estava ao telefone na sala de estar.
— Eu disse que não fechem o contrato antes da minha autorização — falava, o tom firme, impaciente. — E se alguém tentar fazer diferente, eu mesmo destruo a empresa.
Ele desligou, respirou fundo e me olhou.
— Gosta de ouvir conversas alheias?
— A culpa é do eco. Essa casa repete tudo.
— Inclusive desaforos.
— Só quando merecidos.
— Isabella… — Ele se aproximou. — Um conselho: aprenda a ficar calada.
— E o senhor, aprenda a não me dar ordens.
A tensão voltou. A mesma de sempre.
Ele parecia querer dizer algo, mas se conteve.
Aquela era a primeira vez que notei: por trás da arrogância, havia algo cansado.
— Por que me odeia tanto? — perguntei, sem planejar.
— Porque você me obriga a lembrar que ainda posso sentir alguma coisa.
Por um segundo, o ar sumiu.
Não sabia o que responder.
Ele desviou o olhar, como se tivesse dito demais, e saiu da sala.
À noite, o jantar foi silencioso.
Nenhuma provocação. Nenhum olhar prolongado.
Ele comia devagar, pensativo, enquanto eu só empurrava a comida.
Quando terminou, levantou-se.
— Boa noite, Isabella.
— O senhor… não vai mais me chamar de esposa?
Ele parou por um instante.
— Não precisa lembrar o que ambos já sabemos.
E subiu as escadas.
Fiquei ali, sozinha, olhando o prato cheio à minha frente.
A mansão parecia respirar junto comigo — fria, contida, solitária.
Subi depois, andando descalça pelos corredores silenciosos.
A porta do quarto dele estava entreaberta. Luz acesa.
Parei sem pensar.
Lá dentro, ele estava de costas, sentado à escrivaninha, os ombros caídos, as mãos no rosto.
Por um momento, não era o homem que me ameaçava. Era apenas alguém quebrado.
Mas, antes que pudesse entender aquele lado dele, ele ergueu a cabeça, me viu e falou:
— Está perdida?
— Não. Só… passando.
— Então passe. — A voz voltou a ser fria. — E da próxima vez, bata antes de espiar.
Senti o rosto queimar. — Boa noite, senhor Valença.
— Boa noite, Isabella.
Fechei a porta atrás de mim e voltei pro quarto.
Deitei e fiquei olhando pro teto, o coração acelerado.
Aquela casa era enorme, mas parecia cada vez menor.
E aquele homem… quanto mais eu o conhecia, mais perigoso se tornava — não apenas pelo poder, mas pela forma como começava a invadir minha mente.
A mansão Valença era o reflexo dele: fria, perfeita e impossível de ignorar.
E eu, a prisioneira que começava a perceber que, talvez, a pior prisão fosse a que se constrói dentro da gente.