O Dia em que o Mundo Caiu

1059 Words
A vida muda em segundos. Às vezes, basta um toque no telefone para o chão desaparecer. Naquela manhã, eu só pensava em entregar meu projeto final de Arquitetura e comemorar o estágio que começaria na próxima semana. O sol batia forte sobre o campus, e eu tinha a sensação de que, finalmente, as coisas estavam se encaixando. Mas o celular tocou. E a voz da minha mãe destruiu tudo. — Isa... volta pra casa. É o seu pai. Ela chorava. Eu nunca ouvi minha mãe chorar daquele jeito. — O que aconteceu? — perguntei, o coração já acelerando. — Apenas vem. Agora. Desliguei e corri. O trajeto que levava vinte minutos pareceu um túnel sem ar. Quando parei em frente à casa, havia dois carros pretos estacionados. Homens de terno. Um deles segurava uma pasta. O outro... o outro era o tipo de homem que você sente antes de olhar. Alto, terno escuro, ombros retos e um olhar que parava tudo ao redor. Leonardo Valença. O nome veio à minha mente como um eco familiar — o CEO que comandava a Valença Corporation, um império que todo mundo respeitava ou temia. Mas o que ele fazia na minha porta? — Isabella Monteiro? — perguntou ele, com uma calma que mais parecia ameaça. Meu nome na boca dele soou como uma sentença. — Sim. Sou eu. Meu pai, pálido, interveio: — Filha, entra pra dentro, por favor. Mas o homem não se moveu. — Seu pai e eu temos negócios pendentes. Negócios. Aquela palavra, dita por ele, me fez sentir que alguma coisa terrível estava prestes a acontecer. — Negócios? — repeti. — Que tipo de negócios? O olhar de Leonardo se manteve firme no meu pai. — O tipo que envolve trinta milhões desaparecidos e uma traição que eu não costumo perdoar. Meu coração gelou. — Isso é algum tipo de engano! — gritei. Leonardo abriu um sorriso curto, sem emoção. — Eu não erro, senhorita Monteiro. Nunca. Meu pai passou a mão pelo rosto, suando. — Eu posso resolver, senhor Valença... só preciso de tempo. — Tempo não paga dívida — respondeu ele, frio. — Dinheiro, sim. — Eu não tenho! — papai implorou. — Por favor, eu não tenho mais nada! O silêncio foi sufocante. Leonardo o observava como quem assiste a um animal ferido. — Então terá que oferecer outra coisa. Olhei de um para o outro, sem entender. — Outra coisa? Ele desviou o olhar pra mim. Um olhar que me fez querer recuar, mas meus pés ficaram presos ao chão. — Talvez algo que valha tanto quanto o que perdi. Meu pai começou a chorar. — Isabella, me escuta… — Pai? O que ele tá dizendo? Leonardo deu um passo à frente. — Estou oferecendo uma saída. Seu pai fica livre. E você se torna minha esposa. A sala girou. Eu ri, sem conseguir acreditar. — Isso é uma piada de mau gosto, certo? — Não costumo brincar com negócios. — Negócios?! Isso é insanidade! — Chame como quiser. Eu o mantenho fora da cadeia e, em troca, você se casa comigo. — Isso é tráfico humano! — explodi. — O senhor está se escutando? — Estou. E estou oferecendo uma escolha. Não sou eu quem precisa de misericórdia, senhorita Monteiro. Meu pai se aproximou, desesperado. — Isabella, por favor… é a única forma. Olhei pra ele e senti o mundo quebrar dentro do peito. — O senhor tá me vendendo, pai? Ele chorou. — Eu tô tentando te proteger. — Me proteger? Me jogando nas mãos dele?! Leonardo cruzou os braços, observando a cena com aquele olhar frio, impassível. — Eu posso levá-lo agora mesmo. A escolha é sua. As lágrimas ardiam, mas eu me recusei a chorar na frente dele. — O senhor é doente. — Sou justo — corrigiu. — O roubo foi pessoal. A punição também será. — O senhor quer me usar pra se vingar. — Quero que seu pai sinta o peso das próprias escolhas. — Isso é crueldade! — É negócio. Havia algo assustador em como ele falava sem alterar o tom, como se nem fosse humano. Ele se aproximou, até o ar entre nós parecer eletrificado. — Você tem quarenta e oito horas. Depois disso, seu pai será algemado e eu mesmo estarei lá pra ver. — O senhor não pode fazer isso. — Posso tudo. As palavras dele tinham a certeza de quem já venceu. Meu pai caiu de joelhos. — Filha, eu imploro... não me deixa ir pra cadeia. — Eu não acredito que você tá me pedindo isso. — É só no papel. Ele prometeu que você não vai precisar... — A voz falhou. — ...dividir nada com ele. Leonardo riu. — Eu nunca prometi isso. O olhar dele encontrou o meu. Havia desafio, domínio, e algo que me fez tremer — não de medo, mas de raiva. — Por que eu? — perguntei. — Com tantas mulheres que fariam fila pra isso, por que eu? — Porque nenhuma delas foi filha do homem que me enganou. Fechei as mãos em punhos. — Eu o odeio. — O ódio é um bom começo — respondeu, sem hesitar. — Pelo menos é uma emoção forte. — Eu juro que nunca vou me casar com o senhor. Ele inclinou a cabeça, como se gravasse minhas palavras. — Então trate de rezar pra que eu mude de ideia antes das quarenta e oito horas. Virou-se e saiu, deixando o perfume caro e o som da porta batendo. O silêncio que ficou parecia gritar. Meu pai chorava, e minha mãe, quieta no canto, apenas dizia “Deus nos ajude”. Subi pro meu quarto como uma prisioneira. A cada degrau, a raiva crescia. Peguei o celular e digitei uma mensagem pro meu melhor amigo, mas apaguei antes de enviar. Eu sabia que ninguém podia me salvar disso. Naquele instante, o mundo inteiro parecia ter desabado sobre mim. O meu pai havia me traído. E um homem que eu m*l conhecia tinha acabado de decidir meu destino. Olhei pro espelho. Meus olhos estavam vermelhos, mas havia algo novo neles — algo que nem eu reconheci de primeira. Coragem. Não importava o que ele dissesse, o que ele ameaçasse. Leonardo Valença podia ser dono do dinheiro, do poder, das leis… Mas nunca seria dono de mim. Ainda não.
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