O Limite da Loucura.

1091 Words
Passar todos os dias com Helena andando pela minha casa era uma tortura. Uma maldição disfarçada de benção. Eu a via em cada canto, tocando o que era meu, ocupando o espaço que por tanto tempo ficou vazio. E, ainda assim, cada vez que ela sorria, eu sentia o chão se abrir sob meus pés, um abismo que não parecia ter fim. Depois da ida ao shopping, percebi que Savana tinha influenciado a cabeça dela a comprar as peças mais reveladoras que encontrou. Helena andava pela casa com pijamas minúsculos, vestidos finos que marcavam o corpo, os s***s sempre com os b***s durinhos, denunciavam até o menor movimento. Ela não fazia ideia do que provocava. Do perigo que era estar ali. Do inferno que acendia dentro de mim toda vez que seus olhos encontravam os meus, dos pensamentos impuros que eu tinha cada vez que a via usar aquelas roupas. Dante tentava manter o controle, mas o desejo o corroía aos poucos. Era como uma febre lenta, constante, que tomava cada célula, cada pensamento. Helena se movia pela casa com a inocência de quem nunca teve consciência do poder que possuía e isso o destruía a cada dia. Ele passava noites em claro, caminhando pelo corredor escuro da mansão, buscando em vão o alívio de uma mente que o traía. Havia perdido as contas das vezes em que despertou no meio da noite, suado, respirando pesado, após sonhar com ela, sonhos eróticos, e que traziam à tona o desejo imenso que sentia. Nos sonhos, Helena o chamava pelo nome. E isso era o suficiente para que tudo que ele tentava enterrar voltasse com força total. Certa manhã, Dante estava na sala, revisando alguns contratos da empresa, tentando se distrair do caos que o consumia, quando Helena apareceu. Ela vestia um short pequeno e uma camiseta que deixava à mostra parte da barriga. Ele respirou fundo. Tentou olhar para o papel à sua frente, mas as letras já não faziam sentido, nada conseguia fisgar sua atenção tanto quanto a presença de Helena. — Não sabia que gostava de roupas tão reveladoras, Helena. — murmurou sem levantar os olhos. Ela riu levemente, um som doce, quase inocente. — Nunca tive estilo próprio… — respondeu. — Usava as sobras da Bianca. Savana disse que essas roupas novas ficaram boas em mim. Ele forçou um sorriso. — É claro. Savana é uma ótima mulher. Helena se aproximou um pouco mais, apoiando-se na mesa. — Quer que eu faça algo para o jantar? — Não precisa. — respondeu secamente, levantando-se. — Estou de saída. Helena o observou sair e sentiu algo estranho, uma pontada no peito. Desde que chegara àquela casa, Dante parecia lutar contra algo invisível. Às vezes era doce e protetor. Em outras, frio, distante, quase c***l. Ela não entendia o motivo, mas sentia que por trás daquele olhar havia algo que ele escondia. Algo perigoso e sombrio. Dante pegou as chaves do carro e foi direto para um dos clubes de apostas que administrava. Era tarde, e o ambiente exalava o cheiro de cigarros caros e perfume feminino. Mesmo cercado de gente, sentia-se só. As mulheres riam alto, se inclinavam sobre ele, tocavam seu ombro. Mas nada nelas se comparava a Helena. Mesmo ali, entre apostas, taças de uísque e risos vazios, a imagem dela o perseguia. O modo como o cabelo molhado caía sobre os ombros depois do banho, a pele úmida, o olhar distraído. Tudo nele gritava o nome dela. “Você não pode tocá-la, Dante.” Mas eu já não sabia se queria resistir. A noite só piorou quando ele ouviu uma voz conhecida. — Pai. Dante fechou os olhos por um instante. Lucas. A última pessoa que ele queria ver naquela noite. — O que houve com meus cartões? — perguntou o filho, com um tom arrogante, como se o mundo lhe devesse tudo. — Bloqueei todos. — respondeu Dante, sem levantar o olhar. — Você trabalha na empresa, o dinheiro que ganha dá pra se manter. — Não é o suficiente! Bianca quer um carro novo, joias… você sabe como é, ela é uma mulher vaidosa. Dante riu, mas sem humor. — Então renegocie seus luxos com ela. — Pai, qual o problema? É por causa do casamento? — Helena merecia muito mais que você. — respondeu, a voz grave, fria. — Que bom que a traiu. Lucas bufou, sem entender. Dante não esperou resposta. Saiu dali antes que o sangue o traísse. Antes que dissesse algo que não poderia voltar atrás. Na estrada, acelerou o carro até que o som do motor abafasse seus pensamentos. Mas nada calava o nome dela dentro da cabeça. Helena. --- De volta à mansão, o silêncio o recebeu como uma confissão. As luzes da sala estavam apagadas, mas ele viu um pequeno feixe vindo da cozinha. Aproximou-se devagar e parou na porta. Helena estava ali, de costas, com uma caneca nas mãos. Usava uma camisola curta, simples, mas que deixava à mostra mais do que deveria. O cabelo caía em ondas, solto, natural, e a luz suave fazia a pele dela brilhar. Dante encostou na parede, observando em silêncio. Queria falar, mas não conseguia. Cada palavra que pensava se transformava em algo indecente. Ela se virou, e o olhou o atingiu em cheio. Por um instante, o tempo pareceu parar. — Não sabia que tinha voltado. — disse, surpresa. — Também não sabia que ainda estava acordada. — respondeu. Helena deu de ombros. — Não consigo dormir direito. Essa casa é grande demais, silenciosa demais. Dante caminhou até ela, devagar. Helena recuou um passo, mas ele não avançou. — O silêncio pode ser perigoso. Faz a gente ouvir o que não quer. Ela o encarou. — E o que o silêncio te faz ouvir, Dante? Por um momento, ele quis dizer a verdade. Quis confessar que o silêncio gritava o nome dela, todas as noites. Mas não podia. Então apenas desviou o olhar. — Vai dormir, Helena. Está tarde. Helena suspirou, deixou a caneca sobre a pia e o contornou para sair. Quando passou por ele, Dante sentiu o perfume suave que ela usava, e seu corpo reagiu antes da mente. Os dedos se fecharam levemente no ar, como se lutassem contra o instinto de segurá-la. Ela desapareceu pelo corredor, e Dante ficou ali, imóvel. Sabia que estava perdido. E algo lhe dizia que não conseguiria se encontrar. “Você é minha perdição, Helena.” Mas o que ele não sabia ainda era que ela também já estava se perdendo nele.
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