O shopping parecia outro universo. As luzes brilhavam como estrelas frias refletidas em mármore, os perfumes caros flutuavam no ar e as vitrines pareciam sorrir com desdém.
Helena seguia Savana de perto, como uma criança em sua primeira excursão. Tudo era novo demais, o luxo, as marcas, os olhares de quem parecia saber exatamente o que pertencia àquele mundo.
A cada loja, sentia-se mais deslocada. As roupas elegantes, os tecidos que pareciam arte, os preços que fariam qualquer pessoa comum corar. Ainda assim, havia algo dentro dela que vibrava, uma curiosidade tímida, um desejo de descobrir quem poderia ser se não tivesse sido esquecida pelos próprios pais.
Savana, por outro lado, caminhava com a naturalidade de quem nasceu entre riqueza e poder. Seus saltos batiam firmes no chão, e o sorriso no rosto mostrava que ela dominava aquele espaço.
A primeira parada foi em um salão de beleza que parecia mais um templo. Tudo ali brilhava, os espelhos, o piso, até a água da banheira de hidromassagem parecia cintilar sob a luz suave.
— Você precisa relaxar, querida — disse Savana, já tirando os sapatos. — Dante pode ser muitas coisas, mas ele sempre aprecia o belo.
Helena hesitou, mas acabou cedendo. Entrou na banheira ao lado dela, a espuma subindo, o calor envolvendo sua pele. Por um instante, se permitiu esquecer tudo, o casamento arruinado, a traição, o peso de morar sob o mesmo teto que o homem mais perigoso que já conheceu.
Savana a observava com curiosidade, brincando com a espuma.
— E então, como se sente depois de ter sido traída pela própria irmã?
Helena desviou o olhar, o peito apertando. — Eu… sinceramente não sei. Acho que, lá no fundo, talvez eu esperasse por isso.
Savana riu baixo. — Ninguém espera ser traída, querida. Isso é o tipo de golpe que arranca o chão. — Seu tom, porém, não era de julgamento, mas de uma franqueza quase protetora.
Helena abaixou o rosto, envergonhada. As palavras da moça pareciam atravessar a máscara que ela tentava sustentar.
— O meu tio é sombrio, não é? — perguntou de repente, quebrando o silêncio.
Savana suspirou e se recostou. — Sombrio é pouco. Dante é o tipo de homem que aprendeu a esconder o que sente, e quando sente, sente demais. Ele é o tipo que destrói ou protege — depende de quem estiver no caminho.
Helena se encolheu um pouco. — Eu ainda não me acostumei. É estranho estar sob o mesmo teto que ele. Depois de tudo que aconteceu…
— Eu sei. — Savana sorriu de leve. — E ele com certeza não facilita as coisas pra você.
O silêncio voltou, mas dessa vez não era desconfortável. Era o tipo de silêncio que carregava entendimento, e talvez, um aviso.
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A volta pra casa foi uma mistura de cansaço e deslumbramento.
Helena carregava sacolas demais para contar, vestidos de seda, calçados de grife, perfumes, produtos de cabelo e corpo. Era surreal.
Nunca tivera nada daquilo. Nunca soubera o que era comprar sem pensar, sem calcular o preço. Por algumas horas, se sentira livre mesmo que soubesse que nada daquilo realmente lhe pertencia.
Quando o carro entrou pelos portões da mansão, o peso da realidade voltou.
O lugar parecia ainda maior à noite, com as luzes acesas refletindo na fachada branca e as sombras das árvores se movendo como fantasmas.
Entrou na sala com as sacolas pendendo dos braços e parou.
Dante estava lá, sentado em um dos sofás de couro, lendo alguns papéis. O terno escuro contrastava com o brilho amarelado da luz da lareira.
Ele ergueu os olhos devagar, e por um momento o mundo pareceu parar.
O cabelo de Helena agora tinha um brilho diferente, as pontas haviam sido aparadas, e o rosto parecia mais vivo.
Dante a observou em silêncio o olhar percorrendo-a com algo entre admiração e perigo.
— Está linda, Helena — disse enfim, a voz grave e rouca, quase um sussurro.
Ela corou, baixando o olhar. — Savana disse que teria ficado melhor se eu cortasse na altura do pescoço.
Dante pousou os papéis sobre a mesa e se levantou. — Não é louca de cortar o seu cabelo, Helena.
— E por que não? — perguntou, desafiando-o, um pequeno sorriso nos lábios.
Ele se aproximou até que a distância entre os dois fosse mínima. O perfume dele a envolveu, amadeirado, quente, dominador.
— Porque está proibida — disse baixo, a voz grave ressoando nela como um toque.
Helena arqueou as sobrancelhas. — Você não pode me proibir de nada, Dante.
Ele inclinou o rosto, o olhar queimando o dela. — Tarde demais, Bambina. — A palavra italiana saiu como um sussurro rouco, quase carinhoso. — Não tem mais volta.
O coração dela acelerou. Havia algo na maneira como ele dizia aquilo uma mistura de promessa e ameaça, desejo e controle.
Sempre fora assim com ele. Dante falava em enigmas, fazia do silêncio uma arma e deixava o ar entre eles carregado de algo que ela não conseguia explicar.
Ela o observou por um instante, tentando decifrá-lo. Era impossível.
Dante era o tipo de homem que guardava segredos nos olhos e pecados na alma.
E quanto mais ela o conhecia, mais percebia que viver ali, naquele mundo dele, era muito mais perigoso do que imaginava.
Subiu para o quarto com o coração acelerado, as palavras dele ecoando na cabeça: “Não tem mais volta.”
Talvez Dante estivesse certo.
Talvez, de fato, não houvesse mais volta.