2-Fantasmas do Natal Passado

2349 Words
Bobbie seguiu seu chefe pelo saguão do hotel e sabia que as pessoas estavam olhando. Grady era um homem muito bonito. Ela sabia que os olhos imediatamente se voltavam para ele onde quer que fosse. Ele era alto, com ombros largos, olhos azuis penetrantes e cabeça calva. Ela tinha um metro e sessenta e seis, mas, com seus saltos, ficava com um metro e setenta e dois e chegava ao ombro de Grady. Os cabelos loiros, ela escureceu para um loiro-mel quente, e estava preso em um coque apertado na nuca. Seus olhos azuis eram realçados por um par de óculos com armação escura. Ela usava uma saia lápis preta, uma camisa rosa-pálido sob um blazer preto abotoado. Carregava sua pasta de couro onde guardava seu laptop e quaisquer documentos que Grady pudesse precisar. Sabia que às vezes as pessoas falavam sobre seu relacionamento com Grady, mas com ele, ela se sentia mais segura do que com qualquer outra pessoa. Ele amava Everly desesperadamente e era ferozmente leal à sua esposa. Nunca faria com que ela sentisse a dor que ele já sentira. Ele era seu irmão mais velho e seu melhor amigo, e ela o amava profundamente, no entanto, não da maneira que alguém sugeriria. Ele a chamava de "não-irmã" e a amava exatamente dessa forma. Seu coração não tinha espaço para o amor. Ela tinha amado uma vez, foi um amor infrutífero e ela sabia disso enquanto o vivia. Não apenas Olivier a arruinou para qualquer homem por causa de como ela o amava, ele arruinou sua capacidade de confiar em seus instintos. Nunca, em seus sonhos mais loucos, ela teria considerado que ele a venderia. Mas ele fez, e embora Bobbie não pudesse se arrepender dele, por causa das bênçãos de seus filhos, nunca permitiria que nenhum homem tivesse tanto controle sobre seu coração novamente. Agora, enquanto ela e Grady atravessavam o saguão do hotel e vários profissionais de negócios também deixavam o lugar ao mesmo tempo, olhando para eles, ela podia sentir o calor dos olhares de vários homens. Isso a deixava desconfortável. Grady recuou para deixá-la sair do hotel primeiro e ela riu de suas maneiras.  "Um verdadeiro cavalheiro do sul." "Você conheceu minha mãe. Aposto que se eu falhasse em demonstrar a etiqueta adequada, ela me daria uns tapas nas orelhas no jantar dessa noite", ele procurou pelo carro deles, que ainda não havia chegado. "Ela faria isso mesmo", Bobbie riu e deu um tapinha em seu braço. Ela deu um passo à frente para permitir que outro cliente do hotel passasse por ela em direção a outro carro esperando, e olhou para cima para se desculpar por bloquear a entrada, e seu coração disparou ao ver a figura alta do homem. Ela precisava se controlar. Nem todo homem com cabelos loiros-areia e, cerca de um metro e oitenta, seria o Olivier. Se houvesse um Deus, ele seria careca e barrigudo de qualquer maneira. E ela se lembrou de que reservou este hotel de propósito do outro lado da cidade, longe do hotel onde ele tinha uma suíte. "Você está bem?",  Grady olhou para o homem e depois voltou seu olhar para ela. "Sim. Procurando por fantasmas do Natal passado onde não existem", ela o tranquilizou e acariciou sua mão gentilmente. O carro deles parou e ela entrou primeiro no banco de trás, seguida por Grady. "m***a, eu odeio essa cidade", resmungou ele ao observar a palidez dela, "Juro que toda vez que viemos aqui, um de nós vê alguém que nos traz lembranças." "Eu convivo com duas pessoas que me trazem lembranças diariamente", resmungou ela, "Dei à luz aos clones do homem. A única diferença é que um tem cabelos escuros e o outro é loiro. Ambos têm os olhos dele, bochechas redondas e covinhas. Preciso que, ao menos, eles sejam baixos como eu. É tudo o que peço." Grady riu alto.  "Não deseje isso para o Max. Ele será constantemente questionado sobre o tamanho do pênis. Ele precisa ser alto." Ela bateu brincalhona na perna dele.  "Ele compensará com confiança. Max tem mais confiança na idade dele, do que eu tenho agora. Maldito moleque convencido!" "Quase morri de rir quando ele disse que ia embarcar sozinho no avião e não precisava da sua ajuda." "Ele tem oito anos, mas parece ter trinta." "E ontem à noite, Ollie pulou do trampolim alto. Jesus, sou um homem adulto e não subiria lá. Ela subiu na escada e mergulhou sem hesitar", disse Grady balançando a cabeça, "Ela não tem medo de nada." "Ollie é a razão pela qual tive que arrancar meus cabelos brancos novamente. Espero que ela ouça a Everly e a Nana hoje." "Minha mãe pode lidar com ela, e se não puder, a Everly vai dar conta." "Verdade", Bobbie sorriu.  Prudence Hoffman era uma força a ser reconhecida. Ela havia sido juíza em Houston quando se aposentou abruptamente após o nascimento de Lark. Ela se mudou para Dallas para ficar com seu único filho e sua esposa como apoio constante. Ninguém conseguiu dissuadi-la. Ela estava divorciada do pai de Grady há muitos anos. Era uma mulher pequena, mas de personalidade forte. Não apenas aceitou Everly como filha, como também considerou Bobbie e seus gêmeos como seus próprios netos. Não houve discussão. Se ela cuidava de um, cuidava dos três. E insistia que todos a chamassem de Nana. Bobbie voltou ao trabalho quando os gêmeos tinham apenas seis semanas de idade, e Nana estava sempre presente. Eles montaram um berçário nos escritórios no mesmo andar onde ficava o escritório de Grady, e quando Everly voltou ao trabalho após três meses, Grady insistiu que ela transferisse seus escritórios para o andar principal do prédio que ele possuía no centro de Dallas. Seis meses depois de começar a trabalhar para Grady, ele colocou um formulário de inscrição em sua mesa, disse que a mensalidade estava paga e tudo o que ela precisava fazer era se comprometer com cinco anos na empresa e concluir com sucesso o programa de assistente jurídico. Bobbie estava grávida quando se matriculou e concluiu o programa antes do segundo aniversário dos gêmeos. Ela não era apenas a assistente pessoal de Grady, era uma assistente jurídica certificada. Ao se acomodarem na limusine, começaram a discutir o plano para hoje. Seu cliente, senhor Trace Waterman, estava vendendo a empresa para uma grande companhia de petróleo, chamada Moreno Oil and Gas. Eles tentaram manter seus pensamentos factuais, como se não tivessem conhecimento de nenhuma outra conexão com a Moreno. A empresa era liderada por Gael Moreno, um magnata bilionário que vivia para ganhar seu próximo dólar. Ele vinha atrás da empresa do senhor Waterman há décadas. Agora estava ao alcance de suas mãos. Os advogados de Moreno provavelmente iriam pressionar seu cliente para que ele desistisse de cada centavo possível e assumisse o controle da forma mais barata possível. De acordo com Grady, Gael Moreno faria seu cliente pagar por fazê-lo esperar tanto tempo para obter o que queria. "É provável que vejamos o Moreno hoje?" "Eu já te disse que não. Ele vai enviar a equipe jurídica e eles vão começar tentando fazer uma oferta ridícula para o Trace." "Como é o Moreno? Você pesquisou mais sobre ele?" "Implacável, frio e vingativo. Está na casa dos sessenta e dificilmente vai se aposentar." "Família?", ela odiava perguntar. "Duas filhas, para sua irritação", ao ver sua careta, ele continuou: "Segundo o Trace, ele queria filhos homens. Sua esposa teve duas meninas. Uma delas se casou como ele exigiu, e o marido segue a linha da empresa. Ele é vice-presidente de marketing ou algo assim, e uma das duas filhas trabalha diretamente com o Gael. A outra filha se casou por amor. Um cajun do Louisiana com mais dinheiro que o Moreno. O Moreno o odeia porque isso significa que ele não pode controlá-lo. Seu único neto assumiu a empresa do pai, ao invés de seguir os passos do Moreno. Não importa que ele tenha quatro netas inteligentes o suficiente para assumir. Ele é um filho da p**a misógino", ambos fingiram não saber quem era o neto. "Ótimo", ela revirou os olhos e olhou pela janela.  Enquanto dirigiam pela cidade, o motorista os levou pelo hotel de seu passado e ela sentiu o estômago se contrair involuntariamente ao ver o prédio alto. Incapaz de se conter, olhou para o último andar e se perguntou se ele ainda estava lá. Ele ainda tinha uma suíte na cobertura? Ele ainda seduzia baristas desprevenidas e virava o universo delas de cabeça para baixo? "O que houve?", Grady olhou pela janela, "Mais fantasmas?" "Não", ela riu, irritada por ele ter se tornado tão bom em lê-la, "Sem fantasmas. Apenas pensamentos sobre babacas misóginos e o quanto eu os odeio." "Felizmente, nosso cliente não é um i****a e será muito respeitoso." "Já falei com ele várias vezes por telefone", concordou, "Ele é adorável. Está realmente ansioso para se aposentar e passar tempo com seus netos", ela considerou suas palavras, "Ou, pelo menos, está tentando muito se convencer disso." "A esposa dele teve câncer há três anos. Ele me disse que todo o dinheiro do mundo não poderia impedir que ela tivesse câncer, e foi o sentimento de impotência mais forte que ele já teve. Agora ela está se recuperando e ele quer passar o máximo de tempo possível com ela e sua família. Segundo ele, a vida é passageira." "Ele me disse a mesma coisa." "Ele tentou vender para outras três empresas, mas toda vez que chegava perto, o Moreno ameaçava destruir a empresa. Ele queria essa empresa e não permitiria que o Trace vendesse para mais ninguém." "Por quê?" "Porque o Trace tem a única coisa que o Moreno sempre quis." "A empresa?" "Não. A esposa do Trace." "O quê? Mesmo agora?", ela ficou chocada ao olhar para sua amiga, que estava fofocando como uma senhorinha no clube de tricô, "De jeito nenhum!" "Sim. Os três estudaram juntos no ensino médio. O Trace ficou com a garota. O Gael acabou se casando com uma mulher aprovada pelos pais dele. Trace teve um filho. O Gael teve as meninas. Ele esperou quarenta anos para se vingar." "As pessoas são realmente estranhas." "Ele não é uma pessoa. Definitivamente, é um cara demoníaco, do tipo que fez pacto com o d***o", brincou o Grady. "Deve ser genético", sussurrou ela, finalmente reconhecendo que sua pretensão tinha limites, "O Trace realmente não deve querer fazer esse negócio, então." "Não quer, mas está com as costas contra a parede. Ele quer seguir em frente com a vida dele, passar mais tempo com a família. Às vezes, você precisa dançar com o d***o para chegar ao parceiro que deseja." "Isso é um conselho de vida?", ela zombou dele cutucando-o com a perna. "Vindo de mim? Jesus, não. Sou a pessoa mais vingativa que conheço. De jeito nenhum faria um acordo com meu inimigo mortal." "Você está dizendo que se tivesse que fazer um acordo com o Sawyer ou a Charlotte..." "De jeito nenhum!", ele a interrompeu antes mesmo que ela pudesse terminar a frase, com um sorriso tão intenso que Bobbie não pôde deixar de rir da resposta dele. "Ok, ok", ela riu enquanto ele lhe deu um soco meio fraco no ombro dela, "Entendi." "E você?", ele retrucou, "Você seria capaz de fazer um sacrifício por um bem maior?" "Depende do que está em jogo, eu acho", ela encontrou seu olhar seriamente, "Você está falando com uma mulher que vendeu seu corpo para pagar as contas médicas da irmã, apenas para a irmã morrer mesmo assim. Sinto que sou a pessoa que toma decisões pelos motivos certos, mas acaba se prejudicando de qualquer maneira." "Sim, mas veja o que você conseguiu com isso. Se você não tivesse passado por tudo isso, não teria os gêmeos, nunca teria fugido para Dallas, nem teria conhecido a Everly, e eu nunca teria a melhor assistente jurídica do mundo." "Eu tenho uma vida incrível", concordou ela, "Não me arrependo do que precipitou todas as mudanças na minha vida. Só estou dizendo que sou o tipo de pessoa que definitivamente sacrificaria tudo por um bem maior, mas acabaria perdendo tudo mesmo assim." "Descobri sobre o caso cerca de uma hora antes do noticiário lançar o vídeo. Meu pai me ligou para me contar que descobriu através do pai do Sawyer. Papai estava preocupado em como as consequências afetariam não apenas a mim, mas a carreira da mãe como juíza e a carreira dele como o corretor de imóveis mais famoso de Houston. A publicidade seria insana. Eu disse a ele para deixar o mundo queimar. Não fiz nada de errado além de ter péssimo julgamento com amigos e esposas. Então aconteceu e era tarde demais. Os paparazzi me perseguiram por meses. Sawyer fez uma declaração pública implorando pelo meu perdão", ele não estava revelando nada que já não tivesse contado a ela, no entanto, de alguma forma, estar na cidade sempre trazia isso à tona. "Então você o socou", Bobbie riu, ciente de como a história terminava. "Então eu o soquei. Deixei o desgraçado inconsciente. Quebrei dois nós dos dedos dele." "Arrependimentos?", ela sabia que Grady tinha feito isso com um bando de repórteres assistindo. Uma vez, quando estavam bebendo uma garrafa de vinho, ela e Everly pesquisaram e assistiram. Riram por dias. "Nenhum", ele sorriu, "Como advogado, considerei processá-lo por quebrar meus nós dos dedos com o rosto dele. Se me arrependo de algo, é de não ter feito isso mais cedo", ele a cutucou com o ombro, "Você já socou alguém?" "Não. Eu chutei aquele cara nas bolas, lá atrás, e para mim foi tão satisfatório quanto seu soco na cara." "Escute a gente relembrando das coisas que nos fazem odiar tanto Houston..." "Verdade. Precisamos nos concentrar ou ambos veremos fantasmas o dia todo." "Amém", disse Grady com um aceno de cabeça, "Mudando de assunto. Essa é a última conversa sobre fantasmas nessa viagem. Combinado?" "Combinado!", eles apertaram as mãos e se acomodaram no estofamento da limusine. Agora, Bobbie concordava, só precisava que sua imaginação hiperativa concordasse também.
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