Capítulo Décimo Segundo

4729 Words
Quando Dirce chegou para trabalhar, Júlio estava lá com uma senhora que se ocuparia de tomar conta de Jurandir e Dona Nora. Se tratava de uma enfermeira que vinha auxiliar a sogra e ajudar a olhar a criança, para tirar um pouco de trabalho dela, porque achavam que ela tinha ficado sobrecarregada. Júlio segredou com Dirce, que ela trabalhava no hospital, mas que não a conhecia muito bem, portanto era pra ficar atenta, para que ela não fizesse nada de errado com o menino e nem com a sogra. Tinha feito isso, porque imaginou que Dirce poderia ficar com ciúmes, uma vez que era apegada a patroa e era avó do menino. Realmente, Dirce não via com bons olhos, aquela estranha dentro de casa, cuidando das pessoas que deviam ser responsabilidade suas. No decorrer do dia, a enfermeira a tratou com muita cordialidade, pois sabia do parentesco de Dirce com a família. Se ofereceu inclusive, para auxiliar no serviço da casa, quando a paciente estava alimentada e medicada e o menino brincando calmamente no tapete da sala, em frente a televisão. Fez pequenos serviços, que deram um pouco mais de tempo para Dirce. Ela comentou que no dia seguinte, traria uma de suas filhas para fazer o serviço pesado. Dirce comentou com ela: - Eles são muito bons. Dão valor a quem trabalha direito. Aliás, a família toda é assim. - Pode ficar tranquila que a minha filha vem instruída a obedecer suas ordens e te respeitar. - Tenho certeza que vamos nos entender. - A patroa deu a mesma ordem pra mim. Te respeitar como um m****o da família. Aliás queria te pedir uma coisa. - Pode pedir, se estiver ao meu alcance... - Prá você parar de me chamar de enfermeira e me chamar pelo nome. - Mas ainda não sei seu nome. O Júlio apresentou você como a enfermeira que veio cuidar de Dona Nora e do Jurandir, para tirar a sobrecarga de cima de mim. - Me chamo Angela. - Tá bom Angela. A partir de agora te chamarei pelo nome. - Obrigada. Vou dar uma olhada neles e volto pra te ajudar. - Obrigada. Mas já está quase na tua hora. Se estiver tudo bem, pode se aprontar para ir pra casa. Está tudo adiantado e eu só vou depois que o Seu Jair chega. - Se quiser que eu te faça companhia, eu espero ele também. - Não tem necessidade. Eu moro perto daqui. Vou andando para casa. - Amanhã é outra enfermeira que vem. Eu só venho trazer a minha filha para conversar com você e acertar os detalhes. - Comigo? - Foi o que o Dr. Júlio falou. - Tá bom. Quando o Seu Jair chegar, eu pergunto a ele quais são as condições e converso com ela amanhã. - Fica tranquila, que é uma boa moça. Trabalha para pagar os estudos, mas tem uma boa educação e vocês vão se dar bem. - Vou fazer tudo pra que dê certo. Angela foi ver se estava tudo certo com a criança e com Dona Nora. Tinha acertado os remédios pra de manhã e a noite, de maneira a não sobrecarregar Dirce, conforme ordem que recebeu. O próprio Seu Jair daria os remédios da noite e a janta da paciente. Essa parte que Dirce não gostava. Estava perdendo o contato com a patroa e amiga. Mas sabia que a intenção era tirar um pouco de preocupação de seus ombros. Quando Seu Jair chegou, perguntou sobre quais seriam as obrigações da moça que iria começar a trabalhar no dia seguinte e o salário que seria oferecido. Seu Jair explicou que o salário era o que ela ganhava atualmente e as obrigações, eram todos os serviços da casa e Dirce ficaria somente com as refeições e teria uma mudança em carteira de função. Dirce perguntou: - Vou ser a cozinheira? - Não, vai ser a governanta. Quem dá as ordens na minha ausência. Você só tem que se reportar as pessoas da família. E vai receber o novo salário referente a sua nova função. - Seu Jair, eu não preciso de aumento. Nem uso todo o dinheiro que recebo. - Então vai sobrar mais. E se quiser botar a menina para ajudar também na cozinha, pode botar. Ela vai ter que obedecer a você. - Tá bom. Obrigada pela promoção. - Isso vai fazer diferença na hora da tua aposentadoria. - É cedo ainda, para pensar nisso. - O tempo corre, Dirce. Há pouco tempo, eu tinha quatro filhos solteiros em casa. Agora estou fazendo coleção de netos. O tempo passou e a gente nem sentiu. Mudando de assunto: Como a Nora passou o dia? - Passou como sempre. A Ângela disse que o senhor que vai dar os remédios da noite pra ela. - Foi o combinado. Ela te respeitou? - Sim. Até me ajudou um pouco no serviço da casa, quando estava tudo em ordem com o Jurandir e a Dona Nora. - Ótimo. Que continue assim. Não esquece que na minha ausência e enquanto a Nora estiver doente a patroa aqui é você. - Não sei se vou ter jeito pra isso. - Vai ter sim. Age do jeito que você agia com a tuas filhas e tudo vai dar certo. Agora pode ir descansar. Dirce foi se trocar para ir pra casa e logo estava saindo. Dirce chegou em casa e contou as novidades para a família. Todos comemoram a promoção. No dia seguinte, logo depois que Seu Jair saiu, Angela chegou trazendo uma mocinha que apresentou como Angélica, sua filha, que ficaria com a parte do serviço da casa, para auxiliar Dirce. Dirce explicou o que era para ser feito e o salário que se pagava ali. Angélica aceitou as condições e foi trocar de roupa para começar a trabalhar. Angela foi embora. Passava das nove horas quando a enfermeira nova chegou para o plantão. Estava atrasada. Dirce perguntou: - O que aconteceu? Já passa das nove. - Nada. Perdi a hora. Me disseram que o horário aqui não chega às doze horas de serviço. - Porque sai antes das sete da noite, mas tem que chegar às sete da manhã. A paciente precisa ser alimentada e tem horário para os remédios. E a criança também chega cedo, e tem que ser cuidada. - Chegar às sete da manhã? É muito cedo. - Vou falar com o Júlio que o horário não dá pra você e pedir que te substitua. - Eu não gosto de trabalhar com particular por causa disso. No hospital, somos muitas e uma cobre a outra. - E porque você não disse isso quando te mandaram pra cá? - Porque disseram que tinha gente na casa o tempo todo. Então pensei que poderia dar o remédio e o café da paciente. - Não é assim. Aqui cada um tem sua função. Não troca de roupa ainda, não. Eu vou falar com o Júlio para resolver isso. Ligou para Júlio e falou a respeito do comportamento da enfermeira. Júlio falou que levaria outra pessoa e era para Dirce dispensar essa que estava na casa. Dirce tinha colocado o telefone no gancho, quando a enfermeira perguntou: - Posso trocar de roupa? - Não. Você pode ir embora. O Júlio vai te substituir aqui e você volta para o hospital. - Tudo bem. - Pode ir agora. A mulher saiu e Dirce, que já tinha feito a higiene e dado o café de Dona Nora, foi procurar as anotações a respeito das medicações que tinham que ser administradas. Uma já tinha passado do horário. Ficou na dúvida de como agir. Ligou para Júlio e ele mandou que desse com atraso mesmo, mas que anotasse o horário que foi dado. Ainda antes do almoço, Júlio foi na casa falar com Dirce: - Tem como você cuidar dela hoje? - Já estou fazendo isso. - Me explica melhor o que aconteceu com essa enfermeira que veio hoje. - Ela chegou, já passava das nove e quando eu perguntei o que tinha acontecido, ela respondeu que nada. Estava chegando aquela hora porque sabia que a paciente não estava sozinha e quem estava com ela na casa poderia dar os remédios e o café da manhã. Quando eu falei que o horário dela chegar era sete horas, ela falou que era por isso que não gostava de trabalhar com particular. Que em hospital uma enfermeira cobre a outra. - Vou prestar atenção no horário dela no hospital. Se ela chegar atrasada sempre vai ser demitida. Que a***o, querer que os outros façam a obrigação dela. Você fez bem em me ligar. Só que hoje eu não consegui uma pessoa para substituir. - Não tem problema. Quando ela chegou eu já havia ajudado Dona Nora a tomar banho e dado o café da manhã. O único problema foi com o horário de remédio que eu não tinha dado e ela tomou atrasado. - Não chegou a ser um problema. Era remédio para pressão, que não tem um horário rígido. Eu falei com o médico dela e perguntei. O próximo pode ser dado no horário normal que não vai fazer diferença. São dois por dia. A gente marca horário apenas para não ficar um muito em cima do outro e depois ficar muito tempo para tomar o do dia seguinte. - Entendi. Pode deixar que eu fico com ela hoje. Só vou dar almoço e ajudar ela no que precisar. Se quiser ver ela, vai lá no quarto. Eu estou fazendo a comida. - E a moça que veio para cuidar da casa? - Tá lá dentro. Parece ser boa gente. Trabalha com satisfação. - Quando você ligou para falar da enfermeira, eu vi logo que essa não podia ficar aqui. Você nunca reclamou de nada e nem de ninguém. - Eu falei porque o paciente não pode ficar esperando a boa vontade da enfermeira. Os horários tem que ser respeitados. Imagina ficar até nove horas sem banho e sem café. - Eu vou ficar de olho nela. Vou ver. Dona Nora. Júlio entrou no quarto da paciente e constatou que ela estava bem. Voltou a cozinha e avisou que estava saindo. Na hora do almoço, Dirce ajudou Dona Nora a passar para a cadeira de rodas e levou até a copa, para dar almoço a ela. Depois do almoço a levou para fazer a higiene bucal e usar o banheiro. Depois perguntou se ela queria voltar para o quarto ou ficar um pouco sentada na sala. Ela respondeu de maneira enrolada que queria ficar sentada um pouco. Dirce ajudou a passar para o sofá para ficar mais confortável, e sentou perto dela para fazer companhia. Angélica apareceu para perguntar se podia almoçar. Dirce autorizou. Depois que a menina almoçou veio perguntar se precisava de alguma ajuda, e Dirce respondeu que era pra ela ficar um pouco sentada com Dona Nora, pra ela almoçar. Angélica sentou e Dirce foi para a cozinha. Dona Nora, tinha paralisado o lado direito, e como era destra, tinha que dar a comida dela na boca. Por isso Dirce não comeu junto com ela. Tratou da patroa primeiro e só agora tinha parado para almoçar. Depois lavou a louça e limpou a cozinha. Só então voltou para a sala e dispensou Angélica para voltar a fazer o que era preciso. Angélica aproveitou que Dona Nora estava na sala e limpou o quarto dela com cuidado. Abriu a janela para arejar o ambiente. Depois foi colocar roupa na máquina de lavar. Perguntou para Dirce: - E agora, o que eu faço? Está tudo pronto. Só a roupa que está batendo. - Senta um pouco. - Pode? - Claro que pode. Eu, quando fazia o teu serviço sentava sempre na parte da tarde. Vou aproveitar que você está aqui e vou ver se o Jurandir já acordou. Eu acho que esse menino dorme muito. - É bom falar isso com o pediatra. E de noite em casa? - Minha filha falou que dorme também. - Não é normal. - Vou falar pra Milena levar ele ao pediatra ou pelo menos conversar com algum. Ela trabalha no hospital com o Júlio. - É enfermeira? - Não. Recepcionista. - Mas tem contato com os médicos. - Eu vou falar com ela. Angélica ficou mais um tempo sentada, vendo televisão e depois perguntou: - A que horas a senhora começa a fazer a janta? - Varia de acordo com o que eu vou fazer. Hoje por exemplo em menos de uma hora eu faço. Só vou fazer uma salada de legumes. Sobrou muita coisa do almoço. A carne assada, dá pra janta e ainda vai sobrar. - Posso descascar os legumes? - Pode. E se levantou para separar os legumes que iria usar. A menina ficou esperando que voltasse para não deixar Dona Nora sozinha. Dona Nora falou alguma coisa que ela não conseguiu entender. Chamou por Dirce. Ela veio rápido e perguntou: - O que foi? - Ela falou alguma coisa que eu não entendi. - É sequela do AVC. E para Dona Nora: - A senhora quer alguma coisa? Dona Nora estava pedindo para ir ao banheiro. Dirce a ajudou a passar para a cadeira de rodas e levou até o banheiro. Quando saiu, pediu para ir para o quarto. Queria dormir um pouco. Jurandir estava sentado no berço brincando. Dirce o levou para a sala e deu um lanche a ele. Já tinha muito tempo que tinha almoçado. Tinha alimentado o menino antes de dar o almoço a patroa. Depois do lanche Jurandir ficou sentado no tapete da sala brincando e vendo televisão. Como Angélica tinha ido adiantar a janta, e Dona Nora estava tratada e resolvido dormir, continuou na sala. Depois de algum tempo, Angélica veio se juntar a eles. - Botei a salada no fogo. - Obrigada. - O serviço aqui não é muito. Dá tempo de descansar. - O que pra você é muito bom. Vai direto pra escola, quando sair? - Não. Vou em casa pegar o material e trocar de roupa. - E dá tempo? - Sobra. Não moro longe. E a escola é quase ao lado da minha casa. - Está estudando o quê? - Estou fazendo técnica de enfermagem. Estou no último ano. Ano que vem, vou fazer a faculdade. Estou querendo ser enfermeira que nem a minha mãe. - Espero que você seja mesmo igual a sua mãe. Hoje apareceu uma aqui que tive que dispensar. - Eu vi. Muito abusada. Mas pra mim, o paciente tem que vir em primeiro lugar. - Pra mim também. - Tomara que eu fique bastante tempo aqui. O salário é muito bom e dá para pagar meus estudos, sem problemas. - Se você não mudar, vai ficar. Não tenho motivo para dispensar você. - Obrigada. Fico feliz em ouvir isso. Vou escorrer os legumes. - Deixa que eu faço isso. Descansa mais um pouco. Daqui a pouco é hora de você ir embora. - O dia passou rápido. - Porque você está satisfeita aqui. Dirce foi para a cozinha e viu que Angélica já havia lavado a faca que usou e deixou a pia seca. Lembrava o tempo que trabalhou com Mirella. Uma ajudando a outra. Depois que a menina foi embora, Dirce ficou distraindo Jurandir até Seu Jair chegar. Milena chegou antes e levou o filho pra casa. Dirce aproveitou para falar do excesso de sono da criança. Aconselhou a levar o neto em um pediatra para verificar o que estava acontecendo. Milena prometeu providenciar, com urgência. O bebê era prematuro, mas realmente, também achava que ele dormia demais. Nos fins de semana reparava nisso. Assim que Seu Jair chegou, Dirce se arrumou e foi também. Quando chegou em casa, já encontrou Mirella e Adriano terminando o jantar na cozinha e foi se aprontar para a refeição. Estavam jantando mais cedo, e já tinham acostumado ao novo horário. Depois de arrumar a cozinha, sentaram na sala e escolheram um filme pra ver. Nos intervalos, comentavam a respeito do dia. Depois de dois filmes, resolveram se recolher. No dia seguinte, Dirce saiu primeiro e algum tempo depois o casal saiu também. Era Sexta-feira e estavam alegres por que vinha mais um fim de semana. O dia correu normal para todos e logo estavam de volta a casa para mais um fim de semana. Dirce tinha de oferecido para ir fazer o almoço. Seu Jair disse que não era necessário. Iria comprar comida pronta de uma pensão que havia na vizinhança e aceitava pedido de dieta. Tudo com bem pouco sal. Assim os três passaram mais um fim de semana juntos. Domingo de noite, Júlio ligou perguntando se podia deixar Henrique com elas. Berenice tinha entrado em trabalho de parto. - Quer que eu vá buscar ele? - Eu levo aí. - Não esquece de trazer roupas e mamadeira. - Amanhã você fica em casa com ele. Depois eu te ligo para combinar. - Tá bom. Vem logo. Desligou e avisou a mãe e ao marido. Todos ficaram aguardando a chegada do menino. Júlio chegou e deixou o filho com eles. Tinha deixado antes a mulher na maternidade do hospital e ia voltar para lá. Pediram que ligasse quando nascesse. Depois de prometer ligar, saiu com o carro. A menina nasceu assim que o pai chegou. Júlio dessa vez assistiu ao parto, segurando a mão da esposa e ficou muito emocionado. Ligou para Mirella e deu a notícia. Todos na casa festejaram a chegada da criança. Até Henrique, apesar de não entender bem o que estava acontecendo, comemorou batendo as mãos e dando pulos. Depois de um tempo, Mirella trocou a criança e colocou para dormir. Colocou bastante almofadas em volta para evitar queda e deixou o abajur aceso. Depois foi se recolher com o marido. Dirce já havia ido deitar. Quando amanheceu, Júlio avisou que Berenice teria alta no fim da tarde. E combinaram que Mirella levaria o menino pra casa. Adriano foi trabalhar de condução, apesar de Mirella ter se oferecido para levar. Na hora da saída, a esposa estava aguardando a saída dele. Berenice já estava em casa e já tinha deixado Henrique e visto a menina. Dessa vez, Berenice que já tinha mais prática, resolveu que poderia ficar sozinha com os filhos. Ela não precisava modificar o horário. Antes de sair de lá, tinha ensinado a patroa a usar a cafeteira elétrica. Mas quem fez o café foi Júlio. A menina era muito gulosa e mamava toda hora. Berenice e Júlio estavam muito felizes. Agora tinham um casal de filhos e não pretendiam aumentar mais a família. Berenice estava planejando fazer laqueadura logo que a menina parasse de mamar. Enquanto isso, na casa de Sérgio, a discussão sobre a adoção de uma criança continuava. Janice tinha dúvidas se adotando, não faria distinção das crianças. Não queria pegar uma criança para torná-la infeliz. Uma criança sente quando não é amada. Sérgio numa última tentativa, resolveu chamar a esposa para uma visita a um orfanato, para que ela visse com os próprios olhos as crianças que tinham ficado órfãs ou que tinham sido abandonadas. Sabia que a esposa era uma mulher carinhosa e alguma criança iria tocar o coração dela. Aguardou ansioso a chegada do Sábado. Enquanto isso na casa de Dona Nora, Júlio começava com a primeira sessão de fisioterapia com a sogra. Trabalhou o braço dela durante meia hora e depois se dedicou a perna. Fez ela caminhar mesmo arrastando a perna. Antes de ir embora, instruiu a enfermeira e Dirce que parassem de usar a cadeira de rodas. Tinham que ajudar se fosse necessário a ida dela aos outros ambientes da casa, mas ela deveria ir com as próprias pernas. E a bolinha de borracha era pra ser utilizada diversas vezes por dia. Depois que ele foi embora, Dirce voltou para a cozinha e a enfermeira acompanhou a paciente até o banheiro. Depois Dona Nora foi sentar na sala. Na hora do almoço foi para a copa fazer a refeição. A enfermeira aprontava a colher, mas a paciente que levava a boca. Depois de algumas tentativas e um pouco de sujeira, a mão de Dona Nora já estava mais firme. Ela começava a melhorar. No Sábado, Sérgio ajudou Janice a arrumar Felipe e foram para o orfanato. Felipe já prestava bastante atenção nas coisas e se mostrou alegre, vendo aquelas crianças brincando, mas era muito pequeno para participar. Uma menina de uns quatro anos, veio para perto do casal e começou a alisar a cabecinha dele que ria feliz. Sérgio perguntou: - Como é o seu nome? - Maria. - Quantos anos você têm? - Eu tenho quatro e meu irmãozinho dois. - Ele também está aqui? - Tá ali, olha. Sérgio olhou na direção que a menina apontou e viu um garotinho sentado de cabeça baixa que não participava das brincadeiras. - Porque ele não está brincando. - Ele é assim. Não gosta de brincar. Fica o tempo todo sentado olhando para o chão. - Como ele se chama? - Pedro. Maria foi chamada pelas coleguinhas e depois de fazer mais um carinho em Felipe, correu para brincar. Assim que ela se afastou, Sérgio murmurou: - Coitadinho, é uma criança triste. Aquilo mexeu com o coração de Janice, que dizendo que precisava ir ao banheiro, entrou no edifício deixando Sérgio e Felipe, assistindo a correria das crianças. Ao invés de ir ao banheiro, Janice se dirigiu a sala da assistente social e fez perguntas a respeito dos dois irmãos. Soube que tinham sido trazidos para o orfanato porque os pais haviam falecido, a pouco mais de dois meses. Enquanto Maria tentava se acostumar com as outras crianças, Pedro, por ser muito pequeno, ainda chorava muito e chamava principalmente pela mãe. Tinha muito pouco tempo que estavam separados e ele ainda lembrava. Janice perguntou se naqueles dois meses, ninguém tinha se interessado pela adoção deles. A assistente respondeu que tinha tido interessados sim. Porém nenhum em adotar o casal e eles não podiam ser adotados separados. Sempre tentam manter os irmãos juntos. Se passasse muito tempo e ninguém quisesse os dois, aí sim, seriam separados. Para Pedro, o esquecimento viria com o tempo, mas Maria sofreria muito com essa separação. Apesar de ter apenas quatro anos, era muito esperta. Janice agradeceu e voltou para o lado do marido. Ficaram mais um tempo observando as crianças e depois de deixar um pequeno donativo, foram pra casa. Sérgio perguntou: - O que achou desse passeio? - Gostei muito de ter ido. Principalmente daquela menina, Maria, que veio conversar com você e foi tão carinhosa com Felipe. E confesso: Menti para você. - Em que? - Não fui a banheiro nenhum. - E foi aonde? - Conversar com a assistente social a respeito da menina. - E que informações ela te deu? - Têm dois meses que estão lá. Os pais morreram de acidente e eles foram levados para lá. O menino ainda chama muito pela mãe, por isso é tão triste. Maria, apesar de muito pequena, tenta conviver bem com a situação. Já tentaram adotar os dois, mas por famílias diferentes e eles resolveram aguardar pra ver se aparece alguém que não os separe. Só que se passar muito tempo, cada vez vai ficando menores as chances de adoção. É muito difícil crianças grandes serem adotadas. A maioria das famílias, querem abaixo de um ano, porque facilita na adaptação. - E a que conclusão você chegou? - Estou pensando ainda. Mas há a possibilidade de eu concordar em criarmos aqueles dois. Sérgio abraçou a esposa e prometeu: - Não vou pressionar você. Pense com calma. Porém vou torcer para que você se decida pela adoção. - Eu sei. Mas vou parar de trabalhar. Com três filhos, vou ficar em casa para cuidar deles. - Você sabe que nunca houve necessidade de trabalhar. Daqui a pouco termina a sua licença. - Antes de terminar eu vou avisar que não volto. Assim eles efetivam quem ficou me substituindo temporariamente. - Você diz que vai pensar, mas pelo visto já se decidiu. - É verdade. Vamos entrar com o pedido de adoção. No caso deles nem vai ter fila, já que não apareceu ninguém querendo os dois juntos. - Segunda-feira mesmo eu vejo com um advogado. Maria e Pedro serão nossos filhos e irmãos do Felipe. - Temos que arrumar acomodações para eles. O Pedro fica com o Felipe, mas Maria desde já vai aprender a dormir separada. E continuaram fazendo planos. Na segunda-feira, Sérgio consultou o Jurídico da empresa e lhe foi indicado um bom advogado da área cívil, para resolver a questão. Todos ali eram da área trabalhista, porém acharam que o processo seria fácil, só ia depender da aceitação das crianças. O orfanato já tinha sido notificado do pedido e o casal passou a ir a miúdo ver as crianças. A assistente social encarregada de avaliar a situação já tinha feito a visita e mandado seu parecer ao juíz. Agora eles já poderiam pegar as crianças para passeios externos e por fim, depois das crianças concordarem, a adoção seria efetivada. Fizeram tudo, pegavam as crianças de manhã e levavam para casa. Queria que eles vissem como seria a vida dali pra frente se os aceitassem como pais. Maria era grande incentivadora do irmão, que estava menos melancólico que antes. Mostravam os quartos aonde ficariam, a piscina e o terraço e o quintal aonde poderiam brincar. Numa parte do terraço, Sérgio havia feito uma espécie de parquinho, colocando escorrega, balanço, gangorra, uma piscina de bolinhas e um pequeno pula pula. Em pouco mais de um mês as crianças foram morar com eles. Na casa de Dona Nora, está melhorando a cada dia. Já não precisava dos serviços das enfermeiras que retornaram ao hospital e Júlio prometeu arranjar mais casos particulares para as duas. Dirce tinha contado da dedicação, carinho, honestidade e pontualidade das duas. A outra havia sido demitida do hospital depois de serem constatadas diversos atrasos e negligência no atendimento aos pacientes. Até o resto das enfermeiras haviam melhorado depois disso. Dona Nora já caminhava e comia sozinha. As sequelas motoras tinham sido superadas, restando apenas um probleminha na fala e na memória. Mas isso só o tempo iria abrandar. Dirce comprava revistas de palavras cruzadas e caça palavras para ajudar a desenvolver o cérebro dela. Angélica, continuaria na casa e Dirce no posto de governanta, uma vez que Dona Nora, não tinha mais condições de continuar administrando a casa. Seu problema de memória era o que mais preocupava a todos. Guardava alguma coisa e nunca sabia aonde. Por isso, não podia mais cozinhar, mas as vezes fazia alguma coisa rápida sob a supervisão de Dirce. Na casa de Berenice também tudo estava em paz. Já tinham ido conhecer as crianças que Janice tinha adorado junto com Sérgio e se encantaram com elas, principalmente com Maria, que era esperta e falante. Até Pedro já dava suas gargalhadas. Passaram mais alguns meses e Mirella chegou para trabalhar, depois de ter deixado o marido no serviço dele. Júlio ainda estava em casa porque não era dia de plantão no hospital. Estava com a filhinha no colo, a quem deram o nome de Márcia. Chamou por Berenice e anunciou: - Estou grávida. Com dois meses de gravidez. Os patrões e amigos deram as felicitações e contentes foram comemorar com um bom café da manhã. Berenice começou a cercar a amiga de cuidados. Os quais Mirella dispensava. Tinha sido criada na luta e seu organismo era forte. Quando ia completando o nono mês de gravidez, Berenice perguntou: - Depois da licença, você volta, né? - Não vai dar. Preciso ficar em casa cuidando do bebê. Você sabe que a minha mãe trabalha. - Você pode trazer a criança todo dia. - Tem certeza? - Claro. Até vai ser melhor. Assim teremos três em casa. Criaremos os três juntos. - Vou conversar com o Adriano e depois de digo. No dia seguinte deu a resposta a Berenice: - Ele concordou. Até achou melhor do que eu ficar sozinha em casa. O que ele queria mesmo é que mamãe parasse de trabalhar, mas ela não quer nem escutar esse assunto. Ele falou que as nossas mães parecem irmãs siamesas. Não desgrudam. - Engraçada essa! Vai ver foram mesmo. No Sábado, na parte da tarde, Mirella entrou em trabalho de parto.
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