Sophia
Saimon me entregou o plano com uma confiança que me fez sentir a pressão de uma decisão que não poderia voltar atrás. O plano estava bem estruturado, e, ao que parecia, ele levou tempo para ser criado, uma estratégia pensada com cuidado. Quando ele me perguntou se eu seria capaz de executá-lo, minha resposta foi firme.
— Sim — eu disse, com a promessa de que faria o que fosse necessário para torná-lo feliz.
Ele sorriu, quase com um certo orgulho.
— Ótimo, minha menina — ele respondeu.
Eu fui adotada pelo pai dele quando tinha 12 anos. Naquela época, eu era apenas uma criança perdida, mas Saimon e seu pai me moldaram para ser algo mais, algo forte. Eles me treinaram para ser uma assassina — me ensinaram a lutar, a atirar, a não sentir dor. Eles me convenceram de que a vida que eu teria naquele orfanato seria insuportável, que eu não teria futuro. Com eles, eu tinha dinheiro, poder, carros, tudo o que eu sempre quis.
Mas, naquela noite, ao deitar sobre o peito de Saimon, algo me pesava. Ele passou a mão pelas minhas costas, como se fosse algo natural, mas eu sabia que as coisas nunca seriam as mesmas. Eu havia feito uma cirurgia para esconder as cicatrizes que ele mesmo me fez, e tudo parecia certo, mas havia algo em mim que estava mudando.
Ainda deitada, eu comecei a pensar nos dois risquinhos do teste de farmácia que fiz algumas semanas antes. Ele era o pai. Eu sabia que não poderia esconder isso por muito tempo.
— Você já pensou em ser pai, Saimon? — perguntei, sem saber bem como ele reagiria.
Ele quase se engasgou com a própria respiração.
— O que você está perguntando? — ele respondeu, sem entender a profundidade da minha dúvida.
— Sobre filhos — eu disse, esperando sua reação.
Ele me olhou, pensativo, e então me perguntou com uma seriedade que me assustou.
— Você pensa em ter filhos, Sophia? — ele questionou.
Eu não podia esconder mais nada dele. Ele me conhecia demais, sabia quando eu estava mentindo.
— É que... — eu comecei, mas ele interrompeu.
— Você vai mentir para mim agora, Sophia? — ele disse com uma dureza na voz.
— Eu estou grávida, Saimon — eu disse, com o coração batendo forte. Ele me olhou com os olhos arregalados, como se não conseguisse processar o que eu acabara de dizer.
— O que você disse? — ele perguntou, incrédulo.
— Que eu estou grávida — eu confirmei. — Estou esperando um filho seu.
Ele se levantou rapidamente, passando a mão pelo rosto, completamente atordoado.
— Isso só pode ser mentira — ele disse, pegando o celular. — Quando você descobriu?
— Hoje à tarde — eu respondi, nervosa.
Saimon começou a caminhar de um lado para o outro, mexendo em seu celular, como se procurasse alguma forma de reverter o que acabara de ouvir. Eu comecei a me sentir cada vez mais ansiosa.
— Saimon, me responde uma coisa — eu falei, tentando quebrar o silêncio.
Ele parou de repente e me olhou com uma frieza que me fez estremecer.
— Essa gravidez não vai para frente — ele disse, sem piedade. — Se arruma, Sophia, agora.
— Para onde vamos? — eu perguntei, ainda confusa.
— Se arruma — ele ordenou, com voz dura.
Eu sabia que algo estava errado, mas não podia fazer nada. Eu sabia que Saimon nunca me permitiria ser mãe, nunca me permitiria ter um filho, e isso me cortou de uma maneira que eu não conseguia expressar.
— Pensa melhor, Saimon. É uma vida — eu falei, tentando apelar para o lado humano dele, se é que ele ainda o possuía.
Mas ele apenas sorriu de forma amarga.
— Sophia, eu passei seis anos te treinando para ser uma assassina, não para ser mãe — ele disse com desdém. — Essa criança não vai existir.
Eu olhei para ele, com lágrimas nos olhos, e tentei entender o que estava acontecendo. Como ele poderia ser tão c***l? Ele era o pai, e ainda assim, ele não queria saber disso.
— Ela está aqui, Saimon, você é o pai — eu falei, com a voz trêmula.
— Essa criança não vai existir! — ele gritou, com raiva. — Você me entendeu? Você não foi treinada para ser mãe, Sophia, você foi treinada para matar.
Ele deu um soco na mesa, e o som ecoou pela sala. Ele parecia em fúria, e eu me senti pequena e impotente diante de tanta raiva.
— Se arruma, agora. Se não, eu te levo à força para o hospital — ele ameaçou, e a frieza em sua voz me fez calar.
Eu assenti e me levantei lentamente. Caminhei até o closet, troquei de roupa e voltei para encontrá-lo já pronto, nervoso. Eu sabia que não havia escapatória. Eu seguiria o que ele mandasse, como sempre fiz.
Ao sairmos, Samuel nos perguntou se íamos sair, e eu segurei as lágrimas com todas as minhas forças. Entrei no carro com ele, e as lágrimas começaram a cair silenciosamente.
— Por que está chorando? — ele perguntou, sem demonstrar nenhuma empatia. — Você não pode chorar.
— Você me disse que com você eu poderia me dar o privilégio de ser fraca, e é isso que estou fazendo — eu falei, entre soluços.
— Você queria essa criança? — ele perguntou.
Eu tentei explicar, mas ele simplesmente riu, como se o meu desejo fosse algo ridículo.
— Conciliar com o que? Com o crime? Com golpes? Com noites sem dormir? Com você enjoando e engordando, Sophia? Isso está fora de cogitação — ele disse, com desprezo.
Aquelas palavras me cortaram como facas, mas eu ainda tentei resistir.
— Saimon, por favor, me escuta — eu pedi, com a voz tremendo.
Ele virou o rosto para mim, sem piedade.
— Esquece essa criança — ele ordenou. — Você nunca será mãe.
E, com essa frase, ele destruiu tudo o que ainda restava de esperança em mim.
Quando chegamos à clínica, Vinicius já nos aguardava. Ele olhou para mim com um olhar clínico, mas Saimon foi direto ao ponto.
— Tira essa criança dela — ele ordenou, sem hesitar.
Vinicius parecia hesitar, mas sabia que Saimon não brincava quando se tratava de suas ordens.
— Precisamos ver de quanto tempo ela está — Vinicius disse.
Eu me deitei na maca, e eles começaram o procedimento. Eu estava aterrorizada, mas sabia que
não havia como voltar atrás.
Vinicius passou o gel sobre minha barriga e, no telão, uma imagem apareceu. A visão do meu bebê, pequeno e frágil, estava ali. Saimon olhou para a tela com frieza, sem expressão.
— O que isso significa? — ele perguntou, sem emoção.
— Ela está com 21 semanas — Vinicius explicou. — O bebê já não é mais um feto, está com 26 cm e 400g.
Saimon me encarou com raiva, como se eu tivesse cometido o maior dos erros.
— Você vai tirar isso de dentro dela — ele ordenou.
Vinicius olhou para ele, preocupado.
— Será doloroso para ela, Saimon. Precisamos ir para um hospital. Não tenho analgésicos suficientes aqui.
Mas Saimon não cedeu.
— Ela não sente dor. Eu a treinei para não sentir dor — ele disse com frieza, como se fosse o mais natural dos assuntos.
Eu fechei os olhos, esperando o que estava por vir.
— Faça o que for preciso — ele disse, e a partir dali, tudo foi um borrão de dor e desespero.
Eu não tinha mais escolhas. Eu estava perdida.