SAIMON NARRANDO
Eu fico parado do lado de fora, observando o que está acontecendo com Sophia e o doutor Vinicius. Tudo que não podia acontecer era ela engravidar, e admito que esse detalhe, de alguma forma, fugiu do nosso controle. Eu nunca imaginei que teria que lidar com isso.
— Você vai fazê-la sofrer demais — Vinicius diz, com uma expressão grave.
— Quanto tempo vai durar o procedimento? — pergunto, já sabendo o que está por vir.
— Um trabalho de parto leva de 24 a 36 horas. Ela vai sentir dor. Eu vou providenciar analgesia para ela. — Ele fala, tentando manter a calma.
— Não — eu respondo de imediato.
— Você está louco? — Ele questiona, surpreso com a minha reação.
— Ela precisa aprender a não me esconder nada — eu falo com firmeza. — Vai sentir tudo.
Ele não diz mais nada, mas o olhar dele diz o suficiente. Sabe que não pode argumentar, mas também não concorda com a decisão.
— E uma cesárea? Não dá para tirar tudo que faz ela gerar um filho de uma vez? — Eu insisto, sentindo a urgência de resolver a situação rapidamente.
— Podemos fazer isso em dois meses, é mais seguro para ela... A não ser que você queira que ela morra, Saimon — ele responde, com um tom cauteloso.
— Eu a quero viva — respondo, sem hesitar. — Deixe ela viva.
Vinicius suspira, exasperado, e diz que precisa atender uma paciente no hospital, mas que voltará em breve. Ele me avisa que uma enfermeira ficará monitorando Sophia e que, caso precise, ele deve ser acionado. Fico sozinho por um momento, tentando lidar com o caos dentro de mim.
Treinei Sophia para ser obediente, mas sempre soube que ela não seria 100% manipulável. Ela ainda tinha algo de imprevisível, algo que a tornava uma ameaça quando não me dizia tudo. E isso poderia ser fatal.
Entro no quarto e a vejo de pé, os olhos inchados e vermelhos, como se estivesse à beira de desabar.
— Vinicius disse que posso tomar um remédio para aliviar a dor e que não vou sentir nada — ela diz, os olhos me implorando por alguma ajuda.
— Não, ele não vai te dar nada. Eu não autorizei — falo, mais ríspido do que pretendia. Ela me encara, surpresa.
— Por favor, Saimon, as dores estão vindo em ondas, e elas só vão piorar — ela suplica, quase desesperada.
— Está suportável? — Pergunto, mais calmo, mas ainda com a voz carregada de uma frieza implacável.
— Por enquanto, sim — ela responde, a voz trêmula.
— Da próxima vez, não me esconda nada — eu a advirto. Ela desvia o olhar, culpada.
— Eu fiquei apavorada, não sabia como você reagiria — ela fala, se virando para me encarar, o rosto cheio de sofrimento.
— Se você tivesse me contado antes, não estaria passando por isso agora. Não estaria temendo tanta dor — respondo, tentando me manter firme, mas uma parte de mim também se sente culpado. — Você deixou chegar até aqui. Está matando um bebê grande.
Uma lágrima escorre pelo rosto dela, e o olhar dela se perde, como se tentasse entender o que aconteceu.
— Eu sei que você quer que eu seja forte, mas eu faço tudo o que você pede... E eu não me arrependo disso. Você é bom para mim, Saimon. Sua família me salvou de um futuro escuro, me deu uma chance. Por favor, autoriza Vinicius. — Ela olha em meus olhos, com uma sinceridade dolorosa.
— Não é que eu queira que você seja forte. Você é forte, meu amor — eu falo, passando a mão pelo seu rosto com carinho, mas minha voz ainda carregada de um tom autoritário. — Não se preocupa, tudo isso vai passar rápido.
Ela geme de dor e, embora meu coração se aperte, não consigo ceder. Me afasto dela e me sento no sofá, respondendo algumas mensagens de Antônio, que está preocupado com o andamento do plano. Eu sabia que Sophia não teria descanso, ela teria que continuar, não importava o quanto sofresse. Ela faria aquilo acontecer, e o quanto antes, melhor.
A enfermeira entra, e Sophia começa a gemer mais alto, mais desesperada. A enfermeira manda ela se deitar, mas ela não aguenta e se contorce ainda mais, gritando e chorando. O quarto se torna um lugar de desespero.
— Fica calma — a enfermeira tenta acalmá-la. — Você precisa fazer força.
Vinicius está ao meu lado, observando tudo, mas ele não diz nada. Já são 14 horas de trabalho de parto, e pelo olhar de Sophia, ela não aguenta mais. Ela me implora pela anestesia, mas eu não vou ceder. Eu queria que ela sentisse o peso de suas escolhas, e queria que ela aprendesse o que acontece quando me desobedece.
Ela se abaixa, gritando, segurando-se na cama, contorcendo-se de dor. A enfermeira tenta ajudá-la, mas a dor é insuportável. Eu apenas observo, sentindo uma satisfação amarga em ver o sofrimento dela.
— Eu não aguento mais — ela diz, entre lágrimas. — Você quer me matar, Saimon?
— Saimon, dê a anestesia a ela, pelo amor de Deus — Vinicius diz, com um tom de urgência. — Olha o estado dela.
Eu a encaro, e nossos olhares se cruzam. Ela me olha com um olhar de dor profunda, mas também de uma confiança que eu sei que não mereço.
— Faça força — a enfermeira instrui.
Vinicius se aproxima dela, com um olhar calmo. — Sophia, olha para mim. Não entre em desespero, senão vai ser pior. Me dê sua mão.
Ela agarra a mão de Vinicius, confiando nele, como se fosse a única coisa que poderia a salvar naquele momento.
As horas passam, e Sophia já está tão exausta que m*l consegue se mexer. Já são 20 horas de parto, e todos estão cansados, mas eu não saio dali. Sophia, deitada, se contorce sem forças, com o corpo se rendendo à dor.
— Faça força — a enfermeira diz, colocando um pano molhado sobre a testa dela.
Finalmente, após mais esforço, o corpo de Sophia expulsa o bebê morto. Ela olha, atônita, para o bebê nos braços de Vinicius, como se não pudesse acreditar no que acabou de acontecer. Ela me encara, e então o choro toma conta dela.
Eu me aproximo dela, a mão no rosto, sentindo uma dor que não consigo compreender completamente.
— Agora vai ficar tudo bem — eu falo, beijando sua testa com um toque suave. — Descanse.
Ela me encara, e seus olhos falam mais do que qualquer palavra poderia expressar. Ela já não me pede mais nada. Ela sabe que o que passou agora a define de uma forma irreversível.