Quando a morte hesita.

775 Words
A decisão já estava tomada quando Morte levou Daniel. Não houve aviso. Não houve despedida. Apenas um caminho sendo seguido em silêncio, como tantas outras vezes. Daniel foi levado para morrer sem saber que aquele passo era diferente de todos os outros. Morte não explicava. Nunca explicou. Ele apenas cumpria. Mas naquele dia, algo não se encaixou. Quando chegou a hora — quando tudo indicava que seria apenas mais um nome riscado da lista invisível — Morte parou. Olhou para Daniel. Não havia medo nos olhos do meu filho. Havia confusão. E talvez tenha sido isso o primeiro desvio. Em vez de atirar, Morte falou: — Por que será, hein, Daniel? Daniel sentiu o corpo gelar. Achou que aquele era o fim. Então Morte disse, seco, direto: — Cicatriz mandou eu te m***r. Eu cumpro ordem. Mas adoraria saber por que ele quer te m***r. Virou as costas. E foi embora. Morte nunca questionou ordens. Nunca. E mesmo assim, deixou Daniel ali — vivo, sem entender nada. Daniel voltou para casa. Precisava ver a mãe. Talvez fosse a última vez. O que Daniel não sabia é que, naquele exato momento, algo maior estava acontecendo. Morte quis saber o motivo. Quis entender por que aquele menino precisava morrer. Aquilo não era comum. Não era esperado. Não fazia parte de quem ele era naquele mundo. Morte não criava laços. Não tinha dó. Não protegia ninguém. Mas com Daniel, algo travou. Enquanto isso, eu estava em casa orando. Pedindo socorro do céu. Sem saber nomes, reuniões, ordens ou sentenças, mas sentindo no espírito que algo muito sério estava sendo decidido. Minha oração subia enquanto o perigo se movia. Quando Morte perguntou a Cicatriz por que m***r aquele menino, a pergunta atravessou como afronta. Para Cicatriz, não soou como dúvida. Soou como suspeita. Se até o Morte estava perguntando, então havia algo errado. A desconfiança, que já existia, cresceu. Fulgaz percebeu. E onde há brecha, ele entra. Usou palavras afiadas, bem escolhidas. Alimentou o que ainda era sombra. Transformou dúvida em certeza. Pintou Daniel como ameaça, como risco, como alguém que poderia prejudicar tudo. Disse que Daniel era “confiante demais” por andar com Morte. Que observava demais. Que sabia demais. Cicatriz fez uma chamada de vídeo com Fulgaz e Morte. Estava furioso. O simples fato de Morte ter questionado e não ter matado Daniel na hora deixou Cicatriz fora de si. Morte nunca havia questionado nada. Ele era o Morte. Matava sem perguntar. — Por que você não matou? — gritou Cicatriz. Fulgaz aproveitou. Mentiu. Distorceu. Inventou. Usou a confiança que Cicatriz tinha nele como arma. Cicatriz não gostava de ser questionado. Aquela afronta não ficaria assim. — Acaba com a vida desse menor — ordenou. — Ele é só mais um. Desde quando você tem dó de alguém? Desde quando você me questiona? Nem o próprio Morte entendia por que queria proteger Daniel. Ele o levou para m***r, mas queria saber o motivo. Nunca quis saber o porquê de nada. Mas não queria m***r aquele menino sem razão. Fulgaz começou a gritar palavrões, questionando quem mandava. Foi quando Cicatriz decidiu: — Então arruma uma situação. Acaba com a vida do Daniel. Já que o Morte está amarelando. E gritou pelo celular: — Espero que você não se arrependa dessa afronta. Você pode não m***r… mas ele vai morrer. Naquele dia, o destino de Daniel estava sendo discutido por pessoas que não faziam parte da vida dele. Eu não sabia. Mas logo saberia. Meu irmão me chamou no portão. Veio ofegante, nervoso. — O Morte levou o Dani pra m***r mais cedo… mas ninguém sabe por que ele não matou. Disse que Cicatriz tinha dado a ordem. Saí atrás do Daniel. Procurei em todo lugar. Meu irmão também. Morto ele não estava — porque Morte estava em reunião com Fulgaz. Pelo menos foi isso que Bigo disse ao meu irmão quando perguntou. Ninguém achou Daniel. Até a noite cair, ninguém tinha visto o Dani. Voltamos tarde pra casa, sem resposta, sem notícia, sem chão. Eu não dormi. Vi o dia amanhecer. Na manhã seguinte, a comunidade inteira comentava: dois homens tinham chegado. Ninguém sabia quem eram. Fulgaz estava com eles na padaria. Fui buscar pão para as crianças. Foi aí que vi. Fulgaz estava com dois homens. Um parecia com o Morte. O outro era baixinho. Meu corpo inteiro arrepiou. Entrei na padaria. Fulgaz olhou na minha direção. Os olhos vermelhos. Cara de quem não dormiu. Cara de quem sabia demais. Os homens se levantaram e foram embora com ele. E ali, sem ninguém precisar dizer nada, eu entendi: Já podemos nos preparar. Alguma coisa vem aí.
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