Um deslize seu é o que eu preciso.

1014 Words
Entrei na mansão sentindo o peso de cada passo, mas sem recuar. Assim que atravessei o hall, ouvi a voz carregada de fúria. — O que você faz aqui!? Gusmão avançou em minha direção, os olhos faiscando. Segurei firme meu próprio olhar. — Vim falar com a Liana. Ele quase cuspiu as palavras. — Você acha que existe algo que possa dizer que mude o que fez com ela? Minha filha está arrasada! Travei o maxilar. — Eu tentei fazer diferente… mas ela insistiu. A expressão dele ficou ainda mais dura, e por um instante parecia que ia me socar. — Onde está a Bianca? Soltei o ar devagar, firme. — Bianca não existe mais. — Você não vai dar a ela o que precisa. Avancei um passo, sem baixar a voz. — Eu vou dar muito mais do que você daria, Gusmão. Pode ter certeza. Nesse momento, a mãe de Liana apareceu, a raiva estampada no rosto. — Como você tem coragem de aparecer aqui depois de ontem!? Virei meu olhar pra ela, direto. — Eu sinto muito pelo que aconteceu. — Não, você não sente! ela cortou, a voz trêmula de indignação. — Você feriu minha filha, a humilhou. Todo mundo está falando dela… Fechei a mão ao lado do corpo, controlando o tom. — Eu não me arrependo do que fiz… mas isso não quer dizer que eu queria que fosse dessa forma. Ela me encarou, incrédula. — Como você larga minha filha no altar depois de cinco anos com ela? Por causa de uma garota que você conheceu quando era menino, Edgar? Eu nunca imaginei isso de você. Mantive meu olhar fixo. — Todos sabiam que eu a procurava. Não seja hipócrita. — E esse é o seu orgulho? Encontrar uma lembrança do passado e jogar fora tudo que construiu com minha filha? Você destruiu a vida dela! As palavras ainda ecoavam quando ouvi minha própria respiração falhar. E então… ela apareceu. No alto da escada, Liana me olhava. Cabelos presos de qualquer jeito, o rosto abatido, olhos fundos como se não tivesse dormido. Doeu vê-la assim. — Edgar? A voz dela quebrou o silêncio. Meu peito se apertou, mas não tinha outra forma de falar daquilo. — Liana… podemos conversar? .... Ela estava ali, parada no alto da escada, e quando me chamou pelo nome senti o chão sumir dos meus pés. Engoli em seco. Ela desceu devagar, acenando. — filha? A mãe dela disse em tom de repreensão. — Deixa mãe... Me afastei com ela, que sentou no sofá, me acomodei tenso. Mal estávamos a sós. Os olhos dela marejados, e antes mesmo que eu pudesse falar, a primeira lágrima caiu. — Você… você foi encontrá-la, não foi? Não consegui mentir. — Fui. minha voz saiu baixa, mas firme. — Eu nunca deixei de amar ela. A dor tomou o rosto dela como uma sombra. — Quando… quando você a encontrou de verdade? Baixei os olhos, envergonhado. — Na despedida de solteiro. O olhar dela se acendeu em indignação. — E como ela foi parar lá? Suspirei fundo, passando a mão pelo rosto. — Isso não importa agora. — Eu sabia… ela murmurou, a voz embargada. — Eu sabia que desde aquele dia você estava estranho. Não me olhava mais do mesmo jeito, não me tocava… e eu, i****a, pensando que era porque tinha pedido pra irmos pra casa dos seus pais… Que estúpida eu fui. — Não fala assim… tentei me aproximar, mas ela recuou. — Não é culpa sua, nunca foi. A culpa era minha. Do que eu sentia. Ela me encarou com lágrimas escorrendo. — Nunca fui eu, não é? Não importa o que eu diga ou o que eu faça… você nunca vai me amar. Apertei os punhos. — Desde o dia em que saí dessa cidade e conheci ela… eu não me pertenço mais. O silêncio ficou pesado. Então eu respirei fundo, encarando. — Mas o filho… Eu vou dar todo o suporte, Liana. Quero viver isso com você. Criar laço com a criança. Só espero que isso… não atrapalhe. Ela riu, amarga. — Agora não, Edgar… sua voz se quebrou. — Você me abandonou no altar. Eu ainda te amo. Mas não posso… e não quero que você venha, que toque a minha barriga como se fosse sua, que me olhe com pena quando eu sentir o desespero de ter sido rejeitada por você. Meu peito doeu. — Eu quero passar um tempo só… ainda temos meses pela frente, até ele ou ela nascer. — Eu quero participar disso. — Eu sei. Ela respondeu baixinho. — Mas, por favor… agora vai embora. Juntei as mãos, tentando não desmoronar. — Só de imaginar que você correu pros braços dela, me deixando aqui… grávida, sozinha, desolada… isso me destrói. Ela chorava de novo, os ombros trêmulos. — Liana… — Não. ela me cortou, enxugando o rosto. — Só vai embora, Edgar. Senti meu coração sendo esmagado, mas assenti. — Eu vou te dar um tempo. — É o mínimo que você pode fazer. ela disse firme. Me virei, caminhando até a porta. Quase saindo, mas ouvi meu nome antes de chegar ao carro. — Edgar! A voz de Gusmão ecoou, cortante. Virei de imediato. Ele me olhava de frente, desafiador. — Você pode ter conseguido fazê-la desistir daquela viagem, mas se engana ao dizer que dará a ela o que eu não daria. Nunca vai saber amar como eu amei… como eu amo. Eu sei o que ela merece. Meu sangue ferveu, a mandíbula travou. — Fica longe dela. rosnei. Ele negou, se aproximando. — Um deslize seu e uma escolha dela… é tudo que eu preciso. A fúria me cegou. Parti pra cima dele, agarrei o colarinho e puxei pra perto. — Fica ... longe... dela! ou eu esqueço que tivemos algum vínculo um dia! sibilei entre os dentes antes de soltá-lo. Saí pisando firme, o corpo todo em tensão, entrei no carro e bati a porta. Gusmão ficou parado, me encarando com aquele ar de desafio, até eu sumir pelos portões. ....
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