CLARISSE:
Assim que empurrei a porta com as malas, vi o choque estampado no rosto de Donna.
— Oi? Que que você tá fazendo aqui?!
Deixei a bagagem cair no chão e soltei um suspiro pesado.
— Não viajei.
— Como assim!?
ela arregalou os olhos.
— Que loucura foi essa?
— O Edgar.
Só isso bastou pra ela ficar muda, esperando mais. Respirei fundo.
— Ele foi até o aeroporto, abandonou a noiva no altar, me pediu pra ficar… e eu dei uma chance.
— Meu Deus…
Donna levou a mão ao peito.
— E o Gusmão?
— Ele viu tudo.
A reação dela foi automática, cobrindo a boca com a mão.
— Sabe o que é pior?
continuei, o peito apertado.
— Descobrir que o Gusmão é pai da noiva do Edgar.
— Caramba!
ela arregalou os olhos ainda mais.
Balancei a cabeça lembrando da cena.
— Ele viu o Edgar me beijando, se aproximou… os olhos dele tinham tanta indignação.
— Ise… e agora?
— A gente passou a noite juntos e ele disse que ia resolver a situação.
Donna ergueu uma sobrancelha.
— De novo? Ele já fez isso, você sabe, né? E estava lá, no altar, com a noiva.
— Eu sei.
apertei os lábios.
— Mas dessa vez foi diferente. Eu aceitei porque senti isso.
Ela mordeu o lábio e soltou baixo:
— Desculpa, amiga. Mas eu sabia.
Olhei pra ela sem entender.
— Como assim?
— Ele veio aqui.
ela fez careta.
— E eu que disse que você tinha ido embora.
— O quê?!
senti meu estômago revirar.
— Fiquei com medo de sei lá… você me odiar.
Donna encolheu os ombros.
— Mas eu que dei o endereço do aeroporto a ele. Só fiz porque ele parecia sincero, juro! Por favor, não me odeia.
Não pensei duas vezes. Fui até ela e a abracei forte.
— Eu nunca te odiaria.
Ela me apertou de volta, emocionada.
— Eu só queria o seu bem.
— E conseguiu.
sorri com lágrimas nos olhos.
— A gente se ama, Donna. Ele disse que ia resolver tudo pra gente ficar junto.
— Espero que dessa vez aconteça de verdade.
Me afastei, com um sorriso pequeno, mas esperançoso.
— Eu sinto que vai… Mesmo com todas as muralhas: a família dele, a ex-noiva, o bebê, e ainda o que eu fazia…
— É, você tem que estar pronta.
ela suspirou.
Assenti.
— E o Gusmão… como ficou?
— Arrasado. Mas eu não tinha escolha, nunca houve outra opção pra mim. Você sabe.
— Nossa… espero que ele não faça nada contra vocês.
— Ele não é assim, Donna. Você sabe.
— Homem apaixonado e rejeitado?
ela ergueu a sobrancelha.
— Eu não duvido de nada.
Só sorri, tentando afastar aquele peso.
— Me ajuda a colocar as roupas no closet?
— Claro! Vamos logo.
Passamos horas arrumando tudo, falando sem parar, Donna entre perplexa e animada com cada detalhe.
À noite já tinha chegado quando estávamos na cozinha, cantando com o som ligado, improvisando algo pra comer.
O celular vibrou na bancada. Olhei pra tela e levei um susto.
— Nossa!
— O que foi?
Donna parou na hora.
— É o Edgar.
Atendi e ouvi a voz dele, firme, baixa, que me atravessava inteira:
— Estou aqui embaixo, te esperando.
Olhei pra Donna com os olhos arregalados.
— Esqueci que ele disse que vinha me buscar pra sair.
— Chama ele pra comer aqui, ué.
Mordi o lábio, nervosa.
— Não era bem comer que a gente ia fazer… não de comida.
— Meu Deus!
ela quase gritou.
— Criei uma monstra de duplo sentido!
Eu ri, desamarrando o coque, os fios caindo soltos pelos ombros.
— Preciso me trocar!
Saí correndo pro corredor, enquanto Donna gritava atrás de mim:
— Vou mandar ele subir!
Só acenei, apressada, entrando no quarto.
Liguei o chuveiro quase em pânico.
Meu Deus… eu tô fedendo… ele não pode me ver assim!
A água quente começou a cair e meu coração batia acelerado, a mistura de ansiedade, medo e desejo me queimando por dentro.
....
EDGAR:
Estava no carro, o motor ainda ligado, quando atendi a ligação.
Não foi a voz da Clarisse que veio, mas a da Donna:
— Sobe… ela ainda não está pronta.
Soltei um meio sorriso.
— Vou subir.
Saí do carro, ajeitei a camisa e subi os degraus até o apartamento delas.
Quando bati, Donna abriu a porta com aquele olhar sagaz.
— Ela está no banho.
avisou, abrindo espaço.
— Passou a tarde toda organizando roupas. Você deveria ficar, sabia? A gente ajeitou qualquer coisa pra comer, mas você tá me roubando ela demais.
Sorri de canto.
— Tenho que ser grato. Se não fosse por você, eu já tinha perdido ela.
— Tinha mesmo.
ela cruzou os braços, arqueando a sobrancelha.
— O Gusmão assumiria ela, e olhe lá se não voltasse com ela como mulher dele… e você, com a filha dele. Olha que bela família.
Passei a mão pela barba, sentindo a tensão subir.
— Ela te contou…
— Ela me conta tudo.
respondeu rápido.
Suspirei, firme.
— E então? Resolveu tudo?
— Não tinha muito o que resolver. Só me desculpar.
Ela estreitou os olhos, avaliando.
— Assim espero. Mas como vai fazer? Vai ficar saindo com ela escondido? E depois agir como se fosse sozinho?
Meu maxilar travou.
— Eu vou fazer bem mais que isso.
Donna sorriu de canto, balançando a cabeça, e apontou discretamente com os olhos.
— O quarto dela é a segunda porta à direita. Mas não foi eu que contei.
Ela voltou pra bancada, e eu segui o caminho indicado.
O quarto estava com a porta entreaberta, e dali já ouvia o som da água batendo no azulejo.
A porta do banheiro também estava aberta, deixando ver a silhueta dela, nua, por trás do vidro embaçado.
Meu corpo inteiro pulsou.
Tranquei a porta do quarto, tirei a camisa sem pensar duas vezes e, em poucos segundos, o resto da roupa já estava no chão.
Entrei no box de uma vez, agarrando a cintura dela.
— Ah!
ela se assustou, virando rápido.
— Edgar!
Encostei seu corpo contra o vidro molhado, prendendo ela.
— Um banho quente… eu gosto.
Ela sorriu, surpresa, os olhos brilhando. Puxei-a mais perto.
— A Donna…
começou, mas eu calei antes mesmo de terminar.
— Ela não vai se importar de que eu pegue a minha mulher no próprio quarto.
— Sua mulher?
ela mordeu os lábios.
Acenei, firme.
— Minha.
Tomei sua boca num beijo urgente, faminto.
Ela era minha, e ninguém diria o contrário.
...