Desci de mãos dadas com Clarisse, o corpo dela ainda quente do banho, o cheiro doce da pele impregnado em mim. Assim que entramos na sala, Donna ergueu as sobrancelhas, meio divertida.
— O prédio inteiro escutou que ela é sua...
Clarisse escondeu o rosto no meu peito, e eu a abracei, sentindo o riso preso na garganta.
— Ai, meu Deus, que vergonha...
ela murmurou.
Apertei ainda mais os braços em torno dela.
— Não esquenta com isso.
Donna disse e apoiou o cotovelo na bancada, rindo.
— Pois é, Clarisse. Não tem como esconder mais nada, não.
Eu passei a mão pelos cabelos dela, orgulhoso.
Não tinha nada que eu quisesse esconder.
— E então, vão sair?
Donna perguntou.
Olhei para Clarisse, depois respondi:
— Pensamos em ficar.
— Servidos, então?
ela disse, abrindo os braços como quem oferece a casa inteira.
Sentamos à mesa.
Clarisse falava com Donna, mas eu m*l conseguia prestar atenção.
Só conseguia reparar nela, no jeito que se movia, nos gestos pequenos, na risada que eu conhecia tão bem.
Dez anos, e ainda assim ela era a mesma menina que um dia me desarmou sem precisar de esforço.
A mesma que fazia meu peito pesar e arder ao mesmo tempo.
Depois de comer, fomos pro quarto. Sentei na beira da cama e puxei Clarisse para ficar entre minhas pernas. Minhas mãos percorreram as curvas dela, firmes, possessivas.
— Quero sentir teu corpo todo dormindo comigo.
murmurei, removendo a camisa dela devagar.
Ela me olhou com um sorriso torto.
— Você me idolatra.
Abaixei a boca na pele dela, beijando sua clavícula.
— Você é meu templo. Vou idolatrar sempre.
Deitei com ela na cama, puxando a coberta sobre nós.
Meus dedos percorriam o corpo dela, e quando deslizei mais fundo, ela gemeu baixinho, de dor.
— Tá sensível?
perguntei, olhando em seus olhos.
Ela assentiu, mordendo o lábio.
Um fogo cresceu em mim.
— Eu fico louco com você.
— Eu também...
ela sorriu, e só isso me desmontou inteiro.
Beijei sua boca com urgência, mas logo suavizei, segurando o rosto dela entre minhas mãos.
— Meu amor...
ela murmurou.
Eu sorri contra os lábios dela, sentindo o peito latejar.
— Você me deixa louco, Clarisse.
Nos abraçamos forte, até o sono vir.
E mesmo com o corpo em transe, com a respiração dela misturada à minha, eu sabia: não queria nunca mais largar.
...
Acordei com o peso leve do corpo dela sobre o meu. O cabelo de Clarisse espalhado no meu peito, a respiração calma, quente. Por alguns segundos fiquei só olhando, sem querer mover um músculo, com medo de quebrar aquela paz rara que a gente conquistou depois de tanta p***a de turbulência.
Passei a mão devagar pelas costas dela, e senti ela se remexer, abrindo os olhos sonolentos.
— Bom dia...
ela murmurou, com a voz rouca, linda.
— Bom dia, meu amor.
Beijei a testa dela.
— Dormi como nunca.
Ela sorriu de canto.
— Eu também.
Fiquei mais um tempo com ela nos meus braços, mas a realidade bateu à porta dentro da minha cabeça.
O mundo lá fora não tinha parado só porque eu finalmente tinha ela de novo.
Suspirei, mexendo nos cabelos dela.
— Eu preciso ir até a empresa hoje.
Ela ergueu o olhar, um pouco tensa.
— Agora?
— É...
passei a mão pela barba.
— Preciso saber como fica tudo. Não posso me esconder, Clarisse. Ontem eu decidi por nós, e agora preciso encarar as consequências.
Ela se afastou devagar, sentando na cama com o lençol cobrindo o corpo.
— E você vai sozinho?
Balancei a cabeça.
— Não. Meu pai já deixou claro que estaria do meu lado. Ele entende que eu não podia continuar vivendo uma mentira.
Ela baixou os olhos, mordendo o lábio, insegura.
— Mas... e a sua família? E ela?
Sentei na beira da cama, puxei o rosto dela para mim.
— Você acha mesmo que existe alguma dúvida dentro de mim?
perguntei firme.
— Ontem eu escolhi você. E vou continuar escolhendo todos os dias, não importa o quanto doa ou quem fique contra.
Os olhos dela marejaram, e meu coração apertou.
— Edgar... eu só não quero que você se arrependa.
— A única coisa que me arrependo é de não ter feito isso antes.
respondi, sem hesitar.
Beijei sua boca, um beijo calmo, mas cheio da certeza que eu sentia. Depois me levantei, puxando minhas roupas.
— Hoje eu vou lá, vou encarar tudo, e quando voltar... volto pra você.
Ela me olhou como se não acreditasse que eu era real.
— Promete?
— Prometo.
Sorri.
— Você é meu lugar, Clarisse. O resto eu enfrento de pé.
Peguei minhas chaves, ainda sentindo o corpo dela na minha pele, e saí do apartamento com a certeza de que, pela primeira vez em anos, estava indo lutar pelo que realmente era meu.
...
O elevador vomitou meu terno no andar do escritório e, antes de eu abrir a porta da sala, já senti o ar pesado, como se todo mundo tivesse tomado conhecimento de uma bomba e aguardasse a explosão.
Passei pelo hall com a cabeça erguida, mas o estômago apertava.
Hoje não era dia pra recuar.
Quando empurrei a porta do salão principal, o primeiro rosto que vi foi o de Gusmão.
Se meteu na minha frente como se fosse muro, com aquela cara de quem veio decidir guerra.
A tensão cortou o salão ao meio.
— O que você está fazendo aqui?
ele cuspiu as palavras, seco, direto.
— Vim trabalhar.
respondi curto, sem dar espaço a cerimônias.
— Tenho coisas pra resolver.
Ele riu sem humor.
— Você acha que tem alguma coisa que diga que mude o que fez com a minha filha?
A voz fechada, cheia de nojo.
— Minha filha está humilhada!
Eu senti a raiva subindo quente.
Olhei pra ele, sem pestanejar.
— Eu sei que você está chateado. Mas não venha com moralismos. Você sabe muito bem que o meu pai está doente, que a situação toda não foi simples… E você também sabe muito bem, que tudo isso foi causado porque eu fui atrás do que era meu. Você não aceita que perdeu. Está tentando me envergonhar? Mas sabe muito bem que eu tenho tanto direito aqui quanto você.
Gusmão apertou a mandíbula, a mão tremendo por um segundo.
— Isso não tem nada haver com a Bianca… Ela vai ver que errou ao escolher você.
cuspiu a última palavra como se fosse ácido.
— Então espera... Mas fica sentado.
devolvi frio, atravessando cada sílaba.
— porque em pé você vai cansar.
Ele mudou o tom, ainda mais cortante.
— Eu não quero mais me associar a um homem que abandona a própria noiva no altar. Acabou. Não negocio mais com vocês. Com o seu nome, com a sua família. tudo pra mim acabou.
Era óbvio: ele queria me machucar onde doía, nos negócios, no status, na capacidade de manter o que eu tinha construído.
A risada que me entrou na garganta foi mole, amarga.
— Pois bem.
respondi, cada palavra arrancada.
— Vamos resolver isso no tribunal então, se é disso que você está falando.
Mas não confunda as coisas: eu não deixei de ser o CEO. Nada disso muda o que eu sou aqui. E se você acha que me tira do jogo por atitude impulsiva, senta aí também, porque vai ter trabalho pra provar isso.
Gusmão me olhou como quem não acreditava que alguém ousasse dizer aquilo.
E eu vi nos olhos dele a raiva calejada, a certeza de que eu era inimigo.
Fez questão de deixar o recado e saiu, largo, com a postura de quem acredita ter ganhado a primeira batalha.
Fiquei ali uns segundos, ouvindo as recusas, os cochichos a me perfurar.
Respirei fundo, atravessando o corredor até minha sala como se atravessasse um ringue.
A porta fechou atrás de mim com um clique que ecoou.
Na minha mesa, a foto da Liana, o sorriso que eu já conhecia.
Peguei a moldura com cuidado e, sem drama, empurrei a gaveta da escrivaninha.
A foto deslizou e sumiu na madeira. Fechei a gaveta devagar, decisivo.
Ela quis distância; já entendi.
E eu vou respeitar. Mas ninguém, nada nem ninguém, tem o direito de arrancar do meu filho os momentos da gestação.
Não deixo que isso aconteça.
Eu vou estar presente. Vou armar o que tiver de armar pra que essa criança tenha o pai que merece, mesmo se a mãe achar que eu sou o monstro da história.
Encostei a cabeça na cadeira e soltei um riso curto, seco, que saiu quase como prece.
— Clarisse…
sussurrei, tão baixo que quase não ouvi.
— Você vai me acabar.
E sorri.
Porque a promessa não era de destruição no sentido r**m: ela me desmontaria inteiro e eu, pela primeira vez, queria que fosse assim. Querendo ou não, eu já estava entregue.
....