CLARISSE:
Estava largada no sofá quando percebi que a Donna não voltaria tão cedo.
Como sempre, ela tinha um daqueles eventos que chamava de “seleção".
Aquelas noites em que exibia sua embalagem pra homens de grande porte que orbitavam a vida dela.
Eu só queria que ela saísse dessa vida, que encontrasse uma forma de ser feliz sem precisar se vender em pedaços.
Suspirei fundo, abrindo o notebook. Resolvi enfrentar um fantasma: minhas redes sociais antigas.
O passado que eu queria apagar de uma vez.
Página por página, tentando deletar tudo, sonhando em começar de novo, finalmente como Clarisse.
Mas foi bem quando cliquei em “criar nova conta” que a notificação apareceu.
Clara.
Minha irmã...
A mensagem na conta antiga, antes mesmo de conseguir sair dela.
Meu coração gelou. Fazia tanto tempo… Tremendo, cliquei na mensagem.
— Ise… Eu preciso falar com você. É urgente.
A respiração sumiu do meu peito.
Não pensei duas vezes, disquei o número dela. O toque demorou a ser atendido, e cada segundo era uma tortura.
— Clara?
minha voz saiu quebrada.
— Aconteceu alguma coisa?
— É a mamãe…
a voz dela também estava trêmula.
— Ela passou m*l, estamos no hospital…
Me levantei num pulo, o corpo inteiro em choque.
— O que aconteceu com ela?
— Eu não sei! Estávamos bem, ela ficou tonta, desmaiou… Está sendo atendida, e eu não posso entrar. Eu tô com medo, Ise…
Fechei os olhos forte, segurando as lágrimas. Minha mãe. A mesma que me rejeitou quando soube o que eu fazia. Mas ainda assim… era a minha mãe.
— Por favor, vem pra cá!
Clara implorou.
— Eu…
hesitei.
— Ela não vai querer me ver.
— Então vem por mim!
A voz da minha irmã cortou meu peito.
— Eu não tenho ninguém além de você e dela. Eu tô sozinha… por favor!
Não pensei mais.
— Tá.
ajeitei os cabelos atrás da orelha.
— Onde vocês estão?
— A mamãe voltou pra nossa casa antiga. Não conseguimos manter a outra… essa é própria. Tivemos que voltar.
Aquilo pesou ainda mais.
Logo praquela cidade. O lugar que eu lutei tanto pra nunca mais ver.
— Eu vou.
disse firme.
— Por você.
— Obrigada, obrigada, irmã…
Desliguei, respirei fundo e fui até meu quarto. Peguei o cofre escondido, tirei dinheiro e enfiei numa bolsa. Antes de sair, mandei mensagem pra Donna:
" Aconteceu algo com minha mãe, a Clara precisa de mim. Tô indo pra lá."
Entrei no carro e segui viagem.
Longa, pesada, a cada quilômetro meu corpo parecia mais rígido.
As memórias que eu não queria rever batiam de frente comigo, mas não podia ficar parada.
Peguei o primeiro vôo.
O destino? Meu maior pesadelo.
....
Horas depois, as luzes da cidade surgiram. Muito tinha mudado: ruas iluminadas, pontos turísticos novos. Mas a energia… era a mesma. Aquela sensação que eu queria enterrar.
Parei em frente ao hospital. Mandei mensagem pra Clara e entrei, com o coração martelando.
— Minha mãe está internada aqui… queria saber o leito.
falei pra recepcionista.
Antes mesmo de ela responder, ouvi:
— Ise!
Virei e vi Clara.
E por um instante, o ar me faltou.
Ela… ela estava uma mulher. Linda. O tempo tinha passado, e ela tinha florescido.
Corri até ela e a abracei.
O coração em chamas.
— Eu tô com tanto medo.
ela chorou no meu ombro.
— Disseram que ela teve um AVC…
— Calma…
murmurei, apertando ela forte.
— Vai dar tudo certo. Eu tô aqui.
Ficamos esperando juntas.
Entre uma lágrima e outra, Clara sorriu de leve.
— Você tá tão linda…
— Você também.
respondi sincera.
— Quase não te reconheci.
Ela contou que estava tentando ser professora. Eu me enchi de orgulho.
— É uma profissão linda.
— É… mas tudo tão caro…
— Se você quiser, eu posso pagar.
— Não quero.
rebateu firme, e eu senti o golpe.
Porque? Me perguntava do porquê ela não queria minha ajuda?
Será que era pelo que eu fazia? Era que achava que meu dinheiro era sujo?
Mas ela pareceu notar, logo disse em um tom mais baixo, envrgonhado.
— Você… já fez muito por nós. Eu não quero ser um peso pra você.
— Você não é.
segurei a mão dela.
— Nunca vai ser. É minha irmãzinha.
Ela sorriu com os olhos marejados.
— Como você está?
Abri um sorriso pequeno.
— Bem…
Antes que eu pudesse dizer mais, a porta abriu.
O médico saiu, a expressão séria. Nós duas nos levantamos, o coração batendo alto.
— Vocês são familiares?
ele perguntou. Nós acenamos.
— Ela sofreu um acidente vascular cerebral extenso. O quadro é delicado. Já era uma senhora idosa, com a saúde fragilizada… Nós estabilizamos, mas… não sabemos por quanto tempo ela vai resistir.
Senti o mundo girar.
— Então…?
Clara perguntou, a voz embargada.
— É hora de se despedirem.
o médico concluiu, pesado.
— Ela pode não aguentar muito mais.
Meu corpo tremeu inteiro.
Aquela mulher que me rejeitou, que me feriu… ainda era minha mãe. E eu não estava pronta pra perder.
Não sei tê-la de novo...
Aí meu Deus...
Entrei no quarto com o coração martelando no peito.
O ar cheirava a remédio, a desinfetante, a fim de tudo.
E lá estava ela… minha mãe. Tão pálida, tão magra, tão diferente daquela mulher firme que um dia eu conheci.
Meus pés pesavam como chumbo, mas eu me obriguei a me aproximar. Olhar para ela era como levar uma facada atrás da outra.
— Mãe…
minha voz saiu falha, embargada, quase não reconheci o som.
Ela não respondeu. Só aquele bip insistente do monitor, contando o tempo que parecia se esvair a cada segundo.
Senti as lágrimas arderem antes mesmo de escorrerem. Peguei na mão dela, tão fria, tão frágil, e meu corpo tremeu inteiro.
— Me perdoa…
sussurrei, baixinho, com a garganta apertada.
— Eu devia ter insistido mais, devia ter feito você me entender, devia ter lutado diferente…
A dor esmagava meu peito como se alguém tivesse enfiado a mão e arrancado meus pulmões.
Minha respiração vinha em soluços.
Eu só pensava no quanto tinha perdido tempo, no quanto poderia ter feito mais.
Clara estava do meu lado, chorando tanto quanto eu. Ela se inclinou sobre nossa mãe, as lágrimas caindo em cima do lençol branco.
O som dos soluços dela se misturava aos meus, um lamento que preenchia todo o quarto.
Apertei mais a mão da minha mãe, mesmo que ela não reagisse. Como se quisesse guardar aquele toque para sempre, como se pudesse impedir a vida de escapar dali.
— Eu ainda sou sua filha… e eu sempre vou ser.
falei, mesmo sabendo que talvez ela não pudesse ouvir.
— Eu te amo, mãe.
Meu corpo se curvou sobre o dela e eu chorei, chorei como se pudesse afogar toda a dor naquele instante.
...
Segurei forte a mão da minha mãe, mas foi Clara quem se inclinou sobre ela primeiro.
O rosto da minha irmã estava banhado em lágrimas, e a voz dela saiu entrecortada, quase gritada:
— Por quê?
ela soluçava, os olhos vermelhos de dor e raiva.
— Por que a senhora fez isso com a gente? Tudo podia ter sido diferente! E agora… vai me abandonar sozinha?
O peito dela subia e descia rápido, a revolta misturada ao medo. Eu corri pra abraçá-la, segurei os ombros dela com força como se pudesse tirar o peso do mundo dali.
— Clara… calma!
falei, mesmo com meu coração em pedaços.
— Você não está sozinha, ouviu? Você nunca vai estar sozinha enquanto eu existir.
Ela chorava contra meu peito, mas a fúria ainda saía entre os soluços:
— Eles destruíram a nossa família! Era o dever deles te proteger! E agora… agora eles se foram!
Eu engoli seco, sem resposta, sem forças pra contestar aquela verdade.
Só a apertei mais forte, tentando ser muralha quando eu mesma estava em ruínas.
Pouco depois, o médico entrou, pedindo que nos retirássemos.
Clara resistiu, mas eu a puxei, e no corredor ela desabou.
Precisaram trazer um calmante. Eu fiquei ali, tentando ser a firmeza dela enquanto por dentro eu também sangrava.
...