Abigail Shmitz Rossetti:
Estou sentindo uma leve dor na cabeça, bem no lugar onde eu machuquei quando caí da escada. Não é algo muito forte, é suportável. Aquela dor chata, que de hora em hora te dá uma alertada . Passo a mão no lugar e faço uma careta. Devido ao corte, o médico teve que raspar um pouco do cabelo, como ficou uma cicatriz, é bem provável que não volte a nascer cabelo. Ainda bem que não é possível ver.
—Pitchuca da mamãe.—Minha mãe aperta as minhas bochechas. Ela acabou de chegar do trabalho, ainda usa uma touca de p******o. As vezes ela esquece que saiu do trabalho e continua com o aparato na cabeça.
Minha mãe é farmacêutica chefe de uma farmácia de grande porte. A profissão dela é quase igual a do meu pai. A diferença é que ela manipula drogas legais, que vêem a ser medicamentos, e ele manipula álcool, que adoece o rim das pessoas. De uma forma bem sinistra as duas estão até que ligadas. Ele 'trás ' a doença e ela o alívio ou cura.
—Eu não tenho mais 10 anos.—Tenho certeza que minha bochecha está um pouco vermelha.—Deveria fazer com o Tom, e não comigo.
—Não, obrigada.—O garoto dispensa.
Todo largado no sofá, enquanto mexe no celular. Os cabelos ondulados e maiores que o de costume. É um desleixado.
—Se ajeite.—Bate na perna dele, que ajeita a postura da coluna.—Depois não reclama quando começar a sentir dores nas costas.
—Eu já nasci com dor nas costas, e nem fico assim.—Digo.—Sem falar no problema da visão.
—Qualquer dia desses vou levar os dois até o oftalmologista. E se der alguma alteração, os dois terão que suar os óculos queriam ou não.—Avisa brava.
Minha mãe é linda. Aos quase 35 anos, nem demonstra a idade que tem. Os cabelos longos e bem pretos, parecidos com os meus, o corpo lindo, cheio de curvas. Os olhos bem expressivos e encantadores. Além do charme e elegância que ela possui. Minhas duas tias por parte de mãe, possuem o corpo bem parecido com o dela. Tia Lí é a mais baixinha das três, com uma b***a gigante e empinada. Já Tia Nana é a mais alta, e foi a ousada da família que nasceu com os olhos um pouco claros, puxando ao bisavô. Quando as três estão juntas, não tem quem diga que não são irmãs de verdade.
—A Ebby que não enxerga, ela é míope.—Tom zomba —Eu enxergo perfeitamente bem. Não preciso ir ao médico e muito menos usar óculos. Vai me deixar com cara de nerd.
—Eu fico gato de óculos.—Meu pai fala e eu começo a gargalhar.—Não entendi o motivo da risada. Sua mãe me acha lindo, não é amor?
—Quando eu tiver seus músculos eu posso usar um óculos. Até lá, eu dispenso.—Tom fala.—E eu puxei a sua beleza é claro. Sou um gatinho ainda.
—A autoestima de vocês me encanta.
—Ebby estraga prazeres pai, já me acostumei.—Tom me dá língua, de uma forma bem disfarçada, pros nossos pais não perceberem. Quando estivermos sozinhos ele vai ver só, vou arrancar fora.
—Amor e amor.—Faço coração e mando pra eles.
Tom sempre diz que puxou a beleza do pai, no caso o Ti. Ele sabe que o pai biológico dele é o Nicollo, mas ele meio que ignora esse detalhe. O Thiago é pai dele e pronto, e não há quem diga o contrário. Ele já entende as coisas e sabe muito bem o que Nicollo fez conosco, ele guarda rancor, assim como eu. A diferença é que eu me lembro, senti na pele, a falta de um pai, e ele era uma criança de colo, não afetou muita coisa.
—Mãe, pai, eu bem que poderia dormir na casa da tia Mica né? Queria brincar com a Stela, com o Jerry e com a Missy.—Tom pede.—Depois da escola eu posso ir lá amanhã, por favor?
—Vem em casa, almoça, e seu pai te leva.—Minha mãe decreta. Tudo que ela fala dentro de casa é lei.
Começo a sentir uma dor aguda na minha cabeça, fecho os olhos e levo a mão no lugar. Um gemido de dor escapa e os outros conseguiram ouvir muito bem. Respiro fundo, com um pouco de dificuldades.
—Filha, calma, olha pra mim.—Minha mãe se ajoelha na minha frente. Abro os olhos e olho pra ela, tentando acompanhar seus movimentos de respiração.—Está tudo bem, se acalme.
Me acalmo, e mesmo assim ainda sinto uma dor na cabeça. Meus olhos começam a arder e eu deixo que lágrimas silenciosas caiam.
—Tá doendo mãe.—Prendo o soluço. Eu odeio chorar na frente das pessoas.
—Vou pegar os documentos dela.—Tom corre, indo ao que parece ser O quarto da minha mãe. Eu não fico com meus documentos originais. Provavelmente eu perderia eles com muita facilidade.
—Estarei no carro, iremos para o hospital.—Meu pai fala.
—Mãe, eu não quero ir.—Balanço a cabeça em sinal de negação.
—É necessário meu amor, vai ficar tudo bem.—Segura nas minhas mãos, me colocado de pé. Tom volta com uma bolsa, e juntos nós vamos até o carro.
Minha mãe optou por um condomínio mais família assim, não sei explicar. Ela não quis prédio, então preferiu as típicas casas americanas, todas num mesmo padrão, por obrigatoriedade do governo.
—Manda uma mensagem pro meu tio mãe.—Peço a ela, quando já estamos a caminho para o hospital.
—Ele já sabe.—Beija a minha testa.
Eu não sei explicar a ligação que eu tenho com meu tio. É algo tão genuíno, tão lindo. Eu implico um pouco com ele, mas é apenas brincadeira. Até vendo alguns vídeos feitos quando eu era bebê, se percebe que eu sempre preferi ele, até mesmo se comparado com o irmão. Ele me jogava pra cima, me colocava dentro da água quando ninguém estava olhando, me dava coisas que eu não deveria comer. Fazias as típicas 'malvadezas' que crianças adoram, e deve ser por esse motivo que eu amo tanto ele.

Passei por uma bateria de exames, um neurologista veio me avaliar, saber se não ouve algo mais grave, levando as dores de cabeça.
—A quanto tempo vem sentindo essas dores de cabeça?—Ele pergunta, me olhando atentamente.
Na sala agora, estão eu, o médico, minha mãe, meu pai e o tio Vince. Tom não pôde entrar, ficou lá fora com a vovó.
—Não sei exatamente a quanto tempo. Eu só sentia umas pontadas leves, mas nunca me importei, achei que poderia ser normal.
—Deveria ter contado filha.—Minha mãe dá um leve aperto na minha mão.
—Não queria preocupar vocês.—Eu odeio ter que dá trabalho.
—Avaliei o seu caso, com muito cudiado. Devido a pancada que você levou a pouco tempo, algumas células do seu cérebro acabaram sendo danificadas.—Meu coração já começa a acelerar.—Mas acalme-se, elas vão se regenerar com o tempo. Você sentiu essas dores, devido a uma concussão cerebral, que nada mais é, que uma lesão no cérebro, que acaba perturbando e alterando seu financiamento, de forma temporária ou em casos mais graves, chegando a ser permanente. Mas no seu caso, é algo bem simples, não é uma concussão grave. O problema será revertido com o uso de medicamentos. E se voltar a sentir qualquer dor, mínima que for, deve avisar aos seus responsáveis imediatamente, e você será avaliada mais uma vez.
—Eu vou falar.—Falo em tom de promessa.
—Excelente! Não devem se preocupar, rapidinho você já não sentirá mais nada, seu cérebro vai estar perfeito.—O homem sorri. Ele é bem jovem, não passa dos 33 anos. Jovem até de mais pra já ser um neurologista que trabalha num dos melhores hospitais da cidade.—Irei prescrever a receita do remédio, e vocês deverão comprar imediatamente. Tome certinho, na hora certa.
Ele prescreve a receita e da a minha mãe.
Eu odeio isso, ter que dá mais um gasto pra ela. Eu sei que o plano de saúde é bem caro, e as vezes nem cobre todos os exames e remédios.
—Obrigada doutor.—Minha mãe aperta a mão dele, que sorri.
—Disponha.—Acena com a cabeça.—Não quero ter que te ver novamente Abigail, se cuide.
—Nem eu quero voltar a vim num hospital.
Meu tio pegou a receita e ele que pegou o remédio. Ele é teimoso feito uma mula, e não aceitou que ninguém pagasse o remédio. E ainda ficou bravo comigo.
—Não sei se te dou um abraço ou te dou umas palmadas garota.—Diz bravo e eu dou um sorrisinho como quem não quer nada.—Onde já se viu, omitir algo tão importante assim dos seus pais.
—Eu vou conta da próxima vez.—Tento falar.
—É claro que você vai falar. —Ele diz ainda bravo,e olha pro Tom.—Seu salário de câmera irá cair na sua conta no final do mês rapaz, não tire os olhos da sua irmã, e nem das reações que ela tiver.
—Ei, eu disse que ia contar.—Ninguém acredita em mim nessa família.—Me dá o dinheiro, eu mesma vou me olhar.
—Nem vem roubar meu emprego.—Tom defende os interesses dele.—Pode contar comigo tio, eu vou ficar de olho nela.
—Só o que me faltava agora.—Cruzo meus braços.
—É pro seu bem meu amor.—Minha avó me abraça de lado e beija o alto da minha cabeça.—Seu pai já está sabendo, ele quis vim até aqui, mas não pôde.
—Meu pai está aqui.—Digo.—Ele sempre está comigo. Mesmo quando não pode, dá um jeito e marca presença.
Ficou um clima pesado, mas eu não me importo.
O Thiago que é meu pai, somente ele. Não adianta o filho dela ficar dando desculpas, não faz diferença pra mim.
—Podemos ir embora agora?Eu quero dormir.—Os chamo.
—Estamos indo gente, obrigada por terem vindo.—Meu pai agradece, enquanto eu caminho até o carro, depois de dá um beijo nos dois.—Obrigada mais uma vez.
—Conte conosco pra tudo.
Aceno pra eles, quando o carro vai se afastando.
Percebo que a minha avó ficou um pouco incomodada com o que eu falei, mas é a pura verdade.
Eu só tenho um pai. Meu pai de amor, de coração.