A manhã correu com risadas e brincadeiras. Depois do café, as mães decidiram visitar algumas lojas da cidade e deixaram os filhos à vontade na propriedade. Tudo parecia seguir naturalmente, mas havia algo no ar — um tipo de expectativa silenciosa que Charles e Bella partilhavam em olhares rápidos, que passavam despercebidos para todos, menos para um: Ruan.
Ele sempre conhecera Bella de perto, sempre fora o amigo de infância, o companheiro fiel. Mas ultimamente algo nele começava a se remexer como se não a reconhecesse. Ver Charles observar sua Bella com aquele olhar contido, como se guardasse segredos, lhe apertava o peito de um jeito que não sabia explicar.
À tarde, quando todos estavam espalhados pela casa, Bella caminhava distraída pelos corredores. Charles vinha na direção oposta, e quando se encontraram no meio do corredor, não precisaram trocar palavras. Ele apenas segurou sua mão e a puxou suavemente para dentro de uma sala vazia.
Era uma sala de visitas antiga, pouco usada, com cortinas pesadas e móveis cobertos por lençóis claros. A luz entrava fraca pelas janelas, criando um clima íntimo, quase cúmplice.
— Charles… — ela começou, surpresa, mas a voz morreu nos lábios.
Ele não esperou explicações. Aproximou-se devagar, segurando seu rosto com delicadeza, como se tivesse medo de quebrá-la. O beijo veio intenso, carregado de uma urgência contida. Bella, inexperiente, mas entregue, se deixou guiar, sentindo o coração disparar a cada segundo. Ele se afastou apenas o suficiente para encarar os olhos dela, ofegante.
— Você … Você é maravilhosa. Estava com saudades. - Ele tirou um fiapo de cabelo de seu rosto e a beijou novamente. O beijo se prolongou, ora doce, ora ardente, mas sempre envolto em respeito. Ele a segurava firme, mas não ousava ultrapassar os limites que sabia existir. Ainda assim, cada toque era uma chama que os consumia em silêncio.
O tempo parecia ter parado. Durante alguns segundos, nada mais existia além daquele momento, daquele calor compartilhado, daquela proximidade quase dolorosa. Charles se afastou apenas o suficiente para respirar, os olhos ainda fixos nos dela, transmitindo tudo que não podia dizer em palavras.
Um entendimento silencioso pairava entre eles, uma mistura de desejo e limites que ambos respeitavam.
O que eles não perceberam foi que, do outro lado da porta entreaberta, Ruan observava a cena. Cada toque, cada suspiro, cada momento de entrega silenciosa atingiu seu peito como punhaladas. Ele não disse nada, não interrompeu, apenas permaneceu escondido, tentando controlar o ciúme que queimava dentro de si. Ele amava Bella, isso era inegável, e ver Charles tão próximo dela, tão íntimo, despertava uma fúria misturada com impotência que quase o fez avançar. Mas ele sabia que naquele instante qualquer reação só pioraria as coisas — e Bella não deveria nem perceber sua presença.
Quando finalmente ela se afastou, rindo baixo, ainda corada e alinhando a saia do vestido Charles respirou fundo tentando recompor-se, Ruan saiu silenciosamente do local, longe dos olhos da Bela, e se deixou encostar contra a parede do corredor, os punhos cerrados.
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— Então é isso? — Ruan começou, a voz baixa, mas carregada de tensão. — É isso que você anda escondendo de todo mundo?
Charles parou diante dele, o rosto sério.
— Eu não sei do que está falando. - Respondeu sem levantar a cabeça.
— Bela. - Grunhiu.
Charles o encarou.
— Ruan… não é o que você pensa.
— Não é o que eu penso? — ele riu, mas não havia humor em sua voz. — Eu acabei de ver você beijando a Bella. Beijando a nossa Bela, a nossa garota.
O silêncio pesou. Charles respirou fundo, buscando calma, mas Ruan não parou.
— Você está enganando ela, Charles. Fingindo sentimentos, quando no fundo sabe muito bem que nosso pai afundou essa propriedade antes de morrer. — Seus olhos faiscaram. — Você sabe que está à beira da falência. E sabe também que não pode se dar ao luxo de amar a Bella. A família dela não possui ouro o suficiente para te salvar.
Charles fechou os punhos.
— Não fale dela desse jeito.
— Por quê? Não é verdade? — Ruan deu um passo à frente, tomado por uma raiva que ele mesmo não compreendia direito. — O que você acha que vai acontecer quando a Bella descobrir? Quando ela souber que você nunca poderia ficar com ela porque precisa se casar com uma mulher de posses? Vai destruí-la.
Charles engoliu seco, o peso da verdade esmagando seu peito. O pai sempre lhe cobrara responsabilidade, e ele sabia que Ruan não estava errado. Mas não era tão simples.
— Eu jamais faria m*l à Bella — disse firme, encarando o irmão. — Não ouse duvidar disso.
Ruan estreitou os olhos.
— Não é só sobre ela, Charles. — A voz tremeu, carregada de algo mais profundo. — É sobre mim também. Você nem percebe, não é? Desde que éramos pequenos, eu sempre estive ao lado dela. Sempre a fiz rir, sempre cuidei dela. E agora… agora você aparece com esse olhar misterioso e toma o lugar que sempre foi meu.
Charles o encarou, surpreso. O coração de Ruan estava em guerra, e agora as peças se encaixavam: ele também a amava.
— Ruan… — começou, mas o irmão ergueu a mão, interrompendo-o.
— Não me peça calma. Eu vi nos olhos da Bella… ela confia em você de um jeito que nunca confiou em ninguém. E você vai destruí-la quando a verdade vier à tona.
Charles desviou o olhar por um instante, lutando contra a própria consciência. Cada palavra do irmão era uma ferida aberta. Ainda assim, manteve-se firme.
— Eu respeito a Bella mais do que qualquer um. E não preciso provar isso a você.
O silêncio caiu entre os dois, denso, pesado. Ruan respirava rápido, o rosto tomado pelo ciúme e pela dor. Por fim, deu as costas.
— Então prove a si mesmo. Porque se fizer ela sofrer, Charles… eu nunca vou te perdoar.
E se afastou pelo corredor, deixando o irmão parado ali, dividido entre o amor, o dever e a sombra de um segredo que só ele carregava.