— Eu os declaro marido e mulher! — A voz da mulher diante de nós ecoou por toda a sala, e eu tremi quando ouvi aquelas palavras.
Nunca imaginei que minha vida tomaria essa direção. Eu me casaria com alguém que não amo e meu filho não teria seu pai verdadeiro. Repito a mim mesmo mais uma vez que isso é melhor do que enfrentar meus problemas sozinho.
Por mais que eu queira resolver tudo sozinha, é simplesmente impossível.
— Você pode beijar a noiva! — acrescenta a mulher com um largo sorriso, embora eu não me sinta nada feliz. Pablo e eu trocamos anéis e agora, além de um anel com uma pedra preciosa, uso outro de ouro branco no dedo.
Pablo dá meio passo em minha direção e se inclina para baixo. Acho que você pode ver o quão tenso estou. Talvez seja por isso que ele só me beijou na bochecha. É um contato breve e quase imperceptível, mas ainda não sei como proceder depois disto.
— Viva! — Bruno grita enquanto nos abraça. — Quando vamos comemorar?
— Vamos guardar isso — diz Pablo. — Maitê, agora vamos para você pegar suas coisas. Precisamos mudar tudo para o meu apartamento.
— Como você é chato! — Bruno resmunga. — O casamento acontece uma vez na vida e você age como se nada tivesse acontecido.
Acho que Pablo vê certamente as coisas dessa forma. Para ele, esse casamento não significa absolutamente nada. Ele conseguiu o que queria. Agora só falta me instalar no apartamento dele e me apresentar ao avô dele. Esse último é o que mais me assusta. Sei que o vovô não apreciará os esforços do neto.
Pablo não responde porque seu telefone começa a tocar. Ele se afasta alguns metros para conversar.
— Vamos agora, meninas? — Bruno pergunta. — Acho que não temos nada para fazer aqui.
Saímos do prédio e fomos até o veículo que nos trouxe. Pablo aparece após um minuto com o rosto insatisfeito.
— Bruno, você vai com Maitê para o quarto. Ajuda com as coisas — Maitê diz rapidamente e dá ao amigo as chaves do apartamento. — Preciso ir ao escritório. Maitê, espere por mim no apartamento.
Mal abro a boca para me opor, mas não tenho tempo. Pablo se vira e vai embora sem nem olhar para mim. Ele entra no veículo e vai embora, como se pouco importasse que ele tivesse acabado de se casar, mesmo que seja ficticiamente.
— Estamos indo embora? — Bruno pergunta.
Uma onda de irritação me invade imediatamente. Eu não diria que esperava mais de Pablo, mas a atitude dele me incomoda. Para ele, parece que tudo isso é apenas um jogo. Como se eu devesse ser grata pelo que tenho, mas não sinto a menor alegria.
Nós nos acomodamos no automóvel: Dalila e eu no banco de trás, enquanto Bruno está sentado na frente, ao lado do motorista. Não quero pensar que esta noite não vou dormir no quarto e Dalila não estará ao meu lado.
Olho para a minha mão, onde agora brilham dois anéis, e tento engolir o caroço que se forma na minha garganta.
Quando o automóvel para em frente à nossa república, Bruno nos segue até o prédio. Durante o dia, visitantes podem vir, então vamos para o nosso quarto sem problemas.
— É aconchegante aqui — Bruno comenta enquanto examina o quarto, enquanto verifico tudo na minha mala. Tenho receio de esquecer alguma coisa, embora saiba que posso voltar aqui quando quiser.
— Você está brincando comigo? — Dalila bufa. — Eu também gostaria de me mudar, mas infelizmente é impossível.
Bruno não comenta as palavras de Dalila. Pego minha mala para não carregá-la e abraço minha amiga com força. Não consigo deixar de chorar ao perceber que não haverá mais nossos bate-papos noturnos ou longas conversas.
— Sem lágrimas, Eva — Dalila me repreende, mesmo com os olhos lacrimejantes.
Dissemos adeus, mas prometo ligar para ela. Além disso, continuamos estudando juntos.
Bruno desce com minha mala na mão e eu o sigo. Ele coloca no porta-malas e abre a porta para mim. Quando me sento no banco de trás, ele inesperadamente se acomoda ao meu lado.
— Maitê, você parece uma boa menina, então vou te explicar uma coisa — ele diz, enquanto o automóvel dá partida. — Pablo não estava planejando se casar. Ele não é uma pessoa de família. É por isso que pode haver erros da sua parte. Como hoje. Deixar sua esposa grávida após assinar os papéis e ir ao escritório não é aceitável. Claro, vou mencionar isso para você, mas não espere milagres.
— Por que você está me contando tudo isso? — pergunto.
— Porque você deve estar preparado para qualquer coisa — explica. — Não crie muitas esperanças de uma vida feliz com ele. Tenho cem por cento de certeza de que não lhe faltará nada ao lado dele, mas não espere que ele se apaixone por você. Isso não vai acontecer.
As palavras de Bruno me dão muito em que pensar. Como se até este momento minha mente estivesse vazia de ideias…
Chegamos a um novo complexo residencial quase no centro da cidade, e não estou nem um pouco surpreso que Pablo more aqui. Uma grande área privada ao redor, entrada segura e estacionamento subterrâneo.
Quando o veículo para, um medo terrível me invade. É como recomeçar a vida. Como se, num instante, tudo o que existia antes desaparecesse e tudo começasse de novo.
Bruno pega minha mala e vai primeiro para o elevador, eu vou atrás dele. Entramos e vejo meu reflexo, já que as paredes são espelhos. Agora pareço um cervo assustado. Olhos enormes, lábios pálidos…
E acho não haver motivo para preocupação, já que agora só tenho um jeito, mas ainda tenho receio. Temos esta maldita incerteza.
O apartamento de Pablo fica no nono andar. Ao sair do elevador, vejo apenas duas portas e seguimos em direção a uma delas. Bruno os abre e me permite ir primeiro ao apartamento.
Assim que atravesso o limiar, percebo ser muito bonito. Tudo em tons de cinza, móveis novos. Tudo brilha e parece que ninguém mora aqui.
— É realmente o apartamento de Pablo? — Pergunto quando Bruno deixa as malas no corredor e entramos em uma espaçosa cozinha-sala de estar. Janelas panorâmicas, uma bela vista do pátio e uma estranha sensação de que este lugar não tem alma. Tudo é muito bonito e absolutamente novo, mas não há uma única planta ou um pouco de poeira no chão.
Perfeição impecável…
— Comprou ontem — Bruno revela. —Pablo voltou recentemente do exterior. Ele estava morando no apartamento do Caio, mas não queria te levar para lá.
Então é isso. Para fazer nossa história parecer mais autêntica, Pablo comprou este lugar. O que mais você estará disposto a fazer pelo cargo de CEO?
— Há dois quartos aqui — diz Bruno. — Você pode escolher aquele de que você gosta. Pablo também ainda não trouxe suas coisas.
Vou dar uma olhada nos quartos, que parecem exatamente iguais. Ambos têm o mesmo conjunto de móveis, mas um é bege e o outro, cinza. Gosto daquele com tons bege porque da janela há uma vista incrível do parque.
— Se você não precisa mais de mim, vou embora — diz Bruno.
— Claro, claro — assento — Obrigado pela sua ajuda.
— Sem problemas — sorrisos —. As chaves estão nos móveis do corredor. Acho que Pablo voltará em breve.
Quando ele sai, volto para o quarto para desempacotar e colocar minhas coisas no armário. Ainda me parece que tudo isso é apenas um sonho e que a qualquer momento pode acabar.
Não tenho muitas roupas, por isso organizo rapidamente tudo nas prateleiras. Alguns deles permanecem vazios. Troco meu vestido branco por um azul, de cintura alta. A maquiagem e o cabelo permanecem, então estou muito bem.
Meu estômago me lembra a presença dele, então ouso ir até a cozinha para comer alguma coisa. Mas quando abro a geladeira, me deparo com uma surpresa: ela está cheia até a borda de comida. Há tantas coisas que meus olhos não sabem por onde começar.
Um contraste tão estranho se apresenta. Um apartamento frio e desabitado e uma geladeira cheia de produtos.
Devo admitir que, por isso, devo agradecer a Pablo. Ele pensou que eu estava grávida e deveria estar bem alimentada.
Preparo alguns sanduíches e chá para mim. Tenho que vasculhar todas as gavetas para encontrar chá, açúcar e uma xícara. Este último demorou mais porque só havia um copo e estava escondido numa gaveta.
Parece que, quando Pablo comprou este apartamento, ele não pensou em comprar talheres para comer e beber.
Estou mastigando um sanduíche quando a porta da frente fecha com um estrondo. Pablo aparece na cozinha após um minuto e, quando me vê, para abruptamente. Ele parece ter esquecido que agora tem uma esposa.
— Bom lucro! — Ele diz secamente, aproximando-se. Ele se senta em uma cadeira na minha frente, e eu me sinto um pouco desconfortável sob seu olhar direto.
— Obrigado! — eu respondo. — Você está com fome?
— Não — responde brevemente. Preciso de um banho. Daqui a uma hora partiremos com a minha família. Você está pronto?
— Não — digo a ele agora — Mas não tenho escolha?
— Que bom que você entendeu — Pablo acena com a cabeça e se levanta da cadeira. Não se preocupe, Maitê. Se o vovô ficar bravo, eu vou levar todo o golpe.
— OK — assento. Isso me acalma. Só tenho a sensação de que a família de Pablo não ficará muito feliz com uma nora como eu.