Panna Cotta

869 Words
Do outro lado da porta Vitto segurava uma travessa com panna cotta, um doce típico da sua terra e que ele adorava, fez porque queria dar a Lina quando o marido fosse outra vez para o trabalho, mas não resistiu, o binóculo facilitou e o italiano morreu de ciúmes ao ver ela com aquele sorriso servindo o almoço como se realmente fosse feliz naquela vida que ele julgava miserável. Não sabia, o italiano não sabia, mas ele era a razão daquele sorriso de Lina e não o marido. Quando viu Henrique gritar não aguentou olhar, não outra vez, pegou o doce ainda quente, a calda vermelha penetrou das rachaduras que o movimento causou. Bateu na porta, tocou várias vezes a campainha e quando Henrique saiu ele já estava segurando a travessa com a mão esquerda enquanto a direita empunhava com firmeza a cabo da pistola. - Pois não! Vitto relaxou a pegada e disfarçadamente soltou a arma e arrumou a roupa. - Eu me chamo, Matteo e me mudei para casa em frente, vim trazer um doce para me apresentar. - Tá, apresentado! Pode ir! Vitto, pela primeira vez não soube o que fazer, então apelou para o que sabia que Henrique apreciava. - Sou novo por aqui e estava pensando em sair para beber, podia me apresentar uns lugares, comemos alguma coisa. Não precisou de muito e Henrique concordou, detestava a comida de Lina, não que ela cozinhasse mαl, mas ele já não tinha paladar, a cocαína havia levado isso, assim como os seus dentes naturais, a drogα enfraqueceu o esmalte dos dentes e ele precisou de alguns implantes, colocou a culpa disso na esposa também, disse que era estresse. Vitto esperou Henrique voltar, viu o policial colocar o doce de qualquer jeito sobre a mesa e pegar as chaves do carro, mas os olhos do italiano estavam procurando pela garota. Saiu com Henrique pensando em voltar, mas aproveitou cada ida do policial ao banheiro para abrir o próprio anel e colocar um outro pó branco nas bebidas do marido de Lina, a Olanzapina era usada por ele para dopar pessoas que ele precisava manter vivas em viagens longas sem causar dor de cabeça. Várias doses depois Henrique voltou completamente atordoado para casa e precisando de ajuda até mesmo para descer do carro. Vitto o deixou na cama, fechou a porta do quarto, tinham sido recebidos por Lina e o italiano notou a vergonha da mulher, apesar disso, fingiu não se importar. - Vem comigo? - Não - Ele não vai acordar, bebeu demais. Lina conhecia o marido, sabia que beber demais não significava que ele apagaria, ao contrário, tinha o sono muito leve, provavelmente estava ouvindo aquela conversa e por isso se afastou, segurou a mão do italiano sem pensar, só queria se proteger, mas a sensação de arrepio percorreu a pele de uma forma que a fez soltar e ruborizar automaticamente. Vitto deu dois passos em direção a Lina e ela ficou presa entre a parede e o corpo firme do italiano. Ele quase não conseguiu desviar o olhar da mulher que tanto o fascinava, apesar disso, viu ela tremer e ruborizar ainda mais, sem desviar os olhos dos dele, mas tremendo. - Tudo bem, eu entendo, bella. Se precisar de qualquer coisa, estou aqui. O olhar era forte e penetrante como se Vitto fosse o dono daquela casa e não o homem alcoolizado fechado naquele quarto. A segurança com que o italiano agia a fazia pensar que o dinheiro deixa as pessoas com a falsa impressão de invencibilidade, achava que Vitto não tinha ideia de onde estava se metendo, era apenas um figurão convencido e com uma arrogância máscula que a fazia viajar naquela loucura. O italiano como se ouvisse os pensamentos de Lina abaixou, levou os lábios até quase tocarem os da mulher e sussurrou. - Vou voltar para casa agora. Lina assentiu, ficou aliviada pela oportunidade de escapar daquela situação que a atraia e assustava na mesma proporção. Vitto saiu pela porta da frente, não se incomodou em fechar, quis que ela o visse olhar de novo para ela antes de atravessar completamente o quintal. Na manhã seguinte, Lina acordou cedo. Ela desceu as escadas com cuidado para não acordar Henrique, que ainda estava em um sono pesado e reconfortante, sem saber que estava sob efeito da Olanzapina. Assim que entrou na cozinha, ela viu a travessa de panna cotta ainda sobre a mesa, a calda vermelha já endurecida nas rachaduras do doce. Sentiu uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto, um estranho havia lhe feito aquela gentileza, algo que há muito tempo não experimentava em sua vida. Cortou um pedaço da sobremesa, saboreando cada mordida, não era enjoativo como esperava, ao contrário, parecia mesmo um carinho, o sabor se espalhava pela língua quando se ela comece nuvens e enquanto se permitia sorrir pensava na possibilidade de um futuro diferente. - Podia ter sido você naquele bar, um doce ao invés de uma cerveja, um beijo no lugar dos.... Quis falar socos, mas tinha vergonha de falar aquilo em voz alta, mesmo que estivesse sozinha, como se admitir para si mesma a vida que tinha fizesse tudo se tornar, ainda mais, dolorosamente real.
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