A noite que não deveria acontecer
A chuva caía forte, sem dar trégua.
Lorena apertava os braços contra o próprio corpo, tentando se proteger do frio enquanto caminhava apressada pela calçada quase vazia. O vestido colava na pele, completamente encharcado, e os cabelos loiros grudavam no rosto.
— Droga… — murmurou, olhando em volta, procurando qualquer abrigo.
Nenhum carro parava.
Até que um farol forte iluminou seu corpo.
Um carro preto, imponente, parou ao seu lado.
O vidro desceu lentamente.
— Entra.
A voz era grave. Segura. Autoritária.
Lorena hesitou.
Então olhou para dentro.
E o viu.
Moreno. Olhar intenso. Barba levemente grisalha. A postura de alguém que não pedia… mandava.
Algo dentro dela se contraiu.
— Eu… — ela tentou falar, mas a chuva apertou.
— Você vai ficar doente aí fora.
Sem saber por quê… ela abriu a porta.
Assim que entrou, o calor do carro envolveu seu corpo. O cheiro dele… amadeirado, forte… tomou seus sentidos.
Ele a observava.
Sem disfarçar.
Sem vergonha.
— Nome? — ele perguntou.
— Lorena…
Ele assentiu devagar.
— Bonito.
O silêncio que se seguiu era pesado. Carregado.
Elétrico.
Ela sentia o olhar dele deslizando por cada detalhe — da sua pele molhada… até seus lábios.
— Onde eu te deixo?
Ela engoliu seco.
Não queria sair.
E isso a assustou.
— Você pode… só dirigir um pouco?
Um leve sorriso surgiu no canto da boca dele.
Como se já soubesse.
— Posso.
O carro arrancou.
E naquela noite… Lorena tomou a primeira decisão que mudaria completamente sua vida.
O carro seguia pela estrada molhada, os faróis cortando a chuva enquanto o silêncio entre eles crescia… pesado, vivo.
Lorena sentia.
Cada segundo.
Cada respiração.
Cada olhar dele.
Era como se o ar dentro daquele carro tivesse mudado… mais denso, mais quente.
Mais perigoso.
— Você sempre entra no carro de estranhos? — ele perguntou, a voz baixa, quase um aviso.
Ela virou o rosto devagar, encontrando o olhar dele.
— Só quando eu sinto que devo.
Um canto do lábio dele se ergueu.
Não era um sorriso gentil.
Era o tipo de sorriso que prometia problema.
— E o que você sente agora, Lorena?
O nome dela na boca dele… arrepiou sua pele inteira.
Ela hesitou.
Mas não recuou.
— Que eu não devia estar aqui…
Ele diminuiu a velocidade.
Parou o carro em um lugar afastado, cercado pelo som da chuva batendo forte no teto.
E então virou completamente para ela.
Os olhos escuros a prenderam.
— Então por que não saiu ainda?
O coração dela acelerou.
Forte.
Descompassado.
Mas o corpo… não obedecia ao medo.
Obedecia a ele.
— Porque eu não quero.
O silêncio que veio depois foi quase ensurdecedor.
Ele a observava como um homem que já tinha decidido.
E quando se aproximou…
foi lento.
Calculado.
Como se desse a ela a chance de fugir.
Ela não fugiu.
Quando os lábios dele tocaram os dela, não foi um beijo doce.
Foi intenso.
Profundo.
Dominante.
Como se ele estivesse testando limites… e ultrapassando todos ao mesmo tempo.
Lorena segurou na camisa dele sem perceber, puxando-o mais perto, como se precisasse daquilo.
Como se sempre tivesse precisado.
A mão dele subiu pelo braço dela, firme, quente… até alcançar seu rosto, segurando-o com uma mistura perigosa de controle e cuidado.
— Você não faz ideia… — ele murmurou contra os lábios dela, a voz rouca — …do tipo de problema que está arrumando.
Ela deveria parar.
Deveria empurrá-lo.
Deveria lembrar do noivo.
Mas naquele momento…
nada disso importava.
— Então não para — ela sussurrou.
E aquilo foi o suficiente.
A intensidade aumentou.
O beijo ficou mais urgente, mais profundo, mais… inevitável.
Como duas forças colidindo.
Sem controle.
Sem volta.
A chuva continuava caindo lá fora.
Mas dentro daquele carro…
o mundo inteiro parecia em chamas.
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Horas depois…
Lorena encostou a testa no vidro, tentando recuperar o fôlego, enquanto a cidade começava a aparecer novamente.
Silêncio.
Mas não era vazio.
Era cheio de tudo que tinha acontecido.
Ele mantinha as mãos no volante, o olhar sério agora… mas ainda carregado.
— Isso não pode se repetir — ele disse.
A voz firme.
Definitiva.
Lorena olhou para ele.
E pela primeira vez… sentiu algo além do desejo.
Sentiu falta.
Antes mesmo de ir embora.
— Eu sei.
Mas nenhum dos dois acreditou.
O carro parou.
Ela abriu a porta.
A chuva já tinha diminuído.
Antes de sair completamente, ela olhou para ele mais uma vez.
Quase perguntou o nome.
Quase ficou.
Mas não fez nenhum dos dois.
E foi embora.
Sem saber…
que tinha acabado de entrar na vida do homem mais perigoso que já pisaria no seu destino.