A noite que não deveria acontecer

772 Words
A chuva caía forte, sem dar trégua. Lorena apertava os braços contra o próprio corpo, tentando se proteger do frio enquanto caminhava apressada pela calçada quase vazia. O vestido colava na pele, completamente encharcado, e os cabelos loiros grudavam no rosto. — Droga… — murmurou, olhando em volta, procurando qualquer abrigo. Nenhum carro parava. Até que um farol forte iluminou seu corpo. Um carro preto, imponente, parou ao seu lado. O vidro desceu lentamente. — Entra. A voz era grave. Segura. Autoritária. Lorena hesitou. Então olhou para dentro. E o viu. Moreno. Olhar intenso. Barba levemente grisalha. A postura de alguém que não pedia… mandava. Algo dentro dela se contraiu. — Eu… — ela tentou falar, mas a chuva apertou. — Você vai ficar doente aí fora. Sem saber por quê… ela abriu a porta. Assim que entrou, o calor do carro envolveu seu corpo. O cheiro dele… amadeirado, forte… tomou seus sentidos. Ele a observava. Sem disfarçar. Sem vergonha. — Nome? — ele perguntou. — Lorena… Ele assentiu devagar. — Bonito. O silêncio que se seguiu era pesado. Carregado. Elétrico. Ela sentia o olhar dele deslizando por cada detalhe — da sua pele molhada… até seus lábios. — Onde eu te deixo? Ela engoliu seco. Não queria sair. E isso a assustou. — Você pode… só dirigir um pouco? Um leve sorriso surgiu no canto da boca dele. Como se já soubesse. — Posso. O carro arrancou. E naquela noite… Lorena tomou a primeira decisão que mudaria completamente sua vida. O carro seguia pela estrada molhada, os faróis cortando a chuva enquanto o silêncio entre eles crescia… pesado, vivo. Lorena sentia. Cada segundo. Cada respiração. Cada olhar dele. Era como se o ar dentro daquele carro tivesse mudado… mais denso, mais quente. Mais perigoso. — Você sempre entra no carro de estranhos? — ele perguntou, a voz baixa, quase um aviso. Ela virou o rosto devagar, encontrando o olhar dele. — Só quando eu sinto que devo. Um canto do lábio dele se ergueu. Não era um sorriso gentil. Era o tipo de sorriso que prometia problema. — E o que você sente agora, Lorena? O nome dela na boca dele… arrepiou sua pele inteira. Ela hesitou. Mas não recuou. — Que eu não devia estar aqui… Ele diminuiu a velocidade. Parou o carro em um lugar afastado, cercado pelo som da chuva batendo forte no teto. E então virou completamente para ela. Os olhos escuros a prenderam. — Então por que não saiu ainda? O coração dela acelerou. Forte. Descompassado. Mas o corpo… não obedecia ao medo. Obedecia a ele. — Porque eu não quero. O silêncio que veio depois foi quase ensurdecedor. Ele a observava como um homem que já tinha decidido. E quando se aproximou… foi lento. Calculado. Como se desse a ela a chance de fugir. Ela não fugiu. Quando os lábios dele tocaram os dela, não foi um beijo doce. Foi intenso. Profundo. Dominante. Como se ele estivesse testando limites… e ultrapassando todos ao mesmo tempo. Lorena segurou na camisa dele sem perceber, puxando-o mais perto, como se precisasse daquilo. Como se sempre tivesse precisado. A mão dele subiu pelo braço dela, firme, quente… até alcançar seu rosto, segurando-o com uma mistura perigosa de controle e cuidado. — Você não faz ideia… — ele murmurou contra os lábios dela, a voz rouca — …do tipo de problema que está arrumando. Ela deveria parar. Deveria empurrá-lo. Deveria lembrar do noivo. Mas naquele momento… nada disso importava. — Então não para — ela sussurrou. E aquilo foi o suficiente. A intensidade aumentou. O beijo ficou mais urgente, mais profundo, mais… inevitável. Como duas forças colidindo. Sem controle. Sem volta. A chuva continuava caindo lá fora. Mas dentro daquele carro… o mundo inteiro parecia em chamas. --- Horas depois… Lorena encostou a testa no vidro, tentando recuperar o fôlego, enquanto a cidade começava a aparecer novamente. Silêncio. Mas não era vazio. Era cheio de tudo que tinha acontecido. Ele mantinha as mãos no volante, o olhar sério agora… mas ainda carregado. — Isso não pode se repetir — ele disse. A voz firme. Definitiva. Lorena olhou para ele. E pela primeira vez… sentiu algo além do desejo. Sentiu falta. Antes mesmo de ir embora. — Eu sei. Mas nenhum dos dois acreditou. O carro parou. Ela abriu a porta. A chuva já tinha diminuído. Antes de sair completamente, ela olhou para ele mais uma vez. Quase perguntou o nome. Quase ficou. Mas não fez nenhum dos dois. E foi embora. Sem saber… que tinha acabado de entrar na vida do homem mais perigoso que já pisaria no seu destino.
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