No avião

1076 Words
Margarida Santiago Me ver dentro daquele avião foi um misto de alegria e apreensão, o começo do meu sonho se realizando, está certo de que não escolhi o destino nem estou indo para algo previsível, sinceramente isso me assusta. Tudo no meu destino é incerto, não sei o que me aguarda, descobri em menos de um dia que tenho irmãos e que meu pai era um monstro, faço parte de um cartel, nossa isso é de enlouquecer! - Respire fundo, criança, você está ficando pálida, está com medo? _ perguntou vovó Marta segurando nas minhas mãos. Isso tudo é uma loucura, pensei que um dia você viria e me levaria para moramos em sua fazenda, nada comparado com isso que está a acontecer. _ digo tentando controlar os meus pensamentos. - Fique calma e tente refletir um pouco sobre tudo isso, uma coisa de cada vez, as coisas são o que são, você apenas não conhecia, então tente se encaixar de alguma forma, querida. _diz carinhosamente. - E se eu não quiser fazer parte disso, vovó, se eu quiser seguir outro caminho? Afinal eu sempre estive longe, é como se eu não fosse como vocês. _ perguntei esperançosa da vida que sonhei ainda ser possível - Você nasceu nesse meio, querida, querendo ou não você faz parte, infelizmente o seu caminho está traçado com um casamento, mas como vai vivê-lo só depende de você. _diz ela me encorajando. - Mas eu não sei nada sobre isso, como agir ou que fazer. _ digo confusa - Não tem muito o que fazer, mas você pode moldar algumas coisas ou outras, você vai casar Margarida, existe um contrato há mais de dez anos para você. _ diz com pesar. - Não pode ser, não é assim que sonhei, que planejei ter uma família, vovó, como posso me casar com um homem que nem conheço? _ digo ficando nervosa. - Nenhuma de nós teve essa escolha, a não ser aquelas que de alguma forma conseguiram burlar o sistema a seu favor e escolher seus maridos, sua irmã Martina Esther, foi uma dessas sortudas, mas as outras tiveram que cumprir esses acordos. _ diz me confortando. - Um homem que nunca vi, ele é violento, vai me bater, como vou moldar a minha vida com uma pessoa dessas? _ perguntei entrando em pânico. - Primeiro saiba se impor, não com rebeldia, mas com graça e jeito feminino que os homens como os da máfia não sabem resistir, segundo você tem irmãos, querida, o posso lhe afirmar esses meninos são muitos protetores, não os expulse da sua vida, eles também sofreram nas mãos de Martin e por sorte do destino houve pessoas que não desistiram deles e hoje eles sabem amar. - É reconfortante ouvir isso, vovó, eu tenho tanto medo, isso tudo é tão novo, chega a ser apavorante. _ digo deixando as lágrimas caírem. - Eu sei minha menina, você cresceu distante de tudo que vai fazer parte da sua vida e terá que se habituar, mas você não estará só, seja corajosa e use essa cabecinha linda. Tenho certeza de que encontrará um jeito de usar as coisas ao seu favor. _ diz ela com um olhar perspicaz e encorajador. - A senhora foi feliz? Me conte um pouco vovó preciso ter um pouco de noção do que vou encontrar pela frente. _ peço curiosa, não tenho noção do que é viver na máfia, nem em família. - Não fui a mais feliz das mulheres, mas também não fui infeliz, vou te contar um pouco da minha vida, querida, hoje os tempos são outros, mas talvez isso poderá te ajudar. _ diz sorrindo docemente. - Acredito que sim, não sei nada sobre conviver em família, nem as leis e normas do cartel. _ digo ela assente. - Você vai aprender aos poucos, mas para nós mulheres as regras se resumem em ser submissas, obedientes, discretas e nunca falar o pouco que sabemos dos negócios... Como a maioria das moças do cartel, cresci cercada de cuidados, eu e meus irmãos foram amados e protegidos, meu pai era louco por minha mãe e ela era sua única esposa, o que não aconteceu comigo... fui a segunda esposa do seu avô Manuel Ramiro Santiago, ele era bem mais velho que eu, muito rígido e temido, os rumores sobre ele era aterrorizante, entrei para esse casamento aterrorizada, mas confiante que não deixaria me abater... quando se inicia algo você tem que ter confiança Margarida, se agir e pensar como derrotada ai já está tudo perdido, entende? - Acho que sim, Vovó, continue por favor. - Manuel, por alguma razão foi bom comigo e me deixou ser o que sou, acho que ele se permitia ser mais livre ao meu lado, sei que ele agia diferente com Martina, a sua primeira esposa e filhos, mas comigo ele era diferente e não posso dizer que sofri como ela, que me odiou muito quando soube e via que não andava machucada, que tinha mais liberdade para sair e viajar com ele, dizem que foi por minha causa que ela morreu, porém, não acredito, ela teve câncer e morreu. - A senhora foi separada da sua família após o casamento? - Minha família é do Texas, nos víamos poucas vezes, mas Manuel não impediu o contato, hoje meu irmão Joshua é o líder do território, a minha outra irmã morreu ainda jovem numa emboscada contra seu marido, deixou três filhos, que as vezes passam alguns dias na fazenda. - Que bom, pensei que depois do casamento não poderia mais manter o contato. - Isso é quando o homem é problemático e controlador demais, impedem as mulheres de sair e de ter uma vida social, seu pai era desse jeito, Madalena sofreu bastante nas mãos dele. - Vovó, minha mãe, ela era a segunda esposa de Martín, como ela morreu? Eu não me lembro, poucas coisas vem em minha mente da minha infância? _ perguntei expectante. - Agora não é hora, minha querida, durma um pouco, a viagem é longa. _ diz ela alisando a minha mão, apesar de estar mais tranquila ainda tenho muitas dúvidas uma delas é o porquê fui escondida e separada da minha família por tanto tempo? Hernandez esse tempo todo ficou distante no computador, o fone no ouvido, conversando com alguém, ele sorriu e a esperança de que eu possa realmente ter uma família me invade e dormir me sentido em paz.
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