Os jantares em família eram tão claustrofóbicos que os servos se contorciam nos cantos, ansiando para que aquele momento tenso terminasse, foi assim por cinco noites, o príncipe e a duquesa comendo cada um no seu canto, às vezes paravam e se encaravam por um tempo longo e desconfortável, e quando pensavam que eles começariam um diálogo, logo um dos dois quebrava o olhar e se voltava para a comida no prato.
Jeremy também estava sem falar com Elisie, pois ela mandara o pai dele embora, e isso era mau. Ele repetia todas as vezes quando ela ia vê-lo, e quando era Dixon quem ia vê-lo, ele expulsava-o afirmando que ele não era seu pai. Os servos comentavam pelos corredores como aquela família era um desastre, e colocaram toda a culpa na duquesa.
Elisie parou no corredor, observou por um momento seu marido sentado no banco, pensativo, um tanto deprimido.
Desculpe
Sussurrou para si mesma, sentindo o peso do seu egoísmo momentâneo. Mas o que podia fazer? Não era perfeita, era egoísta, muito egoísta.
― Minha senhora, um senhor que não quis revelar o seu nome, pediu um encontro com a senhora.
― Ele está aqui agora? ― A serva assentiu, Elisie deu uma última olhada no seu marido antes de dar meia volta e ir até o desconhecido.
― Traga-nos chá. ― Mandou antes de entrar no seu escritório, o homem, um idoso de cabelos muito brancos e pele murcha se levantou, lançando para Elisie um sorriso de orelha a orelha.
― Você é a viva imagem de Laura. ― Elisie não conseguiu disfarçar a surpresa. Diante de si, estava Ezenkiel, mas o tempo foi severo com ele, cuja beleza sumiu completamente, apenas os olhos continuavam lindos e reluzentes.
― Ezenkiel... ― O sorriso dele murchou.
― Então eu estava certo, você mexeu com o passado.
― O que você está insinuando? ― Perguntou encarando o chá que a serva colocava nas xícaras.
― Eu lembrei-me de um passado que não aconteceu, nesse passado eu fui acusado de traição, uma bruxa arrancou a minha alma e essência do corpo e a prendeu ao corpo de um bebê. Esse bebê era o atual rei de Darkeng... ― Ele parou, pois, contar todas as memórias asquerosas que se lembrava causava-lhe um nó no estômago.
― É suficiente. Como sabia sobre mim?
― Eu a vi quando veio para Olívis. Não pense que estou perseguindo a senhora, eu apenas estava curioso sobre a primeira duquesa por título... Não imaginava que ela seria idêntica à mulher que um dia na minha juventude amei.
― Traga Dixon ao meu escritório. ― Elisie ordenou para a serva. Em seguida, se inclinou para mais perto do sexagenário.
― Não entendo como você se lembrou de tudo, lamento, eu apenas queria que Dixon se lembrasse de mim.
― Não se desculpe, fico feliz em saber que o meu destino mudou, eu fui feliz nessa vida. ― Dixon entrou no escritório, o seu rosto não mostrou nenhum rastro de reconhecimento ao ver Ezenkiel, ou melhor, o ser que se tornou Gomon naquela vida.
― O que deseja, Elisie?
― Não o reconhece? Diga olá para quem um dia foi Gomon. ― Dixon deu um passo para trás, o seu rosto revirou-se numa careta de assombro, Ezenkiel também não parecia à vontade diante de Dixon.
― Finalmente podemos viver uma vida normal e humana, Dixon.
― Você se lembrou? Como?
― Não sei, uns seis dias atrás a memória apenas voltou.
― Traga a feiticeira...
― Estou aqui. ― Elisie conteve a vontade de revirar os olhos de irritação, aquela feiticeira sempre estava nos lugares mesmo sem ser chamada. ― E ele lembrou-se por que tanto ele, como o príncipe Dixon já foram uma só alma. Ah! E o rei Mercúrio também já deve estar ciente. ― Elisie levantou, as mãos começaram a tremer, e o coração bater mais rápido.
― Controle-se, Elisie, não creio que o meu pai... Mercúrio deseja vingança. Ele não é como antes.
―, Mas ele lembra. E se ele... tentar m***r você de novo?
― Sim, mas só por isso você pensa que ele odiará todos nós e começará um m******e? Não seja tola, eu lembro do passado, mas ainda o amo, pois nessa vida ele foi um bom pai. ― Elisie suspirou, não conseguia ficar tranquila sabendo que Mercúrio lembrava de tudo. Ele detinha o maior poder agora.
― Bom, devo ir, a minha família espera-me para o almoço.
― Depois do que Laura fez com você, o que aconteceu? Leu a carta? Eu sei que eu já não sou Laura, mas ainda sinto que devo mil desculpas para você.
― Eu deixei o reino e vim para as ilhas de Olívis, encontrei uma boa esposa, eu a amo. Não existem amores eternos, só amores passageiros. ― Ezenkiel se aproximou de Elisie, pegou nas suas mãos de forma carinhosa e então revelou:
― Naquela outra vida, quando fui condenado por traição, antes que Beatrice fundisse a minha alma com a daquela criança, eu implorei para ela proteger você, implorei tanto, que ela aceitou, comovida, e quem não ficaria? Eu estava prestes a ter um destino pior que a morte, e pensava primeiro na minha amada. Ela deu para Laura uma gota do seu sangue de deusa. ― Elisie sorriu não compreendendo muito bem o que ele dizia, a feiticeira completou:
― Dar uma gota de sangue para um deus é o mesmo que dizer ao mundo que esse humano é seu ser mais amado. Por isso que os bruxos pensavam que você era sua alma gêmea, e por causa disso Gomon nunca conseguia ferir-te. Você era amada pela deusa. ― Elisie o abraçou.
― Obrigada, muito obrigada, sinto que sou a pessoa mais injusta que existe, fui e sou tão amada e nunca retribuo como é devido a esses amores.
― Tudo bem, humanos são cegos para algumas verdades. Adorei conversar com você, Dixon, seja feliz agora nessa vida. ― Dito isso, o idoso retirou-se, e a serva o acompanhou até a saída, deixando Dixon e Elisie sozinhos no escritório.
Ele aproximou-se da janela, buscando uma forma de iniciar um diálogo com Elisie, porém as palavras pareciam se esconder quando abria a boca.
― Dixon... eu sei que me odeia agora... eu sei que...
Um pombo-branco com uma fita tão vermelha como sangue envolta do seu pescoço pousou na janela, ergueu a perninha onde um grande embrulho de carta estava preso.
― É para você. ― Disse Dixon entregando a carta para ela, não demorou muito, até outro pombo-branco pousar na janela, agora a carta estava endereçada ao príncipe, Dixon a pegou e retirou-se do escritório, Elisie queria pedir que não fosse, que não guardassem segredos um do outro, porém ela limitou-se em suspirar e abrir a carta:
Para Lina, Izalya, Laura e Elisie, a única que já foi muitas, e, ao mesmo tempo, apenas uma, e a qual eu amei por quase mil anos. Eu estou bem, ficarei aqui no vale dos gritos com Yuri por mil anos, é o tanto de tempo que um amor pode viver. Ela espera que eu a ame, bem, tentarei o meu melhor. Enquanto você, seja feliz com Leican, não pense muito em mim, se melhor, esqueça que um dia eu existi, assim o adeus é menos doloroso. Não se preocupe com o ciclo interminável de destinos entre nós, e os seus amantes sofrendo ao tentar roubar-te de mim, Yuri desfez o destino de nós dois, agora não precisa se preocupar com um final trágico para seu amado Dixon. Com amor, Alexyan Cássio Leican
Elisie engoliu o choro ao ler o verso da carta: Um amor só vive por mil anos, e você já desperdiçou cinquenta e dois.
Ela inclinou-se pela janela, buscando no jardim coberto de neve algum vislumbre do príncipe. Ele ia bem longe, próximo do seu pavilhão. Elisie girou para ir até ele quando o chiado do pombo chamou a sua atenção, ele tentava insistentemente arrancar a fita do seu pescoço, Elisie a puxou, e nesse momento o pombo desfez-se, e a fita caiu no chão transformada nos brincos de almas gêmeas que havia jogado no mar. O que Alex queria dizer com aquilo? Ele queria que elas os pusessem e visse que Dixon era sua outra parte. Sua alma gêmea?
Ela colocou-os nas orelhas, o tilintar foram os únicos sons que ouviu, olhou novamente para a janela, Dixon já sumira entre os muros. Largou a carta em cima da mesa e correu, só o fato de saber que perderam um tempo precioso a fazia temer que Dixon sumisse de novo, morresse de novo, talvez pelas mãos de Mercúrio, ela não conseguia se acalmar com a ameaça que Mercúrio com a suas memórias representava.
Não se importou com os poucos servos perambulando pelos corredores, simplesmente perdeu completamente a compostura, os sapatos saíram dos seus pés, o vestido arrastando no chão prendeu-se a uma pedra escondida entre a neve, rasgou o tecido, porém, nada importava. O tempo parecia tiquetaquear aos seus ouvidos.
― Dixon! ― Gritou lançando-se sobre a porta, escancarando-a. Ele estava sentado na cama, a carta de Alex aberta nas suas mãos. ― Por favor, meu amor, me perdoe. Sei que fui egoísta, mas quem não é? Não somos deuses... e até os deuses são egoístas. Vamos ser feliz agora, ter encontros, ver o rio tristeza desaguar no mar, ver as flores que adora florescerem na primavera...
― Elisie...
― Espere, deixa eu continuar. Te ajudarei a plantá-las, podemos reconstruir uma vida ordinária aqui, longe de toda a bagunça que era o castelo. ― Dixon se levantou, abriu a boca novamente para interrompê-la, porém, ela ergueu a mão impedindo-o. ― Espero muito que me perdoe, eu fui egoísta, mesquinha e...
― Elisie seus...
― Por favor, espere eu terminar de falar. Eu fui tudo isso e ainda fui infiel...
― Os seus pés estão sangrando. ― Gritou ele, sem paciência. Elisie encarou os seus pés sujos e ensanguentados, debaixo deles uma poça escarlate formou-se.
― Vocês aí fora! Chamem um doutor. ― Ordenou ele, erguendo Elisie no colo e a colocando na cama. Se ajoelhou aos seus pés. ― Você é o quê? Uma tonta? Como uma duquesa corre descalça toda essa distância? Deixe de ser imprudente. ― Ele rasgou parte do lençol e limpou o sangue e a sujeira dos seus pés, em seguida arrancou outro pedaço para conter o sangramento.
Estavam tão perto que ela podia sentir o delicioso perfume dos seus cabelos sedosos. Sua mão formigou para se erguer e acariciá-los. Ele encarou-a, fazia tanto tempo que não tinha aquele olhar intenso e esverdeado sobre ela, prendeu a respiração quando ele se inclinou, apoiou as mãos em cada lado da cama, prendendo-a.
― Egoísta? Você foi sim, concordo. Mesquinha, todo mundo é com as coisas que gosta. E infiel? ― Ele inclinou-se ainda mais, o seu nariz roçou o de Elisie. ― O que devo fazer para castigá-la, minha duquesa? ― Seus lábios tocaram-se, Elisie entreabriu os lábios esperando que aquele beijo fosse aprofundando, no entanto, a porta se abriu e um doutor preocupado passou por ela. Dixon se afastou tão rápido, que Elisie não conseguiu conter a gargalhada, notou as orelhas dele, estavam vermelhas, mas mesmo assim, carregava no rosto a face rígida, a face que o seu verdadeiro Cordial carregava sempre.
― Minha senhora, o que aconteceu?
― Fui imprudente, por favor, seja rápido. ― Dixon lançou um olhar de esguelha para ela, que piscou, fazendo-o corar ainda mais. De onde vinha tanta timidez? Ela não conseguia acreditar que o seu marido podia ser ainda mais apaixonante.
Dixon deixou o seu quarto, massageou suas têmporas, logo depois de tomar aquela poção, sua cabeça doía com muita frequência. A feiticeira o alertou que era consequência da quantidade de memórias que ele recebera em pouco tempo. Seu cérebro ainda estava se acostumando, ele suspirou, se não fosse pela carta de Alexyan contando que foram ao passado antes do nascimento de Mercúrio, e mudaram a vida deles, Dixon nunca entenderia por que Elisie estava tão desesperada por seu carinho.
Ela estava com medo, sim, medo, e mesmo assim, fez coisas que nenhuma princesa faria.
Ele quis se estapear, falou e foi tão rude com a sua adorável esposa, um sorriso escapou dos seus lábios, ela já não era a mesma.
Nenhum deles era mais o mesmo. Ele adquirira outros gostos, outras vontades, outros amores.
Dixon queria se desculpar com Elisie, queria dizer-lhe que embora as memórias fossem horríveis, estava contente de saber que ambos começaram uma vida juntos, pois se ela não tivesse devolvido as suas memórias, ele nunca ficaria com ela.
Elisie era uma mulher poderosa, com um ar de prepotência e um olhar que parecia ler todos os segredos perversos da alma de um homem. O oposto das mulheres que desejava, amável, com olhos de gato medroso e obediente.
Ele roçou os dedos nos seus lábios, trazendo de volta o frescor que sentiu ao tocar os seus lábios aos dela. Não importava que ela o traíra, ou o que seja. O que importava de verdade era que...
― Ela me escolheu... um ano comigo foram mais poderosos do que três anos com Alex... ― Sussurrou, orgulhoso, contendo o desejo de voltar para o quarto e beijar a sua linda esposa.
Como ele a queria, queria tanto que o seu coração acelerava ao vê-la, e todo o sangue do seu corpo subia para o rosto.
― Meu senhor, você recebeu uma carta. ― Uma serva avisou, Dixon contorceu o rosto numa careta.
― Maldito seja, por que há tanta gente hoje aqui. Entregue-me.
― É... lamento, meu senhor, é uma ave que não permite que outros a toquem.
― É um... falcão? ― Não precisava de confirmação para saber ser a ave do seu pai, todo o seu sangue gelou naquele instante. Se dirigiu até a ala na qual as aves descansavam. Avistou o magnífico falcão empoleirado no apoio de madeira. Ao se aproximar, ergueu a mão para que o animal identificasse quem ele era, e então pegou a carta.
A letra do seu pai estava tremida e borrada, como se ele tivesse escrito com pressa e aos prantos.
Para Dixon Leican
Não sei como começar... e tampouco tenho explicações sobre isso... ― Dixon se sentou na janela, pois a carta do seu pai continha sete páginas.