Elisie pensava que ao chegar em Olívis, encontraria a ilha sob as mãos imponentes do caos. Felizmente, o estrago da tomada por Darkeng não era como ela imaginava, os alimentos chegaram aos montes no cais, e mesmo sem a duquesa presente para organizá-los, todo o povo separava e contava os sacos de arroz, e os grãos.
Logo o motivo de perfeita organização revelou-se.
― O que faz aqui?
― Um obrigado é muito mais amável.
― Alex, por favor.
― Eu sabia que você deixaria os seus bruxos no reino de Margoth e viria até aqui sozinha e desprotegida.
― Eu saberia me virar.
― Vê isso? ― Ele puxou a manga da sua camisa para mostrar o corte no braço. ― Quando cheguei aqui havia pilhas e mais pilhas de mortos na estrada. Ao dizer que eu era seu emissário, por pouco não fui morto com foices e machados. Eles pensam que o duque é um homem de Darkeng.
― Por isso mesmo eu saberia me virar, sou mulher e ainda princesa de Margoth, o meu povo me reconheceria. ― Elisie respondeu puxando o braço de Alex para analisar o corte. ― Precisa lavar e costurar isso.
― Não há médicos. ― Ela suspirou, ordenou a uma das servas que levassem ao seu quarto uma cesta com remédios e arrastou Alex até o quarto principal do palácio.
― Você sempre me confunde. ― Disse ele em meio as picadas da agulha.
― O que quer dizer com isso?
― Me maltrata, mas, ao mesmo tempo cuida de mim.
― É isso que os amigos fazem.
― Elisie, deixe eu ser seu por um tempo, não precisa nem ser um ano, pode ser por pouco tempo. Me ame e deixe que eu a ame.
― Alex isso...
― Espere, deixe eu explicar. Se me deixar ser seu por esse curto período, quando terminar o nosso tempo, irei sumir, mas antes trarei à memória que você quer que Dixon se lembre.
― Como?
― Era pela poção do filho deformado que vive no vale dos gritos, que eu segui até lá com Briana. Não pensei que estaria tão desesperado, mas enfim, eu me rendo, estou desesperado por você.
― Alex, não é certo... eu não am... ― Ele tapou sua boca com o dedo indicador.
― Não fale, nunca fale isso. Apenas realize esse meu desejo.
Ela assentiu, empurrou o dedo dele para longe, se inclinou na cama, ele a seguiu, lento e silenciosamente soltou os vinte botões do vestido, deslizou a sua mão boa pelos contornos do pescoço de Elisie, e aproximou-se para beijá-la, parou a centímetros dos lábios esponjosos e rosados dela.
Se lembrando que todas as vezes recebiam um t**a no rosto, se recebesse novamente um t**a, não se conteria. As suas lágrimas escorreram desesperadas por sua face. Elisie pareceu ler a sua mente, pois agarrou o seu rosto com as suas mãos e sussurrou antes de juntarem os lábios e as línguas numa valsa divertida:
― Dessa vez não terá tapas no rosto, olhares de desprezo, nem eu ferindo você incontáveis vezes. Dessa vez eu serei sua.
Em cada gesto e movimento dele, Elisie podia sentir a força daquele amor. Era o amor que o destino havia criado, durante muitas e muitas vidas.
Elisie não podia aceitar aquele amor gentil, não depois de todo o m*l que ela o fez, o machucou, o deixou sem esperanças.
― Eu posso mesmo aceitar o seu amor? ― Perguntou ela, quando a embriaguez daquele momento dissipou-se.
― Se for o que o seu coração deseja, aceite-o.
― Não sei o que o meu coração quer, Alex... eu fui abandonada por Dixon. Enquanto a você, você nunca me deixou. ― Alex ia falar algo quando foi surpreendido por gritos no corredor. Bateram na porta do quarto.
― Minha senhora, há alguém que quer conversar com a senhora com urgência.
― Quem se atreve? Eu sou a soberana dessas terras. ― Elisie se levantou, indignada, Alex a parou a meio caminho da porta.
― O que é Alex?
― Minha querida, você está nua. ― Ela corou, correu para a cama e vestiu as suas roupas rapidamente. Uma águia parou na janela.
Alex retirou a carta e recuou quando viu o seu nome cravado nela.
Para Alexyan Leican
Corte o fio que liga você e ela, entregue o líquido e seja meu. Não se esqueça a promessa que me fez em troca dessa poção. Príncipe Alexyan, você já me pertence.
Aquilo não o assustou, ele sabia muito bem o que aconteceria se ele pegasse aquela poção, Bryana tentou impedi-lo, mas era hora de colocar um fim naquela obsessão.
Ele pediu duas poções das memórias para o filho deformado, a primeira era para si mesmo, pois aquela criatura escondida na melancia insistia em dizer que já o conhecia de outras vidas. E o conhecia, ele lembrou-se ao tomar o líquido rosa, ela apareceu-lhe como uma linda mulher no vale e disse que lhe daria a poção das almas gêmeas.
Se ele se entrega para a mulher que amava, eles estariam destinados a estar juntos para todas as vidas, e assim foi, Alex e Elisie ficaram juntos em todas as outras vidas, às vezes era um amor impossível, outros um amor desprezível, mas mesmo assim, ele insistia e fugiam juntos, embriagados pela poção da filha deformada.
Ele terminou de abotoar a sua camisa, escreveu uma resposta rapidamente, e mandou a águia para longe. Olhou para baixo, o cavalo favorito de Dixon era guiado para o estábulo, Alex apertou o maxilar.
― Tão persistente.
***
― Príncipe Dixon, a que devo a honra da sua presença? ― Elisie gravou as suas unhas no corrimão da escada, o seu corpo doía, mas fez um esforço para que não demonstrasse fraqueza diante dele.
― Duquesa, eu... Aquela história, por que me contou uma história daquelas? Acredito em magia, é claro, você me mostrou que ela realmente existe. Mas uma alma presa em um corpo? Isso é insano e irreal.
― Pense como quiser. Eu disse antes, se não acreditasse podia ir embora. Eu abri mão de você quando naquela noite você foi embora rindo da minha história como se fosse um conto de terror para assustar as criancinhas.
― É, eu estava rindo daquilo. Mas seus olhos...
― O que tem os meus olhos?
― Eles eram tristes. Anda são tristes. ― Elisie desviou a atenção para um jarro branco em cima da mesa redonda no canto próximo à janela.
― E por que você acredita que os olhos dela são assim? Antes ela tinha tanta vida e tanta alegria, só foi você entrar na sua vida que isso aconteceu. Agora que fugir como se não fosse você quem a esvaziou por inteira. ― Interrompeu Alex descendo as escadas.
― Vocês dois continuam a contar coisas que eu não sei. Me culpam por coisas que... ― Alex lançou para Dixon o frasco da poção. Em seguida agarrou Elisie para si. Acariciou o seu rosto macio, seus lábios rosados, seus cabelos. Beijou-a na testa e novamente nos lábios.
― Acredito que não poderei ficar por mais tempo. Minha amada. ― Ele encarou Dixon, Elisie fez o mesmo.
Ele abriu o frasco, e bebeu num único gole. Aos poucos o toque de Alex foi afrouxando, e todo o seu rosto se tornando pequenas faíscas translúcidas.
― Alex...
― Seja feliz, eu também serei feliz, minha amada. ― Ele desapareceu diante dos olhos de Elisie.
― Eu... ― Disse Dixon, os seus olhos estavam arregalados, espantados, lágrimas começaram a brotar e a deslizar incessantes. Elisie se deixou cair no chão, isso não era certo, nada estava certo. Ela não podia sacrificar um para ter o outro.
Ela foi tão maldosa com Alex, e mesmo assim... e mesmo assim no final ele desistiu de si mesmo para trazer a memória que Dixon havia perdido.
― Querida... Elisie, eu... lembro de tudo, mas... por que me deu essas lembranças horríveis? Seu amor... seu amor é egoísta.
― Sim, todos somos egoístas, Dixon. Seja por amor ou poder, todos somos um pouco egoístas. ― Eles ficaram lá sentados no pé da escada chorando, ela com remorso e culpa, ele com medo e tristeza.
Quando as lágrimas não caiam mais, e a voz estava já rouca, Elisie se levantou e estendeu a mão para ajudar Dixon a se levantar, ele ignorou-a e levantou-se sozinho.
― Se era o que você queria. Ficarei aqui. ― Ele subiu as escadas.
Três dias passaram, Elisie não se encontrou com Dixon nenhuma vez depois daquilo, ela afundou-se em trabalho, se concentrou em acalmar o desespero do seu povo e contratar trabalhadores para o palácio, Silve, o mordomo de meia-idade bateu na porta e entrou carregando um grande embrulho e algumas cartas.
― É de Margoth?
― Sim, minha senhora. É uma do rei e outra da senhorita bruxa. ― Elisie abriu a de Briana, a suas mãos tremiam, tinha medo de que a resposta para sua pergunta fosse insuportável e dolorosa. Soprou o ar com força e então começou:
Para Elisie Allen
Você quer saber o que aconteceu quando eu fui com o príncipe Alexyan para o vale dos gritos?
Creio que, como ele já entregou a poção para o sexto príncipe, eu tenha a permissão de dizer.
Em troca das poções ele entregou-se para o filho deformado do vale dos gritos. Não parecendo, esse semideus é uma jovem moça, que queria um amor de mil anos para suportar viver presa naquele lugar sombrio. Baki foi quem sugeriu isso. Ele sofria dia após dia por ver a sua irmã sozinha e tristonha ali.
Não chore por ele, ele fez isso para se redimir, pois, ele fez algo muito errado no passado, não naquele nem nesse, mas em um passado muito, mais muito distante. Só seja feliz com o seu amor, não é todos que podem ter o seu ser querido de volta dos mortos.
― Minha senhora, gostaria de abrir o pacote?
― Quem o enviou?
― Não diz aqui. Só foi endereçado a senhora. ― Elisie pegou o pacote e pediu que Silve se retirasse.
Era um vestido antigo e rústico, feito com peles de animais. E enrolado nele um livro.
Tu que eras e é a deusa mais linda que os meus olhos já se fixaram. Sinto que fui errado com você, sinto que todo o nosso amor foi uma grande ilusão criada pela semideusa Yuri, a que vive naquele vale gritando e reclamando da sua desgraça. Pedi-lhe que prendesse você ao meu destino e fossemos tão loucamente apaixonados por toda vida, e talvez a próxima. Só havia um problema, em todas as vidas, quem ousa-se amar-lhe e querer roubar-lhe de mim, teria um final h******l.
E assim foi, o seu esposo foi morto por um urso quando saiu para caçar. Lina, pois ele ficava no meu caminho até você. Espero que um dia, não nessa vida, mas em outra eu tenha coragem para lhe contar.
― Impactante, não é. ― Perguntou a velha feiticeira, sentada no sofá ao lado da estante de livros. ― É raro ver um jovem tão sedento por um amor eterno, os amores eternos são apenas para os deuses.
― O que você faz aqui?
― Vim para ajudar você.
― Por que você me ajudaria?
― Pelo simples fato de admirá-la. Foi corajosa para desafiar Gomon, foi uma excelente rainha mesmo com a perda do seu amado e a traição do seu pai. Você, Elisie, não entende o motivo de todos se apaixonarem por você, mas esse é o motivo, não tem medo de proteger os que ama. Não tem medo de ir contra as regras e usar roupas inapropriadas, nem tem medo de voltar ao passado e mudar uma grande tragédia.
― Só por algo como isso?
― Não, por que eu invejo você, por ter algo que eu nunca tive. ― Ela fez uma pausa dramática, como se dizer aquilo custasse muito. ― O amor da minha mãe.
― Sua mãe?
― Bruxyns. ― Elisie se deixou cair na cadeira.
― Você é a filha de Bruxyns.
― Não é necessário tanto alvoroço. Sou a preciosa filha de Bruxyns, o meu tio não conseguiu enganar a minha mente para que eu acreditasse que ele era meu pai. Eu simplesmente desapareci por muitos anos. Naquela floresta eu vi o amor de minha mãe em você.
― Isso é confuso, por que você veria isso, se eu nunca tinha me encontrado com a bruxa.
― Como Laura, garota. Não sei se foi por pena ou por carinho que Beatrice lançou sobre você seu amor. ― A feiticeira riu penosamente. ― Esse amor confundia os bruxos, seduzia-os, mas também te protegeu de Gomon.
― O que você quer de mim?
― Nada.
― Não acredito nisso, ninguém ajuda por nada. Quer a sua amada mãe perto de você?
― Sim, quero ficar perto dela e receber o amor que você roubou de mim.
― Vocês, deuses falam tanto de amor, mas conseguem m***r os próprios irmãos, e jogar os próprios filhos num vulcão.
― O amor não é simples como você pensa. Veja. ― Ela chamou Elisie até a janela, no jardim de arbustos Dixon estava sentado conversando tranquilamente com Jeremy. ― Você fez muita maldade para ter ele de volta, e foi egoísta ao ponto de devolver memórias horríveis para ele, só para ser amada como antes. Acha que valeu a pena. ― Dixon olhou para ela, havia desprezo no seu olhar. ― Nessa vida, ele amava o pai dele. Você transformou quem ele amava em um monstro.
― Eu sou humana, não estou livre de erros. Por favor, não me perturbe mais do que já estou perturbada. ― A feiticeira abraçou Elisie, que se deixou acolher pelo toque daquela mulher.
― Demorará, ele demorará a te perdoar. Mas o amor e carinho que ele sente por você sempre será mais forte. O tempo que corre entre nós sempre dará um jeito de roubar a nossa dor.