Capítulo 16

2566 Words
Debaixo das frenéticas folhas da macieira recém-criada, Elisie sorveu o chá de hortelã lentamente. Perdera a conta de quantas vezes elogiou Briana por sua rapidez e perfeição. As únicas coisas que faltavam naquela recriação perfeita do jardim de Dixon, era seu dono e os seus cães. Porém, a sua ausência não causou dor a Elisie, era madura o suficiente para se contentar com a vida e a união que teriam. É por Jeremy, usou essa desculpa diversas vezes, apesar de que antes que ela soubesse da presença de Jeremy no castelo, insistiria na união com a desculpa de ter Dixon ao seu lado. ― Mamãe! ― Gritou Jeremy do início da passarela de pedras. Correu até ela. ― Meu amor, por que está aqui fora usando apenas essa capa fina? Não parece, mais ainda é inverno. ― Desculpa, mamãe, eu queria ver você. ― Elisie o pegou no colo, dando-lhe vários beijos na sua bochecha. ― Eu não sumirei novamente, agora ficaremos juntos para sempre, meu amor. ― E papai? Eu chamei papai, mas ele não me ouviu. Eu não gosto daquele loiro. ― Meu amorzinho, Dixon é o seu único pai, o príncipe Alexyan, apenas cuidou de nós enquanto o papai resolvia um enorme problema. ― Mas eu gosto do papai Alex. ― Elisie suspirou. ― Jeremy! ― Dixon se aproximou, indignado. ― Venha, eu já não disse para ficar longe dessa mulher? ― Mamãe... ― Ela não é sua mãe. ― É sim. ― Gritou Jeremy, Elisie o acalmou e pediu para que a serva o levasse para seu quarto. ― Ele é só uma criança. ― Sim, por ser uma criança, eu ficaria muito grato se a senhorita não o confundesse. ― Dixon... ― Princesa, eu não dei a minha autorização para me chamar pelo meu nome. ― Elisie mordeu a língua, controlando-se ao máximo. ― Alteza... o que achou desse jardim? Parece familiar? ― A raiva sumiu instantaneamente do seu semblante, Dixon por um momento foi sufocado por uma amargura sem explicações. Encarou o jardim, sentiu o aroma das rosas, parecia familiar, mas desde que nascera, aquele lugar era somente um campo verde com poucas árvores secas, então de onde vinha aquela sensação? Não sabia explicar, porém, pelo olhar dela, ela sabia. Elisie se aproximou, pode sentir o cheiro do seu marido, ele ainda tomava banhos aromáticos, era doce. ― Deixe-me cuidar de você. Deixe-me ser sua esposa. Não importa que você não se lembre de mim, faremos novas lembranças. ― Ela acariciou a face de Dixon, e com a outra mão agarrou-se a capa que ele usava. Os olhos incrivelmente verdes do seu amado olhavam diretamente nos dela. Sim, olhe-me assim, descubra o amor escondido no fundo do seu coração, eu sei que há amor aí. Pensou Elisie aproximando os lábios dos dele. ― O que pensa que está fazendo? ― Eu ia beijá-lo. ― As bochechas de Dixon enrubesceram, e os seus olhos desviaram-se dos dela, tímidos. ― Em Margoth todas as damas são depravadas como a senhorita? ― Não, claro que não. Eu só sou depravada com o meu marido. ― Eu não sou seu marido. ― Ainda. Será quando os meus bruxos terminarem de descongelar a terra. ― Dixon a afastou, fingindo analisar meticulosamente a pétala de uma margarida. Elisie disfarçou o sorriso que ameaçava escapar dos seus lábios, amava ver o seu sempre rude e inexpressivo príncipe Cordial tímido e indefeso. Agora ela era a má da história, quem destruiria mundos e reinos se ousassem fazer-lhe m*l. ― Porque a senhorita quer insistentemente se casar comigo? Sou o sexto príncipe, não sou rico como os outros príncipes, muito menos tenho grandes chances de tornar-me rei. ― Resmungou ele, Elisie se aproximou novamente, enroscou os seus braços ao redor da cintura dele, que ficou rígido. ― Por que eu te amo. ― O silêncio passou por eles lentamente, como um ser vivo que rouba a voz dos que precisam desesperadamente dizer algo, então tomando coragem, Dixon girou entre os braços de Elisie, ficando frente a frente. ― Você fugiu com Alexyan por um ano. Ele ama você. ― Eu não fugi com Alex, fomos atrás dos bruxos. Somos amigos, apenas isso. É você quem eu quero. ― Volte para seu reino. Não confunda o meu filho e eu. ― Jamais confundiria vocês. Estou sendo sincera. ― Como diz que me ama, se nunca nos vimos antes? ― Você não se lembra, como poderia? Mas, não importa se se lembra de mim, e o que tivemos. Podemos apenas recomeçar. Meu príncipe Cordial. Dixon se soltou dela e praticamente correu para dentro do castelo, estava ofegante, assustado. Aquele nome causou-lhe calafrios. *** Foram necessárias duas semanas para descongelar e fazer nascer as plantações para colheita. Os animais que sobreviveram estavam raquíticos e fracos, mas com a ajuda da bruxa e os seus bruxos o reino de Darkeng se reergueu rapidamente. Não demorou para que outros reinos soubessem do que acontecia. Logo Elisie se viu no meio de diversas cartas de reis, duques, marqueses, condes, viscondes. Todos queriam a ajuda de seus bruxos. Eles ofereceram diversas coisas, um ofereceu o seu filho mais jovem, outro, ofereceu o seu castelo em troca de dar fim ao inverno. Ela não sabia se estavam brincando com ela, por ser uma mulher capaz de pedir a mão de um homem, ou desesperados demais para dar fim a toda catástrofe do inverno de três anos. ― Elisie, leia essa aqui. O duque de Artilia, em Nox ofereceu-lhe o posto de duquesa ao seu lado e a posse de todo o ducado, em troca de ajudar a acabar com o inverno. Ele diz aqui que será seu e*****o, se conseguir livrar o seu povo da fome. ― Briana, escolha uma dessas cartas e a responda. Você é a bruxa, pode pedir e escolher qualquer uma dessas propostas. ― Não preciso ser duquesa, nem quero terras. Quem eu sou, dá-me direito a ter o mundo aos meus pés. E por agora, só quero aproveitar a vida que eu não pude ter antes. Eu conversei com Alexyan... ele disse que já podemos ir para Olívis, nada mais nos prende a esse castelo. ― Como ele está? ― Como sempre. Não parece estar morrendo de um coração partido. Ele até falou sobre o seu casamento, Dixon está relutante, mas como o rei já deu o seu consentimento, já são casados. Quando partirmos, ele será obrigado a nos acompanhar, caso não deseje ser expulso. Você está bem com isso? ― Como assim? ― Não ter uma cerimônia. ― Elisie gargalhou, desviando a sua atenção para o gavião de Dixon parado na sacada. ― Briana, para quem já foi rainha e rei, coisas como uma cerimônia de casamento não passam de frivolidades. ― Respondeu se dirigindo até a sacada. Ele balançou a cabeça, aguardando o afago da sua dona. Em seguida estendeu a perna para que Elisie retira-se a carta. ― De quem é? ― É de Baki. ― O que diz? ― Elisie deixou a carta cair, recuou um passo. O que os brincos que ela havia jogado no mar estavam fazendo ali? Com as mãos trêmulas, recuperou a carta. O destino não é um fio frágil que qualquer um possa cortar e amarrá-lo a outro. Mas se Alexyan abdicar desse destino contínuo e ininterrupto, você poderá costurar você mesma o seu futuro. Atenciosamente, o semideus, Baki. ― O que diz? ― Perguntou novamente Briana, Elisie olhou para o jardim lá em baixo, os seus olhos cruzaram-se com os de Dixon, que não parecia nada contente ao ver o seu pássaro treinado a obedecer apenas a ele, nos braços de uma princesa estrangeira. Elisie suspirou. ― Devo pegar o meu filho e fugir para Olívis? Esse amor está se tornando incomôdo. ― Elisie, você tem certeza do que está dizendo? ― Não tenho mais certezas. Estou exausta, Briana, já não sou mais rainha, as responsabilidades não estão mais sobre mim. Vou dar um passeio, se o sexto príncipe vier aqui. Diga que estou indisposta. Elisie interrompeu os seus passos ao chegar em um dos corredores do terceiro andar. As paredes de um lado ao outro estavam repletas de quadros. Retratos do primeiro rei de Darkeng até o último. Elisie andou até o último, o seu retrato surgiu, usava uma coroa enorme cravejada de esmeraldas, Elisie tocou no seu rosto da pintura, parecia tão feroz, e, ao mesmo tempo, completamente solitária. ― Se a doce concubina Margareth toma conhecimento dos seus sentimentos, não creio que te deixará viver por muito tempo. ― Elisie suprimiu um grito de espanto, ao sentir o hálito quente ao pé da sua orelha, os seus olhos desviaram-se do retrato para encarar o príncipe herdeiro, Kaien Leican ― Oh! Alteza. ― Elisie se curvou, e logo encarou o quadro, pensando que o quadro dela fosse algo que Baki havia feito. Entretanto, a sua imagem sumiu, dando lugar a pintura de Mercúrio. ― Perdão, alteza, apenas fiquei encantada de como o pintor conseguiu capitar a imagem perfeita do vosso rei. ― Kaien enrugou as sobrancelhas, encarou o quadro. Kaien era como Dixon, os cabelos, os lábios, o formato do queixo, menos os olhos, os dele eram castanhos. ― Com o perdão do comentário, princesa, meu pai, o rei parece um sapo inchado. ― Ela virou-se para o quadro, não conseguiu conter a gargalhada, que saiu naturalmente. Kaien a acompanhou. ― Vejo que também sabe rir. ― Por que diz isso, alteza? ― Quando chegou aqui, tinha um semblante sombrio no rosto, pensei que fosse o cansaço, não obstante, ao longo dos dias, nos nossos jantares, a senhorita ainda mantém esse semblante sombrio. ― Deve ser as roupas. ― Ah! Sim, eu..., na verdade, todos estamos curiosos. Por que a senhorita usa vestidos de viúva? ― Bom... quando... a verdade é, quando eu estava em busca da bruxa, os meus vestidos foram roubados, sem opções, tive que comprar os vestidos de um viajante. ― Ah, certo. Gostaria de passear comigo pelo novo jardim? Confesso que fiquei encantado. De onde surgiu a ideia? ― Uma pessoa que amo muito construiu desse jeito, ele amou aquele jardim, pois era a única coisa que podia amar. ― Ficaria encantado em encontrar tal pessoa. ― Eu também. Mas ele morreu, morreu com a última ervilha-de-cheiro que se foi devido ao inverno. Eles seguiram pelos corredores até sair no jardim, Elisie cruzou os braços, o frio ainda insistia em atravessar a barreira dos bruxos, mas era suportável. Seguiram pelos caminhos de pedras por um tempo, Kaien parecia entender que ela queria silêncio, ou talvez, ele também queria silêncio. Ela parou de ouvir os passos dele, então parou também, o príncipe herdeiro havia se agachado e acariciava com delicadeza o jarro com ervilhas-de-cheiro. ― Meu sexto irmão chora toda vez que vê essa flor. ― Por que? ― Ele diz que não sabe o porquê, eu penso que ele apenas não quer nos contar. Dixon é diferente dos meus outros irmãos, não apenas por que somos filhos da mesma mãe, mas por que, ele sempre foi assim, amoroso e delicado. ― Elisie abriu um discreto sorriso, sentindo saudade dos braços cálidos de Dixon. Kaien levantou-se, estendendo uma flor para ela. ― Princesa Elisie, espero que o seu desejo de se casar com o meu irmão não seja por vaidade ou esses fetiches de mulher. Eu quero que ele seja feliz. ― Eu o farei feliz, eu o farei o homem mais feliz do mundo. ― E Jeremy? São poucas as pessoas que sabem disso, mas penso que é importante você, princesa, saber. Jeremy não é filho do sexto príncipe. Contra o rei, Dixon o adotou, e o fez o seu filho amado. Conseguirá amar uma criança que não é sua? ― Jeremy é meu desde o primeiro momento em que o vi. ― Kaien sorriu satisfeito e despedindo-se, sumiu entre as roseiras altas. Elisie seguiu até a estufa. O seu corpo chocou-se contra outro corpo, agarrou-se a cintura dele, e caíram no chão. Elisie encarou aqueles olhos verdes, e os lábios rosados. Ele também a encarava, embora não dizia nada com aquele olhar. Elisie o beijou quando sentiu que ele tentava se soltar. Primeiro apenas tocou nos seus lábios, pressionou sentindo a suavidade da pele, depois forçou entrada, até que Dixon a aceitasse e retribuísse àquele beijo. ― Eu casarei com você, mas não me toque. Nunca me toque ― disse ele desenvencilhando-se de Elisie e se afastando. A princesa, que já foi rainha se limitou apenas a encolher os pés, e ficar sentada no chão frio, sem nada vir a sua mente. Apenas ficou lá, sentada no chão, sem lágrimas, sem coragem. Uma mão estendeu-se para ela. ― Não é bom que outras pessoas vejam a nossa princesa nesse estado humilhante. ― Elisie não aceitou a mão estendida, se levantou e seguiu para o labirinto de arbustos que Briana queria criar. Ele seguia-a em passos curtos, silenciosos. ― Até quando vai me seguir. Quero ficar sozinha, Alex. ― Não estou te seguindo, só estamos indo pelo mesmo caminho. ― Elisie se sentou ao chegar no centro do labirinto, no balanço, Alex sentou no outro. ― E agora? Vai me dizer que esse era seu destino? ― Sim, eu pedi para Briana construir esse labirinto. ― Porquê? ― Alex balançou-se, olhando para seus pés, pensativo por um tempo, e então disse num sussurro: ― Para me esconder enquanto você estiver aqui. ― Você tem uma casa enorme e magnifica, é filho de uma princesa e um marquês. Apenas vá para casa. ― Todos voltamos para o castelo por conta da escassez de alimentos. Não podemos voltar agora. ― Elisie suspirou. ― Jeremy disse-me que você fingiu que não o viu. ― Alex parou subitamente, fechou os olhos com força, não podia chorar. Porém, o nó que se formou na sua garganta parecia queimar. ― Eu... não sou mais pai dele... o filho deformado foi um tanto cruel... deixando-o se lembrar de mim. ― Alex explodiu num choro ininterrupto. Elisie abriu a boca para consola-lo, no entanto, também carregava magoas, deixou a suas lágrimas escorrerem silenciosas. Se levantou e abraçou Alex, que a envolveu em um abraço esmagador. O cabelo dele tinha cheiro doce de tangerina, ela nunca percebera. Ele ergueu a cabeça, os olhos estavam vermelhos. Elisie soltou um riso fraco passando os dedos nos cantos dos olhos dele. ― Você não banhou hoje Alex, os seus olhos estão cheios de remela, nojento. ― Ele explodiu novamente, mas em uma gargalhada, e voltou a abraçar Elisie. ― Você era assim quando criança, antes de lembrarmos das outras vidas. Brigava comigo por coisas bobas. Elisie fechou os olhos, sentindo o cheiro dos cabelos de Alex, e ele, se manteve quieto abraçado a cintura da sua amada, ficaram em silêncio, confortáveis com aquele momento, como nunca mais tinham se sentido em momento algum no passado. ― Alex... eu devia apenas pedir Jeremy para mim? E casar com você de novo e assim viver em Olívis para sempre, sem preocupações e dores? ― Por que? Não sou eu quem você ama. ― Aquele que é o sexto príncipe, tampouco é quem eu amava. Penso que o verdadeiro Dixon realmente já morreu. ― Mas... ― Sim, eu sei. Ele é diferente devido a que teve uma vida diferente. Por que ele foi feliz, não precisa de uma princesa como eu.
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